Editor-Chefe: Jota Marcelo

Uruaçu, Estado de Goiás, 24 de março 2019

URUAÇU-HISTÓRIA

DA REDAÇÃO, COM COLABORADORES

2. Fundação de Uruaçu. Gaspar Fernandes: Uma Vida de Lutas

A história da povoação de Uruaçu começou com a descoberta das grandes jazidas de ouro do Tocantins. Tão grandes e ricas eram as jazidas, que, ao criar-se o imposto de captação, foi determinada uma taxa mais alta por escravo. Constituindo-se, segundo Palacin, a região de maior densidade mineira, com das descobertas das minas de Traíras, Água Quente, São José do Tocantins e Cocal, nos anos de 1732-1736.

Todas os anos, durante a temporada das secas, que em Goiás é de abril a outubro, saíam os bandeirantes dos arraiais mais populosos em busca de ouro, avançando sertão adentro.

Já nos fins da década de 1730, as descobertas foram rareando.

Dizem os mais antigos que Amaro Leite Moreira, possuidor de grande quantidade de escravos, não sendo feliz na garimpagem de Cocal, resolveu saltar o rio Maranhão no Porto das Lavras, a fim de explorar o Ribeirão Passa Três, Grotão e Barreiro Rico. Subiu pelo Passa Três até suas cabeceiras, na Serra do Pilar.

Um dos seus companheiros, de nome Antônio Machambombo, ficou acampado, explorando os afluentes do rio Passa Três. Ali foi atacado pelos ferozes canoeiros. Não se sabe, até hoje, de quantas pessoas morreram. Mas o rio onde ele estava acampado ficou batizado com seu nome.

Essa história que corre na boca dos mais antigos moradores da região, quem me contou foi o velho Benedito Coelho Furtado, velho sertanejo, proprietário da fazenda Quebra Frasco.

Conta-se também que o nome Machambombo provém de uma homenagem que o primeiro fazendeiro que comprou as terras quis prestar a seu antigo feudo, lá para as bandas de Minas Gerais. Assim que ele registrou as terras em seu nome, batizou o córrego com o nome de Machambombo.

Mas a cidade de Uruaçu foi fundada por Gaspar Fernandes de Carvalho, nascido no município de São José do Tocantins, no dia 17 de março de 1851, filho dos abastados fazendeiros Francisco Fernandes de Carvalho e Ana Francisca da Silva, possuidores de grande número de escravos.

Dada a precariedade do ensino no sertão goiano, o menino Gaspar matriculou-se na escola do professor José Bonifácio Sardinha, em 1859, completando o curso primário. Deixando os bancos colegiais, continuou a ler bons livros da literatura portuguesa, aperfeiçoando mais o seu cabedal intelectual. Em 1871, assumiu a direção da fazenda de seu pai. Dotado de grande energia e capacidade de ação, remodelou a fazenda, multiplicou o rebanho, a produção de açúcar e outros cereais. No mesmo ano casou-se com dona Cândida Martins Pereira.

Recebeu, como dote, a fazenda Vão do Caetano, onde passou a residir em 1886, quando se tornou coronel da Guarda Nacional. Remodelou a fazenda, construindo, com a ajuda do braço escravo, uma grande usina de açúcar e produção de aguardente, criando gado cavalos e burros. Tornou-se abastado comerciante de tecidos, armarinhos e estivas.

Gaspar Fernandes, através de jornais que assinava, acompanhou o movimento abolicionista. Ao ver a notícia da Lei de 13 de maio, chamou os seus escravos e declarou-lhes que estavam livres, mas que poderiam ficar morando na fazenda, mediante um contrato de ajustamento, resultando deste contrato a garantia de trabalho para todos.

Longe das lides partidárias, vivendo exclusivamente das suas atividades ligadas à agricultura, pecuária e sua casa comercial, sentiu-se injustiçado na cobrança de impostos e tributos, dirigiu uma carta a José Xavier de Almeida, candidato à presidência do Estado. Este fez ver o erro de estar ele, o coronel Gaspar, arredio da política e da administração da Justiça, e convidou-o a participar nas hostes dos Bulhões. Eleito presidente do Estado, Xavier de Almeida entregou-lhe a administração da Justiça, nomeando-o Juiz Municipal do Termo de São José do Tocantins e colocando à sua disposição os demais cargos do município.

Deixou, então, a administração da fazenda Vão do Caetano sob a administração de seus filhos, indo residir na sede do município, para onde levou o seu estoque de tecidos e ferragens.

Em 1909, cai a oligarquia dos Bulhões. O velho coronel, conhecedor da crítica situação que atravessava o Estado, com repercussão em São José do Tocantins, resolveu opor resistência, até que pudesse transferir seus haveres e família para o município de Pilar.

Esquivando-se de enfrentar uma luta fratricida contra os seus ferrenhos inimigos, no dia 9 de junho de 1909, com uma comitiva composta de grande número de pessoas, o velho patriarca deixou o seu município de origem, em busca de justiça e tranqüilidade.

Os pilarenses receberam-no de braços abertos e ofereceram-lhe a chefia da nova situação; mas o velho, já meio descrente, não aceitou a oferta. Preferindo voltar novamente à vida privada. Resolveu comprar uma fazenda que comportasse toda sua família, parentes e aderentes. Adquiriu um grande latifúndio: as fazendas Passa Três e Curralinho – oito mil alqueires -, situadas entre os rios Passa Três e Maranhão, até o pico da Serra Dourada, cuja escritura foi lavrada com a data de 21 de abril de 1910.

Escolheu o local mais apropriado dentro da área, às margens ao Ribeirão Machambombo, ali edificando sua casa. Justamente no local obrigatório da travessia das tropas e boiadas, local apropriado para compra e venda de gado, às margens do Ribeirão de Águas Claras, quase no pontal do Machambombo com o Passa Três. O aspecto majestoso do ribeirão, a área de floresta o rio Passa Três, a pureza das águas, a amenidade do clima, um trato hospitaleiro do velho coronel e filhos foram as condições que propiciaram a fundação da cidade de Uruaçu.

Aproveitando-se do espírito religioso dos habitantes do sertão goiano, o velho coronel houve por bem construir uma igreja dedicada a Nossa Senhora Santana, doando, com seus filhos, uma gleba de terra de um quilômetro em volta da igreja. Isto era suficiente para satisfazer as necessidades religiosas do sertanejo goiano.

Terminada a construção, contratou o padre Alexandre, da Ordem Secular, a fim de dar assistência a seus netos.

No ano seguinte, mandou buscar o seu irmão João Fernandes com a família, pai de Lastênia Fernandes de Carvalho, que abriu a primeira escola particular – que dirigiu até o ano de 1918 -, quando voltou, novamente, para São José do Tocantins, devido à incompatibilidade do esposo Olívio Francisco de Carvalho com o velho coronel.

Um ano depois, a escola foi reaberta por Manoel Fernandes Carvalho que a fez funcionar até 1920, ano em que se elegeu Conselheiro Municipal da cidade de Pilar. Como conselheiro elaborou um projeto de lei criando o distrito de Santana, transformado em lei no dia 4 de Janeiro de 1924. O coronel Gaspar foi nomeado juiz distrital. Ele mesmo instalou o novo distrito a 28 de junho do mesmo ano, com uma festa fenomenal. Mandou buscar a banda de música de São José do Tocantins e músicos da cidade do Peixe para a missa cantada e entronização de várias imagens de santos na capela local. Nestas alturas, o povoado estava bastante crescido, sendo elevado o número de crianças em idade escolar matriculadas na escola particular. Então, o coronel Gaspar solicitou ao governador a criação de uma escolar pública, remetendo os mapas à Diretoria do Interior e Justiça, no que foi atendido.

Em 1926, fez uma representação ao administrador dos Correios, pedindo a criação de uma agência postal para o novo distrito. Depois de alguns embaraços criados por alguns inimigos políticos que exerciam cargos de chefia nos Correios, a agência foi criada, sendo nomeado o senhor Manoel Fernandes para o cargo de Agente Postal, Antônio Adriano e Júlio Antunes foram os primeiros estafetas entre Pilar e Uruaçu.

O coronel construiu, por sua própria conta, o cemitério local, a cadeia pública e um prédio para o grupo escolar.

Nos anos de 1930, a República dos Coronéis debatia-se agonizante. O velho coronel não hesitou: fundou, no seu feudo, a Aliança Liberal, organizando um considerável corpo eleitoral.

Quando triunfou a Revolução, Uruaçu foi elevada a município pelo Decreto nº 1.204, de 4 de Julho de 1931, anexando os distritos de Descoberto, hoje Porangatu, e Amaro Leite, hoje Mara Rosa. O velho Gaspar, adiantado em idade, foi nomeado Juiz Municipal. Os demais cargos foram providos por seus parentes.

A instalação do município foi no dia 7 de setembro de 1931. Deu-se início as solenidades com uma missa campal realizadas às 8:00 horas da manhã. Às 11:00 horas, reuniram-se no Paço Municipal todas as autoridades nomeadas, apresentando, no ato da instalação, o interventor do Estado, Dr. Pedro Ludovico Teixeira, o Dr. Augusto Ferreira Rios, juiz de direito da comarca de Jaraguá; pela prefeitura de Itaberaí, Dr. Eduardo de Freitas; pela prefeitura de Jaraguá, Sebastião Gonçalves de Almeida; representando a Igreja Católica, Dr. Florentino Simão, pela Prefeitura de Niquelândia, o padre Teófilo Guinda (texto transcrito fielmente do livro Vivências no agreste, páginas 21 a 24/capítulo V. José Fernandes Sobrinho. Editora Bandeirante Ltda. Goiânia. 1997). Postagem original no site do JORNAL CIDADE: setembro de 2005.

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