CULTURA & EDUCAÇÃO

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‘A Baiana deixou saudades’ / Iraides Barbosa

— Olha o leite, olha o leite.

Ele tinha pressa em fazer toda a entrega ainda pela manhã. O produto era perecível. Acaso não cumprisse a tarefa, teria grande prejuízo. O leiteiro percorria pelas ruas e avenidas da cidade de Uruaçu, Goiás, fazendo ele próprio, o anúncio conhecido por todos. Gostava daquele ofício. Para realizar o seu trabalho se utilizava de uma carroça de madeira, com pneus e movida por tração animal. Nas laterais externas, uma caixa também de madeira com tampa onde ele guardava as suas anotações e alguns objetos: um canivete, algumas chaves e ferramentas. O carroceiro se sentava em uma espécie de banco, uma travessa fixada nas extremidades, sem conforto algum, mas que permitia que conduzisse o animal ao menos sentado, com dignidade. Conduzindo o veículo, uma égua em ótimo estado. Baiana tinha os pelos reluzentes. O animal forte e veloz se adaptou à condução daquela condução que percorria lentamente pelas ruas da cidade. De pelos curtos, cor baio, tinha as narinas abertas. As suas orelhas pontudas se movimentavam em direção ao som.

Naqueles tempos não se comprava leite em caixinha. Aquele era o último ano da década de 70, contudo, Murilo desconhecia a pasteurização criada no século 19. Ele não sabia que o leite pudesse ser armazenado em uma pequena caixa, o suficiente para o consumo do dia, podendo ser consumido em até quatro meses estando a caixa  fechada e em até três dias após aberto,  isso porque a embalagem é composta por seis camadas de papel, polietileno de baixa densidade e alumínio. Se lhe dissessem ele não acreditaria. Claro que preferia contar com aquilo que conhecia muito bem. Seguia transportando o leite em leiteiras do tipo galões de cinquenta litros, de alumínio, com alça e tampa enroscada.

Ele sabia do endereço de todos os fregueses. Ao se aproximar da casa de Ana Caroline, mais uma vez anuncia. — Olha o leite. Olha o leite.  — A voz era de um homem trabalhador que se levantava ainda enquanto era noite. Ele tirava o leite das vacas, coava o líquido em tecido alvo e de algodão e armazenava em galões. Estando a carga pronta, preparava a Baiana, que não reclamava de sua sina. Estando tudo pronta, a dupla se retirava da Vila Popular em direção ao Centro da cidade.

— Olha o leite. Olha o leite. — Ele observava atento a casa da próxima cliente a ser atendida. Diminuiu a velocidade do animal que certamente apreciava os repousos rápidos que aliviava as suas patas cansadas. Para cada entrega somente dois minutos de interrupção daquele longo percurso diário.

— Olha o leite. Olha…. —  O carroceiro não teve tempo de entender o que ocorria. De súbito a carroça foi puxada num arranco que fez o homem pular no chão. Os galões se movimentaram ameaçando derramar todo o conteúdo, lavando a calçada de tinta branca. Esperto, Murilo segura os galões. O cabeçalho, uma peça de madeira acoplada ao eixo frontal, desabou por terra. Baiana estava caída na calçada da casa da freguesa, em agonia, se debatendo sem forças. Enfraquecida ela balançava as patas como que a pedir socorro. De sua boca um relincho abafado e afogado em sangue. Aquele corpo todo tremia a dor de um ataque feroz. Na ânsia pela sobrevivência ela tentava se levantar, mas somente a cabeça alongada, num grande esforço de sustentar o seu próprio peso, faz um ligeiro movimento, contudo, o membro foi alcançado por presas que arrastavam o animal, a carroça e a carga. Acaso o carroceiro estivesse ainda no veículo e também teria sido arrastado sem esforço. Dentes afiados eram enterrados no lombo do bicho imobilizado. Outro par de mandíbulas com caninos longos e pontiagudos cortavam os músculos da égua com fome secular. Uma terceira boca atacava o animal no pescoço, asfixiando e abocanhando um amontoado de couro e carne viva, movimentando freneticamente a cabeça de um lado para outro, tornando a mordida ainda mais letal.

A cena de horror trazia um desconhecido pavor para o carroceiro em choque. Ele tentava defender a sua égua. Os seus olhos registravam a agonia da Baiana, enquanto saltava de um lado para o outro. O seu desespero era tamanho que não permitia espaço para pensamentos. O seu corpo todo era de dor. A dor da perda. Da inutilidade. O que fazer para salvar o ataque repentino? Não era do tipo valente que andava armado. Entretanto, se naquela hora as suas mãos alcançassem uma arma de fogo, teria atirado pela primeira vez, certamente.

Os dentes dos predadores eram afiados em excesso. Pareciam cortar a carne vermelha como se fosse um papel. Três animais devoravam Baiana que totalmente inerte, sucumbia ao ataque dos mamíferos carnívoros. Cada um era capaz de ingerir até sete quilos de carne por dia. As inúmeras mordidas sufocaram a pobre Baiana até que ela parou de respirar.

Sim. A Baiana foi atacada pelo segundo maior felino do mundo. O leão. Ela foi devorada por três leões em plena avenida de uma cidade brasileira. Os leões, carnívoros, tinham a ânsia faminta por liberdade e por alimento. Eram mantidos em cativeiro em um circo, lamentavelmente. Aquela arena não trouxe um bom espetáculo para a cidade, ao contrário, protagonizou uma cena surreal e de uma tristeza assombrosa. Os leões não se davam conta que devoravam uma força imprescindível para o trabalho do leiteiro.

Enquanto isso Murilo ainda não identificara o perigo que ele próprio corria. Em transe insistia:

— Sai cachorro. Sai cachorro!

 

Iraides Barbosa, brasileira, advogada, inscrita na OAB-GO, graduou-se em Direito pela Universidade Católica de Goiás, hoje PUC GOIÁS. Escritora. Cursou Redação Oficial na Universidade Católica de Goiás e Formação Profissional “Escrita do Eu”, na Escrever Escrever, Lisboa, Portugal. Encontra-se inscrita no GAEB, ULA e UBE – Seção Goiás. É autora dos contos/fábulas infantis: O Barquinho De Papel, Editora Kelps, 2020; Pandora e a Flor, 3ª Coletânea GAEB, Editora Kelps, 2020; A Garota da Latinha Mágica, Editora Kelps, 2021 e do romance QUATRO RAZÕES PARA SOBREVIVER, no prelo. Instagram IG @escritorairaidesbarbosa. Youtube: escritora Iraides Barbosa

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