CULTURA & EDUCAÇÃO

DIVERSOS

Conteúdos dos muitos talentos culturais existentes e conteúdos educacionais

‘Tempo em Pedacinhos!’ – Doutora Maria Meire de Carvalho

O tempo passou, tempo passado, a nossa Uruaçu completou 90 anos, nove décadas de histórias transcorridas.

Houve um tempo em que minha janelinha de madeira se abria sobre as asas do pássaro grande. Tempo passado que se foi sem despedidas, sem acenos. Tempos de aplausos e sorrisos e tempos de despedidas e coração pequeno. Essa terra já me elevou às nuvens e também já me tirou o chão.

Nos intervalos da travessia enxerguei rachaduras e deixei a luz entrar: delírios, dilemas, delícias, muita coisa aconteceu – crianças cresceram, árvores floresceram e por entre rachaduras eu também criei asas, voei e cá estou.

Em tempos difíceis volto o olhar para as celebrações festivas da minha querida urbe e rebobino as vivências que se foram como as cenas dos filmes de faroeste que tanto assistimos lá no velho Cine Caiçara (Senhor Joventino e Dona Águeda), cenas amareladas e entrelaçadas aos comerciais do cigarro Hollywood e das lâminas de barbear. Vivências em anos de chumbo. Nas rodas de conversa clamávamos por liberdade, aquelas visualizadas nos comerciais do cigarro de nome estrangeiro, mas a vida transcorria em meios às proibições e ideias de ordem e progresso. Junto as asas do pássaro grande, jovens utópicas ouviam a canção Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré e, inspiradas em Ernesto Che Guevara que foi assassinado lutando pela libertação da América fazíamos planos de contribuir com a mudança do mundo, mesmo que naquele momento fosse somente através das melodias de candentes canções.

E entre um ano e outro, debruçada na minha janelinha de madeira eu via o tempo transcorrer – contemplava pardais em euforia e borboletas pequenas, bem amarelinhas que saltitavam rumo ao pé de caju, onde ferozes marimbondos faziam morada.

Às vezes o cachorro latia na casa da vizinha e tirava o sossego, noutro, o galo cantava e nos fazia lembrar que logo a galinha poedeira deixaria seu ovo azul lá no ninho de palha, na moita de alfavaca que servia de remédio caseiro para curar corpo febril e tosse – aromas de uma infância que passaram pela chácara da Rua Araguaia, transpôs os arredores da charqueada, bem pertinho do Clube Recreativo Uruaçuense e depois se fixou nas imediações da velha rodoviária, precisamente na Rua Joaquim Fernandes, lá do outro lado do Rio Machambombo. Nessa rua tenho grande parte das memórias da minha Infância – uma casinha simples, sem nenhum glamour, mas com um esplêndido e amplo quintal.

Ainda sinto os cheiros da infância.

No quintal da minha casa tinha pé de tudo: arruda, marselha, hortelã gordo, pé de sabugueiro; no canto do muro um pé de pimenta malagueta disputava espaço com roseiras em flor. Logo adiante os jasmins em trepadeiras se entrelaçavam com o feijão andu e com um pé de gergelim, quintal de pai nordestino que não desgrudava dos seus costumes, inclusive em ter no mesmo pátio um pé de fumo, aquele de corda. E ainda sobrava espaço para a horta de verduras e legumes –, pés de mandioca, abóbora de rama, dentre tantas outras.

E muita gente ainda diz que felicidade não tem morada.

Olho o mapa da cidade e já não visualizo muitos desses lugares, as chácaras foram loteadas e deram lugar a amplas casas de muros altos.

Hoje sinto falta de lugares, de ruas, de esquinas, de caminhantes: Cadê Dona Maria Poteira, seus potes, seus cachorros? Cadê Badia Preta com rodia de pano na cabeça carregando trouxas de roupas pra lavar no rio com sua prole em companhia? Cadê Gabriela cravo e canela? Cadê Pozinho? Cadê Zequinha da gaita? Cadê Leonilda?

Outros tempos. Outros lugares. Outras histórias.

Uruaçu hoje se lança radiante. O pássaro grande voou e seus filhos também ganharam asas, voaram mundo afora; a cidade que outrora não contava com uma renomada biblioteca fez os livros entrarem em nossas vidas! São tempos de recomeços, de mudanças, de pandemia! Pássaro grande que segue abrigando esse povo que trabalha, descansa, ora, faz promessa e não se cansa. Essa gente que segue firme e permanece em esperança!

 

Doutora Maria Meire de Carvalho (Doutora Meirinha), natural de Uruaçu-GO, reside em Goiânia-GO, é professora Associada da Universidade Federal de Goiás (UFG), Regional Goiás. Doutora em História na área de Concentração em “Gênero e Estudos Feministas” (UnB – 2008). Mestre em História pela UFG (2001), Especialista em Cultura, Memória e Linguagem (1999) e graduada em História pela PUC Goiás (1998). No período de 2013-2017 exerceu o cargo de Diretora da Regional Goiás da UFG e de 2009 a 2013 exerceu o cargo de vice-diretora da mesma Regional. Pesquisadora da área de Gênero, Feminismos, Sexualidade, Políticas Públicas e Direitos Humanos. Autora da tese de doutorado “Vivendo a verdadeira vida: vivandeiras, mulheres em outras frentes de combates”. Coordenadora do Coletivo Feminista GSEX – Grupo de Estudos, Pesquisa, Extensão e Cultura em Gênero, Direitos e Sexualidade (vinculado à UFG). Atua ainda em assessorias e consultorias educacionais, como também na realização de curadorias culturais e artísticas. Ela é cidadã da cidade de Goiás-GO e membro da Academia Uruaçuense de Letras (AUL)

Doutora Meirinha possui os seguintes livros publicados:

-“Afagos e Afetos: sopros ao vento”.

-“Direitos Humanos das Mulheres: múltiplos olhares” (Org.).

Possui 4 livros de poesia e um de contos no prelo aguardando publicação:

-“Corpos em movimento: toques de erotismo”.

-“Andarilha viramundo em um mundo de ponta cabeça”.

-“Vozes ressoam: feminismos poéticos”.

-“Quando fui outra, dei de cara comigo e nem me vi”.

-“Conto-te contos que não me contaram”.

Possui publicados dezenas de artigos científicos e capítulos de livros.

Recebeu vários prêmios e monções honrosas por trabalhos realizados junto à comunidade.

Atualmente é Assessora de Gênero, Diversidade e Direitos Humanos da UFG-Campus Goiás e realiza estudos sobre Psicanálise e Poesia para Pós-doutoramento.

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