‘Autoridade, autoritarismo e liderança: qual a diferença?’ – José Camapum de Carvalho
‘Em nossas vidas, quando necessário ou convocados, devemos assumir cargos ou funções revestindo-nos do poder de autoridade, porém, o seu exercício haverá de ser aquele impregnado de liderança e não de autoritarismo.’.

José Camapum de Carvalho: ‘No autoritarismo, o comando se dá pelo grito, pela palavra dura, pela cara feia, e a obediência, pela submissão. Já na liderança, talvez nem sequer se possa falar de comando ou obediência’ – Foto: Márcia Cristina/JORNAL CIDADE
Alguns temas requerem nossa constante reflexão ao longo de nossas vidas, isso inclusive dentro de uma empresa, seja ela pública ou privada. Um deles é a questão da autoridade, do autoritarismo e da liderança.
A autoridade é a pessoa investida de poder para comandar, dirigir e orientar outras pessoas com o objetivo de atingir determinados fins. Para isso, a autoridade pode revestir-se de autoritarismo ou de liderança e até seguir os dois caminhos para atingir os mesmos fins. Percebe-se, no entanto, que quase sempre o resultado fruto da atuação do líder é mais perfeito que o da simples autoridade no sentido do autoritarismo. Isso ocorre porque, na liderança, é despertado o amor pelo líder e pelo que ele faz, à medida que, no autoritarismo, a relação é de medo, de obediência cega, desumanizada.
No autoritarismo, o comando se dá pelo grito, pela palavra dura, pela cara feia, e a obediência, pela submissão. Já na liderança, talvez nem sequer se possa falar de comando ou obediência. O fazer desejado pelo líder é expresso pelo exemplo, pela palavra suave e doce, pelo comando sem agressividade e mesmo pelo silêncio. Dessas formas, talvez aquela de mais difícil alcance e que expressa a capacidade máxima de um líder é a que provém do silêncio, pois se volta para a necessidade de reflexão interior de quem se propõe a satisfazer o desejo percebido. Nesse caso, a força de quem emana o desejo, deve ser simples, suave, pura e absoluta enquanto valor interior. O desejo do líder é, então, satisfeito pela vontade de agradá-lo, de ser-lhe útil, por confiar em seus propósitos construtivos na certeza de estar pavimentando os caminhos da vida.
Vou relatar uma pequena história para mostrar a importância do exercício da liderança em lugar do comando autoritário. Lembro-me de quando era garoto e ajudava meu pai na lida com o gado ou observava o modo como os vaqueiros agiam em relação aos animais. Mesmo em relação ao gado, eu pude perceber que o autoritarismo não era o melhor caminho. Há muitos anos, o meu pai teve um vaqueiro, o senhor Valdomiro, que era alguém muito especial, de uma cordialidade indescritível com as pessoas e com os animais; dificilmente, ao contrário da prática corrente à época, ele batia em uma vaca ou em um bezerro quando este não seguia o caminho por ele desejado. Parece que ele percebia, no silêncio desobediente dos animais, que ainda faltava suavidade na expressão de seu desejo.
Quando a vaca paria no pasto, usualmente, os vaqueiros, aos gritos e ferroadas, conduziam-na com o bezerro ao curral, mas o senhor Valdomiro não, ele cuidadosamente pegava o rebento e o colocava no cabeçote do arreio para que não se cansasse enquanto a mãe era conduzida ao curral para ser desleitada e, com maior facilidade, amamentar a cria. Isso agradava enormemente ao meu pai, homem simples, com grande senso de respeito pelos animais e pela natureza. Em um determinado momento, o senhor Valdomiro deixou a fazenda para ir trabalhar em outra propriedade rural. Ao retornar, cerca de um ano depois, quando ele se aproximou do curral para receber o gado do qual novamente tomaria conta, este, em um passe de mágica, como nunca fizera antes, passou a mugir em uma expressão de profunda felicidade com a presença do Sr. Valdomiro, o que emocionou todos os presentes. Ele, o senhor Valdomiro, agia com liderança e tinha o apreço do gado. Carrego comigo essa lembrança e me emociono ao partilhá-la com os amigos.
Com isso, penso que, em nossas vidas, quando necessário ou convocados, devemos assumir cargos ou funções revestindo-nos do poder de autoridade, porém, o seu exercício haverá de ser aquele impregnado de liderança e não de autoritarismo. A liderança convence, o autoritarismo obriga. O que resulta do amor, da reflexão, sempre haverá de ser superior ao que resulta do medo, da obediência cega.
José Camapum de Carvalho nasceu em Uruaçu, reside em Brasília, cursou Administração, Direito e Engenharia Civil e, entre outras funções, é professor universitário titular aposentado (pela da Universidade de Brasília [UnB]), pesquisador integrante da direção da Comissão de Solos não Saturados da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS).
Atualização: leia também: Dia 21, José Camapum de Carvalho ministrará palestra no IFG Uruaçu
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