‘TEMPOS DE ESCURIDÃO’
Itaney Francisco Campos (doutor Itaney)
Na minha juventude, dois livros me ensinaram a amar a poesia de Drummond: “A Rosa do povo”, do próprio poeta itabirano, e “Drummond, a estilística da repetição”, do crítico e poeta goiano Gilberto Mendonça Teles. A partir daí ingressei sem retorno pela seara da densa poesia drummoniana, e também por sua produção em prosa, em que predominam deliciosas crônicas. De tanto ler o poeta, de um temário de alcance universal, decorei alguns poemas que me encantaram, dentre vários que me fascinaram sem esgotamento; e cujo fascínio se renovava a cada leitura. “A máquina do mundo, José, Amar, Mãos dadas, Os ombros suportam o mundo” são alguns dos títulos da clara poesia do poeta de Minas que eu sempre trouxe em minha mente e em meu coração. Quando se noticiou que o poeta estava fragilizado, aparentemente em decorrência da morte de sua filha Julieta, com quem tinha grande afinidade, temi que se agravasse a desolação do poeta, já na casa dos oitenta, presa fácil da depressão. Sentia, a cada notícia, mais confrangido o coração. Cheguei a planejar uma viagem ao Rio, para dizer ao poeta de minha admiração pela sua monumental poesia. Desgostava-me saber que o poeta ia se definhando, morrendo aos poucos, de melancolia, ele sempre contido, cético, avesso ao sentimentalismo transparente. Não deu tempo. E ainda que se prolongassem os dias de tristeza do poeta, eu sei que eu não iria até ele. E poderia ocorrer até que nem me recebesse, avesso que sempre foi às manifestações efusivas, de pesar ou euforia. Sempre o gauche confesso. Em Sentimento do mundo o poeta expressava tudo o que me pulsava na alma, naquele tempo de impiedosa ditadura. Um tempo de medos e mentiras. « Um tempo em que o amor resultou inútil », na expressão desolada do poeta, testemunha de um mundo em chamas, de uma era de guerras, genocídio e desesperança. O pesar de ver o país subjugado, novamente submetido à opressão das botas militares, encontrava na poesia inconformada a nossa manifestação catártica. E o confronto daquele tempo, de censura e humilhação, com os dias atuais de ameaças e obscurantismo dos governantes de plantão, me aborrece e desanima. Com o que, então, frustrou-se a esperança de democracia, restaurada há tão pouco tempo, depois de agressão aos direitos e perseguição aos que pensavam e reconstruíam a liberdade? De que valeram os sacrifícios de tantos jovens? As prisões, a tortura, a censura, o exílio? A onda do autoritarismo viria a avassalar novamente a Pátria, voltaríamos à barbárie? Arde a nossa alma, indignada. Estes tempos estão clamando pela lúcida poesia de Drummond! Poemas de sol, de sal, de amargor e de esperança! E repito o vate de Minas: “Trabalhas sem alegria para um mundo caduco/ onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.” E proclamo, ecoando o escritor de Minas: “o poeta declina de toda a responsabilidade na marcha do mundo capitalista!”
Itaney Francisco Campos (doutor Itaney) é natural de Uruaçu, reside em Goiânia e, é desembargador, escritor, poeta e, membro da Academia Goiana de Letras (AGL) e da Academia Uruaçuense de Letras (AUL)
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