‘Os Atos dos Apóstolos’
Mario Eugenio Saturno
A autoria de Lucas e sua biografia já foram mostradas no artigo anterior: O Evangelho de Lucas. Nos Atos, o evangelista continua a história da Salvação com uma presença menor de Jesus Cristo e maior dos Apóstolos e da Igreja sob a inspiração do Espírito Santo. A igreja, comunidade, cresce com os convertidos, incluindo o próprio Lucas.
Logo no primeiro capítulo diz Jesus: descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo (At 1,8). O tempo verbal está no futuro, mostrando que o Evangelho ou testemunho de Jesus penetrará todos os tempos e lugares, até o final dos tempos. Com isso, cumpre-se o que prometera: disse-vos estas coisas enquanto estou convosco, mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito (Jo 14,25-26).
Em Atos, Lucas nos mostra qual foi o local exato da ascensão de Jesus, a saber, no monte das Oliveiras (At 1,12-14). Também ficamos sabendo de quantas pessoas compunham a primeira comunidade: onze discípulos e algumas mulheres e os irmãos de Jesus. E ainda que a sala de cima é a mesma sala onde se deu a celebração da Páscoa e a instituição da Eucaristia.
Na substituição de Judas Iscariotes (At 1,15-26), Lucas destaca muitas coisas: a legitimidade da assembleia cristã, a definição de apóstolo, as decisões, o papel de Deus nas decisões da comunidade, o protagonismo de Pedrona eleição de Matias. Os cristãos são pela primeira vez chamados de “irmãos”, mostrando já a ideia de que o novo povo de Deus é uma grande família, reunida em torno do Pai e de Jesus. Nesse momento, já se contam 120 pessoas, um número, talvez, mais simbólico que real (12 x 10). Não esqueçamos que dez também é o número de semanas para gestar um ser humano.
Pedro converte três mil, que são batizados, iniciando uma grande comunidade cristã. O primeiro retrato que Lucas oferece da comunidade de Jerusalém (2,42-47), poderia dar a impressão de que ela era a comunidade utópica, perfeita. Assim como as comunidades de hoje, porém, também a primeira teve problemas, e graves.
Com o crescimento da comunidade, a prática da caridade, como o socorro às viúvas, não fora feito corretamente. As viúvas que não eram da Judeia não estavam recebendo o mesmo tratamento que as hebreias, o que gerou protesto dos gregos. Fez-se necessário organizar a Igreja conforme a necessidade (At 6,1-7), e Pedro propõe aos apóstolos cuidar da oração e do ministério da palavra e a administração da comunidade coube a sete homens honrados, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, os chamados Diáconos.
O que encontramos nos Atos dos Apóstolos não é ainda uma história da Igreja. Podemos dizer que são as raízes da Igreja e, ao mesmo tempo, da sua existência e de seus problemas. É a prova de que a Igreja teve um início bem determinado, uma evolução e uma continuidade. É a etapa intermediária, entre a atividade de Jesus e a vida das comunidades nascentes que, pouco a pouco, irão formando o fenômeno que hoje temos como Igreja universal ou católica.
Mario Eugenio Saturno é tecnologista sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e congregado mariano. Contatos: cientecfan.blogspot.com
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