OPINIÃO

DIVERSOS

EDITORIAL’ – Edição 362 (16 a 30/09/2021) – ‘Mulheres na construção da sociedade’

Revista discute o papel das mulheres na construção da sociedade. Quando a voz e o olhar feminino têm mais espaço no desenho urbano, o território tende a ganhar traçados mais inclusivos, justos e seguros. Evitar certos locais, horários, saídas solitárias e até alguns tipos de roupa integra o que a canadense Leslie Kern (geógrafa e doutora em estudos femininos pela Universidade de York), chama de vigilância constante, que ocupa a mente feminina e restringe seu mapa. Não por acaso, a aclamada ativista social Jane Jacobs acreditava que a capacidade de se sentir segura sozinha entre milhões de estranhos consiste no marcador final da habitabilidade de um lugar.

A edição da revista Casa Vogue de setembro traz como tema central a presença de personagens femininas na construção das cidades. A reportagem Cidades das Mulheres revela de que maneira as sociedades comandadas por homens falharam ao não dar o devido valor a este papel exercido pelas mulheres – e, no caminho, tornaram o desenho de cidades, prédios e mobiliário mais hostil, desigual e injusto. “Nossas cidades são patriarcados escritos na pedra, no tijolo, no vidro e no concreto”. A frase da geógrafa feminista britânica Jane Darke escancara um fato incontestável: o desenvolvimento urbano em todo o globo sempre foi obra de homens. Nos postos executivos, “a maioria faz escolhas de política econômica ao planejamento de moradias, de localização das escolas aos assentos de ônibus, sem tomar conhecimento de como essas decisões afetam as mulheres, muito menos se preocupar com isso”, afirma Leslie, em dados da A4&Holofote Comunicação.

Na publicação, a arquiteta urbanista, escritora e assessora política Joice Berth, que pesquisa o direto à cidade, com recorte de gênero e raça, avalia a importância da representatividade feminina – entre tantas representatividades necessárias –, no planejamento urbano e em outras esferas de tomada de decisão:

“Estamos num momento histórico crucial, em que se jogou luz sobre esses assuntos. As mulheres sempre reivindicaram a valorização profissional, ou, no mínimo, a não invisibilidade, e atualmente isso conta com aderência. Elas não esperam mais que se abram as portas, entram sem pedir licença. Na arquitetura e no urbanismo, apesar de o contingente feminino superar o masculino [60%, em pesquisa 2019 do Conselho de Arquitetura e Urbanismo], elas ainda não desfrutam do mesmo destaque. Há mulheres talentosas participando ativamente de grandes projetos, mas os homens tomam a frente, como se elas fossem coadjuvantes, quando muitas vezes o olhar delas é essencial […]. As meninas já saem da graduação com essa visão, e arquitetas mais experientes, que antes não contavam com apoio para se posicionarem, hoje se colocam mais, sem medo de repressão. O machismo, um dos pilares das opressões que construíram nosso corpo social, é um problema estrutural. Não basta os homens se mobilizarem, não basta a sociedade se conscientizar. Sem a esfera institucional, nada se concretiza. Ela garante respaldo para que se avance na prática, não só no discurso”.

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