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‘Dirce Ponce Leones   1934 – 2020’ – inumeraveis.com.br

A moça da janela mais conhecida de Uruaçu, que virou lenda pelo alto-astral contagiante.

Escolheu ser só, mas a solidão não a escolheu de volta. Viveu cercada de muito afeto.

A primeira bibliotecária de Uruaçu (GO) foi uma mulher independente. Gostava das suas coisas do seu jeito, e sempre se esforçou para que fosse assim. Foi livre de dependências financeiras ou sociais, e nunca se incomodou ou se entristeceu com a solitude. Não se casou nem teve filhos, mas isso não impediu Dirce de viver rodeada de amor.

Na terra de mitos goianos, Dirce se tornou uma figura folclórica. Não porque tinha superpoderes ou alguma característica irreal, mas porque tinha um astral que só podia vir das mesmas terras do Saci ou da Iara. Animada, nunca se abalou com as dificuldades da vida, acontecesse o que fosse, ela sempre tinha um sorriso doce na manga para devolver ao amargo da vida.

Levava uma vida simples e era feliz na simplicidade. Tinha uma casa antiga na rua principal da cidade, uma das primeiras a serem construídas em Uruaçu, e era dali que fazia o que mais gostava: ficar na janela. Não foi à toa que ganhou o apelido de “moça da janela”. Adorava ficar no parapeito conversando com os passantes. Perguntava como ia a vida, se os familiares estavam bem, convidava para um café… A mocidade passou, mas a mania e o apelido não.

Vaidosa, gostava de cuidar da aparência. Ficava horas cuidando dos cabelos e das unhas. Constantemente bem vestida e bonita para fazer qualquer coisa, especialmente para aparecer na janela.

Carismática, fez muitos amigos ao longo da vida. Gostava de receber e visitar pessoas… Gostava de pessoas, sem distinção. Livre de preconceitos, invariavelmente tinha uma resposta intrigante na ponta da língua. Divertida, tinha seus bordões que eram conhecidos por toda a cidade. “Olha a cara!” “Que mulher?” “A mulher está solta!” Sempre que alguém ouvia esse tipo de coisa podia se saber que se não era Dirce quem dizia, com certeza foi com ela que se aprendeu.

Religiosa, gostava de ir à igreja. Devota de Nossa Senhora Aparecida, tinha um oratório em seu quarto com a imagem da santinha que tanto amava, junto de outros que intercediam por Dirce e pelas pessoas que ela amava. Caridosa e prestativa, ajudava as pessoas que a ela recorriam em busca de amparo.

A bibliotecária que virou lenda por causa do seu bom astral, deixa saudade em todas as pessoas com quem conviveu. Uruaçu, que não é uma cidade tão grande assim, parece ter ficado ainda menor depois que a moça da janela se foi. Amigos e familiares sentem uma saudade constante da alma bondosa que escolheu viver desacompanhada, mas que, na verdade, viveu durante 86 anos acompanhada de muito amor e afeto. De lá, Dirce ganhou de uma “tal Aparecida” uma janela muito especial: a vista de lá do Céu é muito mais bonita.

Dirce nasceu em Uruaçu (GO) e faleceu em Goiânia (GO), aos 86 anos, vítima do novo coronavírus.

 

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela sobrinha de Dirce, Elvira Carvalho Leones de Andrade. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 26 de março de 2021.

 

[Nota da Redação: obra publicada pelo JORNAL CIDADE sem adaptações ou alterações. Enviada ao editor-geral do periódico por Elvira Carvalho Leones de Andrade. Site inumeraveis.com.br: Memorial dedicado à história de cada uma das vítimas do coronavírus no Brasil

  • Parabéns! Bela publicação. Simples igual Dirce, mas envolvente e bem escrita. Retratou com perfeição a Dirce que eu conheci. Meus parabéns a todos os envolvidos nesse bonito texto!

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