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‘BENDITOS LADRÕES DE MÁSCARAS’ / Professora Dra. Maria Aparecida de Oliveira Borges

De vez em quando ouço alguém – amigas principalmente, reclamarem do atendimento médico que receberam quando procuraram ajuda e encontraram profissionais pouco acolhedores. Alguns arrogantes, ríspidos, pouco amigáveis, indelicados, e até grosseiros em certa medida, do tipo que não “olha na sua cara”. Nesses casos a pessoa que já está em um momento delicado, acaba perdendo o restinho de dignidade que tentava manter para “não entregar os pontos”. Ah, as benditas máscaras! – eu penso enquanto as ouço com indignação, como se fosse comigo. Resolvi contar da última que me confidenciou sua experiência, e que ainda está muito presente em minha memória.

 

Depois de sofrer uma taquicardia ela estava disposta a enfrentar um desses. Iria usando a máscara de professora, já idosa, mas em exercício. Já foi sabendo que ele a receberia usando a máscara da autoridade, certo de que tinha o poder que exige a obediência inquestionável dos pacientes que devem apenas ouvi-lo e aceitar sua grosseria. Não é à toa que a etimologia da palavra paciente seja ‘aquele que suporta, que resiste’, pressupondo a relação do indivíduo com um especialista ou uma instituição. Haja resistência!

 

Conhecia outros médicos, mas achou que era melhor procurar um que fosse mais experiente, que pudesse sanar algumas dúvidas que tinha a respeito das vacinas contra a Covid-19, especialmente a da 3ª dose. Ligou para marcar a consulta e a secretária informou, quase como um desafio, que ele não atendia por plano de saúde e que só recebia em dinheiro. Cash, nada de Pix, depósito bancário ou cheque. Ela concordou, passou no banco, sacou a quantia e lá se foi levando alguns exames que estavam prontos para que ele os analisasse.

 

Esperou cerca de 1 hora até ser chamada. Usando a máscara da fé, aproveitou para orar pedindo domínio próprio, humildade para lidar com todos ali, principalmente com ele. Quando entrou percebeu que ainda não havia terminado o atendimento da senhora que a antecedeu; escrevia em uma ficha e conversava ainda com a secretária em tom de comando; sequer levantou os olhos para responder ao seu cumprimento. Ambos de máscara, não podiam ver as expressões um do outro. Depois de algum tempo ele ergueu a cabeça e perguntou:

 

– Qual é o nome da senhora? Já consultou comigo?

 

Ela responde e ele começa uma busca nos arquivos. Não encontrava o nome dela. Ficou bastante irritado quando ela se lembrou que fez apenas um exame ergométrico com ele há uns 5 anos. – Devia ter mentido e deixado a falta do meu nome nos seus arquivos ser por conta dele, pensou a mulher.  Mas já era tarde. Decidiu que ficaria calada.

 

Ele agora estava visivelmente contrariado. Disse que não gostava quando consultavam com outro médico e fazia apenas exames com ele. Ela se lembrou que ele tinha dito na época que seu desempenho na esteira foi excelente, que estava muito bem. Ele então comentou em tom de desprezo:

– Vocês confundem tudo. Eu não disse nada pra senhora, já que fez apenas um exame comigo. Vocês entendem tudo errado!

 

– Talvez seja porque somos leigos, ela disse, cortando a fala dele. Se a ouviu não fez caso de seu argumento, pensou a mulher, já arrependida de tê-lo interpelado. Sem entender muito bem a causa de tanta irritação e muito menos de ser colocada em um grupo – o dos que confundem tudo, calou-se.

 

– O que a senhora tem? – perguntou afinal.

 

– Tive uma taquicardia há 5 dias que durou mais de 4 horas. Estou com alguns exames prontos aqui e gostaria que o senhor os analisasse.

 

Ele pegou os envelopes ainda lacrados e depois de alguns segundos, respondeu:

 

– Os exames estão todos normais. Não há nenhuma alteração. Ela então arriscou:

 

– O senhor acha que a vacina da Pfizer pode causar alguma complicação?

 

Ele respondeu com indiferença:

 

– Isso é conversa de WhatsApp; coisa de gente que não tem o que fazer e fica inventando essas mentiras. Vacina não faz mal nenhum e quando faz é pra 1 em 1 milhão.

 

Em seguida mandou que se deitasse na maca, iria medir-lhe a pressão e os batimentos cardíacos. – Tudo normal, ele repetiu. Ela então arriscou novamente:

 

– O que li sobre a vacina não foi em grupo de WhatsApp, foi em um artigo científico.

 

Queria falar-lhe da seriedade da Revista científica onde leu sobre a ocorrência das manifestações vasculares nos vacinados, e da raridade desses eventos, saber sua opinião sobre as informações, mas não pôde.  O médico sentiu-se desafiado. Quem era aquela mulher pra achar que sabe alguma coisa de ciência? Por acaso não via sua máscara? Que falta de respeito com uma máscara tão valorosa que lhe concedia o poder de desvendar os segredos da vida e da morte!

 

– Acabei de participar de um congresso, não tem nada disso, falou com impaciência.

 

– Mas, tudo que se relaciona com esse vírus é muito novo e desconhecido, ela arriscou timidamente.

 

– Olha, eu não vou mais conversar com a senhora. Vamos zerar! Nós não conversamos nada ainda; a senhora acabou de chegar…

 

Nessas alturas ele parecia muito irritado. Ela, não sabendo o que responder em uma situação tão inesperada como aquela, disse tolamente:

 

– Claro que o senhor pode conversar…

 

Ele nem respondeu. Continuou procurando algo no computador. Depois perguntou, muito a contragosto:

 

– Quantas vezes teve essa “batedeira”?

 

– Batedeira? – ela pensou… já fazia muito tempo que não ouvia a palavra.

 

– Tive essa taquicardia 3 vezes na vida. Uma aos 20 anos, outra no final de um curso de qualificação e essa agora, que não consigo encontrar a causa, ela respondeu.

 

– Vou encaminhar a senhora pra um médico do A… R…, é um médico caro, cobra cerca de 800,00 a consulta. Tudo dito em um tom autoritário, mas não assustou a senhora que agora olhava para a sua máscara sentindo algo parecido com pena. Percebeu que ele queria desanimá-la, supondo que ela não poderia pagar tal valor.

 

– Onde a senhora trabalha? – perguntou.  Ela respondeu e ele então mudou o tom. Desvalorizou um pouco sua própria máscara e olhou para a dela de uma forma mais respeitosa. Chegou a sugerir que retornasse para dizer-lhe a opinião de seu colega, aquele que devia ter uma máscara mais valiosa que a sua. Fora seu professor.

 

Ela, já compreendendo a situação, não confirmou se voltaria ou não. – É claro que não, pensou a mulher. Sua máscara também não lhe permitiria humilhar-se tanto.

 

Saiu dali se perguntando quem seria ele sem aquela máscara. O que faria se a perdesse? Se se despertasse de um sono e percebesse que já não a possuía?  Sairia correndo e gritando como “O louco” de Khalil Gibran – “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”, procurando desesperadamente por ela?

 

– Onde está minha máscara? – ele se perguntaria, e todos que sofreram com aquela arrogante máscara ririam vendo seu pavor em ter de mostrar a face nua e o chamariam de “louco”.  Ou quem sabe ele também, quando olhasse para cima para ver quem ousou chamá-lo assim, descobriria, afinal, o prazer de ter o sol batendo em seu rosto desmascarado e gritasse:

 

– “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minha máscara!”

 

Professora Dra. Maria Aparecida de Oliveira Borges é professora de Língua portuguesa e inglesa no Instituto Federal de Educação de Goiás (IFG) – Câmpus Uruaçu

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