‘EDITORIAL’ – Edição 475 (1º a 15/06/2026) – ‘Idosos não merecem violência’
‘Para o defensor público federal André Naves, o fenômeno atual não é uma fatalidade, mas o reflexo de um etarismo estrutural que molda o mercado e o Estado’.

‘A digitalização de serviços públicos e bancários deveria ser uma ferramenta de emancipação, mas se tornou um labirinto de exclusão’, analisa André Naves – Foto: Prefeitura de Conquista-MG
Neste Editorial, o defensor público federal André Naves aborda tema importante sobre as pessoas idosas. Leia, nesta transcrição com adaptações!
No próximo dia 15 de junho, o mundo volta a atenção para o Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa. Longe de se restringir às agressões físicas, a violência na terceira idade tem ganhado contornos modernos e silenciosos no Brasil: a violência patrimonial e o abuso financeiro. Com a rápida e forçada digitalização do sistema bancário e de serviços públicos, milhões de idosos enfrentam barreiras invisíveis que os tornam alvos fáceis para golpes, fraudes e para o fenômeno do superendividamento.
De acordo com dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, as denúncias de violência patrimonial e financeira contra idosos registram altas consistentes no Disque 100. A dinâmica atual da economia digitalizada agravou esse cenário. A exigência de aplicativos complexos, o fim do atendimento humanizado nas agências bancárias e a burocracia digital empurram o idoso para uma situação de extrema vulnerabilidade, muitas vezes obrigando-o a delegar suas senhas e decisões financeiras a terceiros.
Paralelamente, o assédio comercial das instituições financeiras com a oferta predatória de empréstimos consignados – a apenas um clique de distância em telas de celular mal projetadas para a acessibilidade visual e cognitiva –, tem comprometido a renda de subsistência de uma parcela massiva da população idosa.
Para o defensor público federal André Naves, especialista em direitos humanos e economia política, o fenômeno atual não é uma fatalidade, mas o reflexo de um etarismo estrutural que molda o mercado e o Estado.
“A digitalização de serviços públicos e bancários deveria ser uma ferramenta de emancipação, mas se tornou um labirinto de exclusão. Quando desenhamos uma sociedade que ignora as características e limitações da população idosa, estamos praticando uma violência institucional. O resultado é o isolamento econômico e o superendividamento, que tiram a dignidade de quem passou a vida inteira produzindo”, afirma Naves. Ele sublinha que o debate precisa ir além da punição aos golpistas e alcançar a responsabilidade dos grandes agentes econômicos: “O mercado financeiro precisa entender que acessibilidade também é segurança. Simplificar processos, manter canais humanos de atendimento e barrar o assédio do crédito consignado predatório são deveres éticos e legais. Combater a violência contra o idoso em 2026 exige, fundamentalmente, humanizar a tecnologia e combater a burocracia que asfixia a terceira idade”, conclui o defensor..
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