Editor-Chefe: Jota Marcelo

Uruaçu, Estado de Goiás, 13 de dezembro 2018

SAÚDE DO CORAÇÃO

DR. JOÃO JOAQUIM DE OLIVEIRA

DR. JOÃO JOAQUIM DE OLIVEIRA é especialista em Medicina Interna e Cardiologia, Assistente do Serviço de Cardiologia e Risco Cirúrgico no Hospital das Clinicas – Faculdade de Medicina / Universidade Federal de Goiás (UFG) – Goiânia-GO; membro Sociedade Brasileira de Cardiologia; e, estudante de Filosofia.

Contatos: joaomedicina.ufg@gmail.com. Acesse: www.jjoaquim.blogspot.com.br

Sofismas – Propaganda eleitoral lembra a arte de sofismar

Assistindo a propaganda eleitoral deste 2018, vêm-me a lembrança duas obras da filosofia ocidental. Uma a República, de Platão, onde o grande filósofo valendo-se de sua teoria do mundo inteligível ou das ideias, nos traz a concepção do que seriam as formas de governo ideal. A segunda obra de grande importância é a utopia do britânico Thomas Morus. Nessa magnífica criação o autor nos fala de um lugar imaginário. Ao pé da letra, do grego ou, não, topos, lugar = (utopia).

Literalmente, lugar nenhum, ou não lugar. Thomas Morus (1478-1535, Londres) tem uma biografia muito interessante. Ele foi um Lorde Chanceler do Rei Henrique VIII; soberano este que se rebelou contra a Igreja Católica, porque se divorciou da primeira mulher, Dona Catarina, para se casar com Ana Bolena. A Igreja de Roma negou. O que fez o Rei? Ele rompeu com o Vaticano e criou sua própria Igreja. Daí surgiu a Igreja Anglicana (da Inglaterra). Thomas Morus, religioso e leal que era às decisões do Vaticano se manteve solidário com o papa de então, Clemente VII.

O que se teve em todo esse imbróglio é que Morus não se abdicou de suas convicções, ele foi preso e condenado à pena de morte. Tudo por causa de um devasso, tirano, ególatra e recalcitrante governante de nome Henrique VIII.

A organização estatal proposta na utopia de Morus é aquela de uma Nação altamente organizada, harmônica, ordeira, com um povo continuamente feliz, realizado e seguro. Agora, façamos uma reflexão rasa e imediata. Se naquela tal concepção era uma ilusão, um feito irrealizável, imaginemos tal concretização em um Brasil de hoje.

Portanto, nos fazem lembrar essas magníficas obras, quando assistimos ao que apregoam nossos candidatos a cargos parlamentes, a chefia de Estado, a funções de grande responsabilidade na vida pública.

Outros personagens que me vêm à lembrança nas audiências que fazemos aos candidatos e políticos são os sofistas. Como refresco de memória, os sofistas eram filósofos dedicados à oratória e a retórica. Eram mestres na arte (ou ardil) do convencimento. Eles são considerados os predecessores da advocacia. O que faz um bom advogado? Ele cria uma tese, uma sequência de argumentos capazes de se tornar uma verdade ou realidade, que aos olhos de pessoas comuns não seriam de fato verdades.

Vem de sofista o termo sofisma. No senso comum o que vem ser um sofisma? Um argumento que embora falso pareça aos menos argutos e atentos uma afirmação válida; mas que na essência está eivado de má-fé e falsidade.

Muitos são os nossos governantes e candidatos a funções eletivas que estudaram a fundo os filósofos sofistas e, portanto, sabem a arte de impressionar, de burlar, de convencer com seus discursos retumbantes e falaciosos. Ainda sobre os sofistas. Dois foram os mais proeminentes: Protágoras (480-410 a.C.) e Górgias (485-380 a.C).

Protágoras é autor do axioma: o homem é a medida de todas as coisas. Górgias afirmou que a linguagem é a principal ferramenta de qualquer líder, orador, defensor ou chefe de Estado. Os sofistas eram profissionais da palavra, da comunicação e da oratória. Eram mestres na lábia e na conquista da confiança e fé alheia, ainda que para tanto empregassem a má-fé, a perfídia, a dissimulação.

Assim, os liames que se fazem de candidatos em épocas de eleições, com Platão, Thomas Morus e Protágoras têm vastos e todo o sentido. Os preceitos e postulados propostos na República platônica representam o que pode haver de mais ético, eficaz e humano numa organização estatal. E que fique lembrado, democracia, segundo Platão, não é a melhor forma de governo. O melhor regime segundo o grande pensador seria a aristocracia. Um Estado governado pelos mais sábios, pelos mais aptos e éticos. Não se pode misturar Aristocracia – os melhores –, com Oligarquia, governo de uma minoria privilegiada e desqualificada para o múnus que exerce. Coisas de Brasil.

A utopia de Morus tem sido a promessa de muitos de nossos populistas e demagogos. A maioria deles para se chegar ao trono ou se manter no poder usam e abusam de promessas irrealizáveis. São palavras e listas de promessas à feição de muitos Protágoras e Górgias. Tudo não passa de burlas, promessas vãs e sofismas. Mentiras, falácias de puro engano. E tem muita gente que acredita. Tanto é assim, que são eleitos. Só mesmo no Brasil.

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