Editor-Chefe: Jota Marcelo

Uruaçu, Estado de Goiás, 18 de julho 2019

RELIGIÃO

DOUTOR PADRE CRÉSIO RODRIGUES

Mistério: Deus dos insignificantes?

Há um mistério sobre o qual nunca refletiremos o suficiente e ao mesmo tempo podemos nos maravilhar: Deus quis valer-se do frágil, do simples, do humano, inclusive do inútil para realizar a obra de salvação. Em contraste, os métodos dos homens para suas conquistas costumam ser com os melhores instrumentos, a ajuda de pessoas poderosas, o uso de técnicas, muito barulho e propaganda, inclusive com a força, impaciência e pressa para desfrutar dos resultados.

Pensemos nos anciãos Abrão e Sarai, de onde Deus iniciou uma Nação; no descartado bebê de Joquebede, Moisés, feito libertador; no caçula de Jacó condenado à morte pelos próprios irmãos, o José do Egito que, feito vice-rei socorreu seu povo; no franzino e insignificante caçula de Jessé, Davi, que venceu Golias e foi um rei sábio, tão querido dos hebreus; etc.

Pra revelar o reino dos céus, para realizar a Redenção dos homens Deus se fez homem, nasceu bebê, frágil como nós menos no pecado, em uma das menores cidades de Judá. Veio ao encontro dos necessitados de amor e justiça, ensinou a Palavra sem privilegiar os grandes sábios, mas, atento aos pequeninos, sem linguagem eloquente de difícil entendimento, senão que valeu-se de comparações simples – as parábolas –, como no Evangelho de Marcos 4,26-34.

Formou os apóstolos sem preferir poderosos e influentes da época, iniciou a Igreja com um grupo de gente humilde e pôs à frente um pescador. Podemos ver o mesmo método, meios simples, nos sinais sacramentais onde Jesus concede a graça da filiação divina, do discipulado e do alimento espiritual: água, vinho, pão, óleo. O divino sacrifício é celebrado por homens também frágeis, fazendo chegar a nós, aos rincões deste mundo, os dons da salvação como o batismo, o perdão misericordioso, o consolo, os carismas de serviço.

Valeu-se Ele do aparentemente inútil e humanamente impossível. Por exemplo, quando elege uma mulher estéril da qual faz surgir um herói como Sansão, um profeta como Samuel ou mesmo João, o precursor de Jesus. São Paulo reconheceu esse misterioso milagre da força do frágil nas mãos de Deus: “Observai na assembleia, não há nela muitos sábios no humano, nem poderosos, nem aristocratas; ao contrário… (1Cor 12,6-29); “Levamos um tesouro em vasos de barro para que se veja que uma força tão extraordinária é de Deus e não provém de nós” (2Cor. 4,7).

No Evangelho aqui citado, Jesus compara seu reino a uma semente que contém uma extraordinária potência: sem que saibamos como, nem porque, ela vai germinando só, de dia e de noite, até dar fruto. É a parábola do otimismo apostólico; por mais desanimados que estejamos não podemos esquecer a capacidade enorme que tem a semente, a Palavra, o Reino… Também Jesus compara seu reino à menor semente que se conhecia na época, um grão de mostarda que, tão insignificante, se converte em um considerável arbusto capaz de albergar os pássaros do céu. Como o profeta fala de Deus: “Saberão que sou o Senhor, que humilho as árvores altas e elevo as humildes, faço secar as verdes e brotar as secas” (Ez. 17,24). Era o anúncio da vinda de um rei diferente, humilde e atento aos pequenos, o Messias.

Esta mensagem não concorda com a mentalidade e os interesses que predominam nas pessoas hoje em dia, trata-se da sociedade do poder e do ter, dos cargos, títulos e recompensas, sociedade das aparências e maquinações. Busca-se o poder e a força para dominar as situações e se sobrepor uns aos outros, muitas vezes de modo cruel.

Ora, com frequência, os caminhos do Senhor não são nossos caminhos (Is. 55,8), aprendamos como Jesus, dar graças ao Pai que escondeu este segredo aos sábios deste mundo e os revelou aos simples (Lc. 10,21). Ainda, queremos ser grandes? Ajoelhemos mais!

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