‘Retroceder’ – Ezecson Fernandes de Sá
‘…Sem querer voltei encontrar a cidade de Uruaçu com suas ruas e avenidas sem asfalto e uma sociedade mais sonhadora’.

Doutor Mariano Peres (1941-2016), um dos personagens citados na obra – Foto: Jota Marcelo/JORNAL CIDADE
Já era madrugada, os primeiros raios do sol já se faziam presentes no firmamento, o nosso pensamento fez uma viagem pelos entalhos da recordação e sem querer voltei encontrar a cidade de Uruaçu com suas ruas e avenidas sem asfalto e uma sociedade mais sonhadora.
Vi e encontrei o Senhor Landulfo Moreira e o Senhor Sinval Pinheiro construindo a catedral de Uruaçu a mando do Padre Euzébio Lecué, Ti-Néco com o seu terno e seu jipe desfilando pelas ruas e avenidas da cidade que ele mesmo ajudou a fundar e a iluminou com a sua usina. Bráulio Barroso fiscalizando, José Spíndola com o seu cinema denominado de Cine São José. O advogado Maciel recitando poesias e fazendo bonito nos Tribunais da Justiça, Egídio [pai do grande futebolista Ota, em observação do poeta uruaçuense Ítalo Campos, para quem a referida obra é ‘excelente recuperação, rememoração e releitura desta crônica. Deve ser das melhores!’] consertando armas de fogo e concorrendo com o Senhor Tunico.
Manoel Polaqueiro fazendo polaques para colocar nos jegues de propriedade de Luiz Carlos da Mota e eram tantos jegues que nem um bom jegueiro dava conta de contar, era rincho a noite toda. Encontrei Pedro Cutuca fazenda selas de montaria, Sérgio Noleto consertando relógios e detestando os Estados Unidos, Alonso Alves consertando e fazendo calçados, Manesinho Sapateiro fazendo chinelos e comercializando na cidade de Campinorte. O curandeirismo através do Camarguinho, o candomblé através dos seus batuques que não me sai do pensamento, uma cultura milenar oriunda da África. O farmacêutico João Soares desfilando com a sua roupa de linho engomada, onde a sua camisa era presa à calça através de suspensórios. José Ribeiro se firmando como farmacêutico e fazendo a sua própria história. José Spíndola inaugurando o Cine Vitória, o Clube Recreativo Uruaçuense inaugurando e realizando grandes festas sociais em alto estilo. Joventino Alves de Melo construindo o saudoso Cine Caiçara, Valdivino Liberato e Luiz Lourenço Moreira eram motoristas e funcionários do eterno flamenguista Joventino. Dona Águeda Vieira de Melo embelezando o belo sexo no seu salão de beleza. Zequinha Barbeiro, Manoel Barbeiro, Waldomiro Jacinto e Agripino com suas barbearias. Camapunzinho com a sua saudosa Casa Cearense.
Vi e comprei na Casa Bahia do Marcionilio Francisco Mendonça, os Patrício com a Casa Combate, as Lojas Riachuelo fechando as portas em Uruaçu. O coronel José Fernandes de Carvalho comprando ouro, Alarico Fernandes de Carvalho, José Fernandes Neto e Avilmar Freitas trabalhando no escritório de contabilidade Materdei; doutor Edmundo Carvalho com o seu jipe novinho andando nas ruas e avenidas de Uruaçu. José Sobrinho falando de política, Alarico ajeitando votos debaixo da ponte do rio Passa Três, da seguinte forma: Roberto, Roberto, Roberto, Roberto, Otaciano Carvalho. Eta [?] urna boa da Palmeirinha!
Enxerguei o Senhor Orozino Camargo brabo que nem cupim, Francino dando uns tirinhos no meio da rua, o Cabo Diogines morrendo numa troca de tiros com uns ciganos no Povoado da Água Branca, e o soldado Expedito correndo de medo dos ciganos.
Ri demais com a apelação do prefeito Dé Baiano, quando o seu carro foi atropelado por um outro veículo, Dé Baiano saiu do seu veículo e iniciou uma seguinte conversação:
-Menino, o Senhor não sabe que eu sou o prefeito e que moro bem ali?
-Sei, sim Senhor.
-E por acaso, o Senhor tem carteira de chofer?
-Tenho Sim.
-Então, não faça mais isso, eu sou o prefeito de Uruaçu.
Lembrei do Paulo Doido furando um buraco na cadeia pública para sair, era doido mais não era bobo, Marcos Baiano todo queimado e se recuperando, Maria Poteira com seus potes de barro e a Belchiolina vendendo beleza. Encontrei o velho Sansão fazendo móveis, Manoel Mota jogando dama com Pedro David de Souza, Falei com Plínio, Melânia, Tia Zizi, Diogo, Alcides, Sérgio Noleto, Walter da Silva Rocha, Mariano Peres, Pedro Adão, Zequinha da Gaita fazendo serenata, fui ao Cine Caiçara, encontrei a Vânia vendendo ingressos, Joventino e Dona Águeda na portaria, Juarez e Luiz de Castro operando as máquinas de rodar os filmes, a furreca 29 do Joventino na porta, vi tanta gente só não vi você que eu tanto queria.
Ezecson Fernandes de Sá (1951-2019), nascido na goiana Jaraguá, foi escritor, historiador, poeta, geógrafo, palestrante, jornalista. Obra publicada pelo JORNAL CIDADE com adaptações e correções, e com colaboração do poeta Ítalo Campos.
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