Além das quatro linhas: o exemplo argentino e o desalento brasileiro
‘É nítido o comprometimento de cada atleta em campo, a entrega total em busca da vitória, a união e a cumplicidade que os transformam em um verdadeiro time’.
Gilson Romanelli

Messi, craque maior de uma seleção comprometida – Foto: Divulgação
No vasto e complexo cenário do futebol sul-americano, Brasil e Argentina travam uma rivalidade histórica que transcende as quatro linhas. Mais do que apenas jogos, são duelos de identidades, paixões e filosofias de jogo que dividem e unem torcedores em uma montanha-russa de emoções. E nos últimos anos, um abismo parece ter se aberto entre essas duas potências do futebol mundial, um abismo que não se resume apenas a títulos ou placares, mas sim à alma e ao comprometimento de seus jogadores.
A seleção argentina, carinhosamente apelidada de Albiceleste, tem demonstrado uma resiliência e uma raça invejáveis. Seus jogadores, moldados no calor da competição sul-americana, parecem carregar em seus peitos o peso da camisa e a responsabilidade de honrar a história de craques como Maradona, Messi e tantos outros. É nítido o comprometimento de cada atleta em campo, a entrega total em busca da vitória, a união e a cumplicidade que os transformam em um verdadeiro time. Não se vêem lá as estrelas reluzentes e os penteados extravagantes que muitas vezes obscurecem o brilho de grandes talentos em outras seleções. O foco é o jogo, a bola, a glória.
Em contrapartida, a seleção brasileira, outrora a Amarelinha temida e admirada por todo o mundo, parece ter se perdido em meio a um mar de ostentação e futilidade. Os jogadores, muitas vezes mais preocupados com a imagem, com o corte de cabelo da moda, a coleção de relógios de luxo que acompanhou um jogador, ou com as dancinhas ensaiadas após um gol, parecem ter esquecido a essência do futebol. A busca incessante por curtidas nas Redes sociais e contratos publicitários com casas de apostas parece ter superado a paixão pelo esporte e o orgulho de defender as cores de seu País. A falta de comprometimento e a desconexão com a torcida são evidentes, e a imagem de jogadores saindo para suas mansões e iates logo após uma eliminação vexatória em uma Copa do Mundo é triste reflexo desse cenário, que foi muito bem retratado pelo ex-jogador Jorginho, quando disse que nenhum sentimento de dor foi demonstrado pelos jogadores.
Essa diferença de postura se traduz em resultados no campo. Enquanto a Argentina, com sua garra e determinação, conquistou a Copa América, a última Copa de 2022, e agora fará a finalíssima da Copa 2026 no próximo domingo contra a seleção da Espanha, o Brasil, com seu talento individual mas sem a mesma coesão e entrega, sofreu eliminações precoces e dolorosas. A raiz do futebol sem frescuras, como alguns chamam, parece estar mais viva do que nunca na Argentina, enquanto no Brasil, o brilho artificial das Redes sociais parece ter ofuscado a verdadeira essência do esporte.
Claro que existem exceções em ambas as seleções, e não se pode generalizar o comportamento de todos os jogadores. No entanto, a tendência observada nos últimos anos é inegável. A rivalidade entre Brasil e Argentina, marcada por momentos de glória e também de polêmicas e até mesmo casos de racismo, continua viva e pulsante, e claro que devemos sempre repudiar e combater quaisquer manifestações de racismo. Mas, no quesito comprometimento e amor pela camisa, a Argentina parece estar à frente, nos lembrando que o futebol, antes de ser um negócio milionário, é um esporte de paixão, raça e coração.
Gilson Romanelli reside em Goiânia, é jornalista e analista político
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