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‘A morte e seus circunstantes’ – Itaney Campos

Itaney Campos: ‘O certo é que a gente segue a vida num jogo cansativo de driblar a morte, até que, como sabemos, ela dê o seu xeque-mate’.

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Dias atrás, uma entidade literária promoveu um concurso com o tema O escritor fala da própria morte. Os melhores contos seriam publicados em sites da promovente e em um jornal da capital.

Naturalmente que a entidade e o jornal eram dirigidos por jovens, que se dão ao direito de tratar a morte sem medo e até de idealizar a própria morte, quase se divertindo com a ideia. Todos imortais, como soem ser os jovens. Recebi o convite para participar, mas neguei fogo. Eu, heim, cutucar a besta fera com vara, ou pena, curta, tô fora! Pode ser que a dona Morte nem esteja se lembrando de mim, e vou lá eu chamar a sua atenção? Eu, para quem cada ano de vida agora é lucro? Necas. Mas confesso que fiquei pensando no desafio. Machado escreveu um romance cujo protagonista narrador era um senhor recém falecido. O escritor Edgard Poe lapidou um poema em que encarava a Morte, vestida de ave, no caso, um corvo, que advertia repetidamente « nunca mais », « nunca mais », frisando o fatídico do sono eterno. Parece que aos poetas é mais natural refletir sobre a morte, sobretudo a própria. O certo é que a gente segue a vida num jogo cansativo de driblar a morte, até que, como sabemos, ela dê o seu xeque-mate. Enquanto isso, nós viajamos e nos colorimos, como disse Drummond. Nesse jogo de gato e rato, alguns iludem-se com o título de imortais, federais ou regionais, sabendo que a verdade é que são morríveis, e só excepcionalmente permanece a sombra de alguns, em suas obras. Soube também de um certame que incitava a formular as inscrições que gostariam de ter na própria lápide. Achei de muito mau gosto. Mas pensei que eu me apropriaria desta: « Saibam que estou aqui a contragosto ». Ou desta outra, de humor negro: « Logo, logo nos veremos ». E tem também este, bem humorado: « A partir de agora, não contem mais comigo! «

Há um pensamento que considero muito sábio sobre a Morte (com m maiúscula), formulado por Confúcio, que preconiza: « Por que nos preocuparmos com o problema da morte, quando tantos problemas há a resolver na vida? » Há alguns dias, um amigo escritor, Hélverton Baiano, lembrava de um médico de Correntina que receitou um remédio tido por excelente a um doente grave, era tiro e queda, assegurava. O enfermo, porém, veio a morrer, e o esculápio, para se justificar: « Mas morreu com uma melhorinha boa, não foi não? » O inegável é que a morte não perdoa ninguém, não faz exceção. Hoje, alcançados mais de setenta, que passaram rápido demais, temo e tremo cada vez que faço os exames médicos. Por enquanto tudo bem. Afinal, sou um sobrevivente. Seiscentas mil pessoas morreram neste País picadas pela praga da Covid-19. E abandonadas por um governo de coveiros. Então, está escrito que vou seguir em frente. Viajei mil vezes de automóvel, por estradas ruins, entre motoristas dementes. Centenas de vezes deixei minha vida nas mãos de pilotos desconhecidos, em longas e curtas e turbulentas viagens aéreas. Decidi sobre a prisão e a liberdade das pessoas, e ninguém falou em me matar, pelo menos não pra mim. Então, miro no exemplo do meu pai que só se foi após o centenário. Mas sei que pode bater um vento forte e apagar esta chama frágil que é a vida. Ainda assim, vou desviar-me enquanto puder. Não conte a « indesejada », a bruxa soturna, senhora da foice, com a minha colaboração. É como diz o antigo enunciado, da sabedoria bíblica: A vida e a morte estão sob o poder da língua. Em sendo verdade, escritor não morre, só vai escrever em outro idioma. Pra isso serve a imaginação fértil. Pois não é que o poeta é um fingidor? Então!? Vou fazer como aquele escritor que, quando escrevia sobre a Morte, ela se apresentou, dizendo-lhe que era hora de ir-se. Com ele. Ele então indagou a ela: « Mas você não quer saber o fim da história? » Ela queria. A escrita estendeu-se por anos, até que a Morte foi embora. Daí, o velho escritor morreu. É como diz o ditado popular: Vou esforçar-me até morrer, pra não dar de cara com a morte.

De qualquer forma, vou adotar o exemplo do meu avô, que morreu com dignidade, em silêncio, dormindo. Ao contrário dos passageiros de sua kombi, que morreram gritando. Enfim, se eu tiver que morrer, que seja antes de eu ver um livro meu no sebo, ensebado, autografado, e no meio de livros de autoajuda.

E proíbo que, no meu velório, aquela turminha de sempre fique fazendo piadas de humor negro, sobre a morte. E sobre a « bondade » da minha mulher. Caso contrário, juro, vou acabar desistindo de morrer.

 

[Abril/25.

 

Itaney Campos natural de Uruaçu-GO, fundada por seus ancestrais, da família Francisco/Fernandes de Carvalho, é, entre outras qualificações, escritor, poeta e desembargador

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