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‘Tarzan de Castro: a voz inquebrantável da resistência e o legado vivo de um homem cosmopolita’ – Gilson Romanelli [Artigo

‘Nascido em solo goiano, Tarzan de Castro carregou desde a infância a inquietude dos inconformados. Sua militância teve um início impressionantemente precoce’.

Gilson Romanelli

 

‘Olhar para a trajetória de Tarzan de Castro não é apenas folhear as páginas dos anos de chumbo; é compreender a essência da resistência humana em sua forma mais visceral’ – Fotos: Divulgação

‘Com a radicalização do cenário político no início dos anos 1960, Tarzan ingressou nas fileiras do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e atuou intensamente junto às Ligas Camponesas’

 

 

​​​A história política do Brasil é cíclica, por vezes cruel, mas invariavelmente moldada por figuras cuja coragem desafia a linearidade do tempo. Olhar para a trajetória de Tarzan de Castro não é apenas folhear as páginas dos anos de chumbo; é compreender a essência da resistência humana em sua forma mais visceral. Ativista, exilado, intelectual e ex-parlamentar, Tarzan personifica a recusa ao arbítrio. Hoje, aos 88 anos, sua jornada é resgatada e celebrada pelo circuito cultural e cinematográfico, consolidando sua biografia como um farol indispensável para as novas gerações que desfrutam de uma democracia nem sempre devidamente valorizada.

 

​Origem e o despertar precoce para a luta

​Nascido em solo goiano, Tarzan de Castro carregou desde a infância a inquietude dos inconformados. Sua militância teve um início impressionantemente precoce: aos 11 anos de idade já se integrava ao movimento estudantil, uma força que, nos anos 1950, ostentava um protagonismo político e cultural sem precedentes no Brasil. O ambiente universitário e as ruas moldaram o jovem idealista, que rapidamente se vinculou às causas populares.

​Com a radicalização do cenário político no início dos anos 1960, Tarzan ingressou nas fileiras do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e atuou intensamente junto às Ligas Camponesas. Sua atuação firme em defesa de uma sociedade de iguais e da reforma agrária colocou-o sob os holofotes do conservadorismo nacional. Um episódio emblemático desse período ocorreu na tribuna da Câmara dos Deputados, quando o líder udenista Carlos Lacerda, em tom de denúncia e provocação, apelidou Tarzan de o “primo de Fidel Castro” devido ao seu alinhamento com os ideais revolucionários da época.

 

O confronto com o regime e a saga das prisões

​Com o golpe civil-militar de março de 1964, a vida de Tarzan transformou-se em uma perseguição contínua. Teve seus direitos políticos cassados logo no início da ditadura, com base no AI-1. Ele buscou refúgio inicial no interior de Goiás, mas foi delatado e capturado pela Polícia Militar. Seria o início de um calvário de cárceres intermitentes, marcados por duras torturas físicas e psicológicas – as marcas indeléveis que a ditadura impunha aos que ousavam erguer a voz.

​Mesmo sob as mais severas restrições, a astúcia de Tarzan se fez notar. Uma de suas passagens mais impressionantes envolveu uma fuga espetacular da prisão, articulada em conjunto com o comandante do dia (um militar legalista e contrário ao golpe) e os companheiros James Allen da Luz e Gerson Parreira. Conseguiram dominar a guarda e romper o confinamento, um feito que alimentou a mística em torno de sua capacidade de resistência.

​Após viver na clandestinidade em São Paulo, prestando socorro a outros perseguidos políticos, Tarzan acabou expulso da universidade pelo infame Decreto-Lei nº 477. Sem alternativas de sobrevivência civil no País, o exílio tornou-se a única rota possível para a vida.

 

​A geografia do exílio: uma jornada cosmopolita

​O mapa do exílio de Tarzan de Castro reflete a própria geopolítica da Guerra Fria e a solidariedade internacional aos perseguidos políticos brasileiros. Ele se tornou um dos militantes mais cosmopolitas de sua geração:

China e União Soviética: antes e durante suas andanças internacionais, realizou cursos de formação política e intelectual em Pequim (sob o maoismo) e em Moscou.

Uruguai (Montevidéu): um dos primeiros pontos de apoio e refúgio na América do Sul.

Chile (Santiago): Tarzan estabeleceu-se no Chile durante o governo democrático de Salvador Allende, onde chegou a lecionar em ambiente universitário. Contudo, o fatídico golpe de Augusto Pinochet em 1973 o alcançou. Preso no estádio Nacional, Tarzan foi submetido a torturas ainda mais bárbaras do que as sofridas no Brasil.

França (Paris): salvo da sanha de Pinochet graças à intervenção das Nações Unidas (ONU), Tarzan pôde escolher seu destino e optou pela capital francesa. Em Paris, viveu por seis anos, graduando-se em sociologia e história pela prestigiada Universidade Sorbonne.

​A vida pessoal de Tarzan dividiu-se entre as dores do desterro e o afeto familiar. Ao longo de sua caminhada, construiu laços profundos e estruturou sua descendência, deixando como frutos seus filhos Silvana, Gregório e Luana, que hoje carregam o orgulho de um sobrenome forjado na integridade. Há anos, Tarzan caminha lado a lado com sua companheira de vida, Geralda, que testemunha e compartilha de sua inabalável jornada.

 

​O retorno, a atuação parlamentar e o legado

​Com a promulgação da Lei da Anistia em 1979, Tarzan de Castro retornou ao Brasil. Longe de se aposentar da vida pública, filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) – e posteriormente ao PDC –, transformando o capital político de sua resistência em mandatos eletivos, sendo eleito deputado estadual.

​Na tribuna, Tarzan não foi um político de ressentimentos, mas de propostas. Destacou-se na defesa do desenvolvimento sustentável, na redução das desigualdades regionais e no fortalecimento do ensino superior – sendo peça-chave na articulação de debates políticos e socioambientais no Estado de Goiás.

​O legado que Tarzan nos deixa é a lição de que a liberdade não é uma concessão do Estado, mas uma conquista permanente. Ele combateu o autoritarismo de direita no Brasil e no Chile, mantendo também um olhar crítico sobre os rumos do próprio socialismo global, defendendo que a democracia não pode ser tratada como meio, mas sim como o fim absoluto da organização social.

 

O documentário

A história convertida em cinema com testemunhas vivas

​A impressionante trajetória desse líder ganhou as telas de cinema com o longa-metragem documental Tarzan de Castro: Vida, Lutas e Sonhos, dirigido por Raimundo Alves e Karla Rady. Lançada recentemente, a produção tem circulado por espaços culturais, Festivais e circuitos legislativos (como a Assembleia Legislativa de Goiás e o Instituto Histórico e Geográfico), cumprindo um papel pedagógico crucial.

​O filme não se limita à cronologia dos fatos. A equipe de produção refez os passos geográficos de Tarzan, capturando imagens e memórias no Rio de Janeiro, São Paulo, Montevidéu, Santiago e Paris. O grande trunfo do documentário reside na sensibilidade dos depoimentos de personalidades, intelectuais e antigos companheiros de cela e de exílio que testemunharam aquele período sombrio, resgatando a firmeza de Tarzan, que recusou qualquer tipo de cooperação espúria com forças opressoras para se manter fiel aos seus princípios.

​Longe de ser uma homenagem póstuma, o documentário é uma celebração em vida. Tarzan de Castro, gozando de uma saúde impecável e de uma lucidez invejável, tem acompanhado pessoalmente as apresentações do longa-metragem. Ver Tarzan na plateia, ao lado de sua esposa Geralda, é presenciar a própria história assistindo a si mesma.

​Intercalando as vozes de seus contemporâneos com o vigor do próprio Tarzan, o filme se estabelece como um documento contra o esquecimento. Tarzan de Castro continua sendo a memória viva e pulsante dos anos de chumbo. Prestigiá-lo, seja nas telas ou nas salas de debate, é um ato de vigilância democrática. Para que nunca se esqueça. Para que nunca mais aconteça.

 

‘Longe de ser uma homenagem póstuma, o documentário é uma celebração em vida. Tarzan de Castro, gozando de uma saúde impecável e de uma lucidez invejável, tem acompanhado pessoalmente as apresentações do longa-metragem’. Palavras do autor do artigo, Gilson Romanelli (esq.), ao receber livro autografado do próprio Tarzan de Castro

 

Gilson Romanelli reside em Goiânia, e é jornalista e analista político

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