‘A metamorfose de Caiado: entre o rigor da lei e o aceno à anistia’ – Gilson Romanelli [Artigo
‘Ronaldo Caiado sempre foi uma figura de contornos nítidos na política brasileira’.

Gilson Romanelli
Este é um artigo de análise política que explora as nuances, contradições e os riscos estratégicos da atual jornada do governador Ronaldo Caiado rumo ao Palácio do Planalto.
Ronaldo Caiado sempre foi uma figura de contornos nítidos na política brasileira. O médico e ruralista que atravessou décadas mantendo uma postura de “mão de ferro” contra a criminalidade e de rigor institucional parece estar, agora, diante de um espelho que reflete uma imagem ambígua. No horizonte de 2026, sua pré-candidatura à Presidência da República traz consigo uma bandeira que causa tanto barulho quanto estranheza: a anistia ampla, geral e irrestrita para os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023.
O contraste de janeiro
Para quem tem boa memória política, o atual discurso de Caiado soa como uma dissonância cognitiva. No calor dos eventos de 8 de janeiro, o governador de Goiás foi um dos primeiros e mais contundentes a condenar os atos de vandalismo em Brasília. À época, Caiado não apenas repudiou a invasão, como colocou as forças de segurança goianas e o sistema prisional do Estado à disposição para conter e encarcerar o que ele mesmo chamou de “baderneiros”.
Essa mudança de postura – de carcereiro institucional a proponente da clemência total –, levanta uma questão central: o que mudou? O rigor da lei em 2023 tornou-se inconveniente para o cálculo eleitoral de 2026?
A estratégia do “palanque de inocentes”
Caiado tem afirmado que seu primeiro ato como presidente seria a anistia, citando a necessidade de “pacificação” do País e comparando o gesto ao que Juscelino Kubitschek fez no passado. No entanto, a análise de bastidor sugere algo mais pragmático. Ao abraçar a anistia com mais ênfase que o próprio senador Flávio Bolsonaro, Caiado tenta herdar o espólio político de Jair Bolsonaro, hoje inelegível.
É curioso notar que, enquanto a família Bolsonaro por vezes parece se beneficiar da narrativa de “perseguição” e “vitimismo” para manter sua base mobilizada, Caiado tenta ser o “resolutor” do problema. Ele quer se apresentar como o nome da direita que tem a coragem de apagar as cicatrizes judiciais do bolsonarismo para poder governar.
O risco do “eleitor órfão”
O grande desafio de Caiado é que ele corre o risco de ficar no meio do caminho, em uma “terra de ninguém” política:
O bolsonarista raiz: este eleitor é, por natureza, desconfiado. Ele se lembra dos embates de Caiado com Bolsonaro durante a pandemia, quando o governador, pautado pela ciência e medicina, rompeu com o negacionismo do então presidente. Para esse grupo, Caiado é um “aliado de ocasião”, não um líder de convicção.
O eleitor de centro e direita moderada: este é o grupo que admira a gestão de Caiado em Goiás. O Estado é o primeiro lugar no Ideb, recuperou suas finanças e viu os índices de violência despencarem. Para este eleitor, que busca eficiência e ordem, o discurso de anistia para quem atacou as instituições soa como uma concessão perigosa e uma contradição ao seu histórico de “tolerância zero”.
É hora de mudar o tom?
“Caiado é, indiscutivelmente, um dos gestores mais bem avaliados do Brasil. Sua capacidade administrativa é o seu maior trunfo”. No entanto, ao focar na anistia como plataforma principal, ele pode estar sabotando sua maior virtude: a de ser o “homem da lei e da ordem”.
Se o verdadeiro bolsonarista não confia plenamente nele, e o eleitor moderado se assusta com a condescendência perante o 8 de janeiro, a pré-candidatura corre o risco de murchar antes mesmo das convenções. Para um político da estirpe de Ronaldo Caiado, a melhor estratégia talvez não seja tentar ser um “Bolsonaro 2.0”, mas sim o “Caiado 1.0” – aquele que recuperou Goiás com gestão, firmeza e respeito às instituições.
“A anistia pode até garantir um aplauso em manifestações na avenida Paulista, mas é a segurança pública e a economia que ganham eleições presidenciais”. Resta saber se o governador terá a sensibilidade de perceber que, na política, o excesso de pragmatismo às vezes apaga a biografia.

Ronaldo Caiado (dir.) e Gilberto Kassab, presidente do PSD, sigla na qual o presidenciável está filiado
Gilson Romanelli reside em Goiânia, e é jornalista e analista político
- 14/10/2026 22:21:15 - ‘Rafael Soares, o homem forte confiança que vai fechar o ciclo de duas legislaturas de sucesso de Bruno Peixoto na Alego’ – Gilson Romanelli [Artigo
- 01/10/2026 09:11:41 - ‘A consolidação de um projeto de estado indica que a vitória de Daniel Vilela deve se confirmar já no primeiro turno’ – Gilson Romanelli [Artigo
- 01/10/2026 00:31:37 - ‘EDITORIAL’ – Edição 483 (1º a 15/10/2026) – ‘Evitar o vício das apostas é vital!’
- 30/09/2026 23:58:31 - ‘EDITORIAL’ – Edição 482 (16 a 30/09/2026) – ‘Uruaçu se despede de Zé Dutra’
- 22/09/2026 22:49:29 - ‘Trajetória de Eduardo Bernardes na Saúde Pública: das origens humilde no Garavelo à gestão de ações que aproximam o cuidado das pessoas em Goiás’ – Gilson Romanelli [Artigo
- 20/09/2026 18:08:47 - ‘Bruno Peixoto: a liderança que Goiás consagrou e de que o Brasil precisa na Câmara Federal’ – Gilson Romanelli [Artigo
- 19/09/2026 22:49:40 - ‘Carlão da Fox intensifica a campanha e se consolida como um dos favoritos para ocupar uma das cadeiras da Assembleia’ – Gilson Romanelli [Artigo
- 18/09/2026 14:59:42 - ‘A tendência de consolidação da vitória de Daniel Vilela no primeiro turno das eleições em Goiás’ – Gilson Romanelli [Artigo
- 15/09/2026 18:15:30 - ‘EDITORIAL’ – Edição 481 (1º a 15/09/2026) – ‘Respeito ao cliente’
- 13/09/2026 19:06:38 - ‘Fuga dos favoritos ou estratégia de mestre?’ – Gilson Romanelli [Artigo
- 03/09/2026 23:12:12 - ‘O fenômeno: Bruno Peixoto mostra força política e realiza lançamento histórico rumo à Câmara dos Deputados’ – Gilson Romanelli [Artigo
- 24/08/2026 01:28:36 - ‘Carlão da Fox: a força do municipalismo e a experiência a serviço de Goiás’ – Gilson Romanelli [Artigo
- Ver todo o histórico


