Campanha da sociedade civil cobra propostas para salvar o cerrado

Geralmente esquecido por candidatos, bioma já perdeu metade de sua vegetação original e corre risco de extinção devido à alta velocidade de desmatamento. ONG destaca importância do cerrado para segurança alimentar, recursos hídricos e equilíbrio climático do planeta.

Cajuzinho-do-cerrado, araticum, murici, pequi, buriti, babaçu, bacuri, cagaita, mangaba, jatobá e tantas outras delícias são apenas algumas das milhares de espécies de plantas presentes no cerrado, conservadas por agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais – Fotos: Assessoria de Imprensa

 

Pesquisas apontam que a cagaita é rica em vitamina C e antioxidantes – Foto: DoDesign-s

 

O araticum possui antioxidantes e previne doenças degenerativas. Os povos da Chapada dos Veadeiros fazem uso para combater reumatismo e úlcera – Foto: DoDesign-s

 

Pequi: outra riqueza do cerrado – Foto: Márcia Cristina/JORNAL CIDADE

 

O Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) lança a campanha #VotePeloCerrado, ação de conscientização sobre a importância do bioma e as consequências trágicas que sua degradação pode causar para a sociedade caso não haja políticas públicas efetivas para salvar a savana mais biodiversa do mundo, conhecida como berço das águas do Brasil. A intenção é mobilizar cidadãos na cobrança de seus candidatos sobre propostas para conservação de seus ecossistemas e combate ao desmatamento em ascensão.

A iniciativa pode ser acessada pelas redes sociais do ISPN (ispn_brasil) e conta com duas ações offline de sensibilização de público, por meio de degustação de sucos de frutos nativos do cerrado e distribuição gratuita de água para hidratação. A campanha é realizada por ISPN e Rede Cerrado, com apoio diversos – Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), Small Grants Programme, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Projeto CERES, União Europeia e WWF-Brasil.

“É importante que as pessoas conheçam a diversidade de sabores do cerrado, o potencial que esses frutos têm para geração de renda e a conservação da biodiversidade. A água que sacia a sede e que gera a energia de inúmeras casas do País vem do cerrado”, explica Isabel Figueiredo, coordenadora do Programa Cerrado e Caatinga do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). “Sem cerrado, não há água e, sem água, não há vida. O cerrado grita por socorro e nós gritamos pelo cerrado”.

O vídeo inaugural da campanha apresenta o cerrado como o melhor candidato dessas eleições, porque cumpre tudo aquilo que promete: segurança alimentar, água fresca, geração de energia e renda, diversidade cultural e equilíbrio climático. “Como nosso herói não é um candidato real, precisamos cobrar daqueles que receberão nossos votos propostas que incluam a conservação do bioma”, destaca Isabel. Desde 30 de agosto e indo até dia 2 de outubro, peças veiculadas em Redes sociais do Instituto expõem dados científicos e associações do bioma com o cotidiano dos brasileiros, independentemente da região em que habitam.

 

Ações offline de sensibilização

Duas parcerias fortalecem a campanha para realização de ações offline de degustação de sucos de frutos nativos e distribuição de água gratuita: uma delas é o Festival Ilumina, que chega à sua oitava edição na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. A outra é a Rede Cerrado, na capital federal Brasília. Dias 9 e 10 de setembro, a chamada estação de hidratação do ISPN estará na Aldeia Multiétnica, em Alto Paraíso de Goiás, para sensibilização do público do Festival Ilumina.

No dia 11, Dia Nacional do Cerrado, é a vez da estação se juntar à programação do Grito pelo Cerrado, realizado pela Rede Cerrado no Eixão Norte, em Brasília. As atividades da data incluem ações culturais de corrida de tora com os povos indígenas Xavante e Timbira, Oficina artística para crianças, Oficina percussiva Vivendo & Batucando, ações musicais e mais.

 

Sabores

Cajuzinho-do-cerrado, araticum, murici, pequi, buriti, babaçu, bacuri, cagaita, mangaba, jatobá e tantas outras delícias são apenas algumas das milhares de espécies de plantas presentes no cerrado, conservadas por agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais. Durante a campanha, o público tem oportunidade de conhecer alguns desses sabores e entender como é possível cobrar de políticos ações para a conservação deste bioma que já perdeu metade da sua vegetação nativa.

Isso, com distribuição pelas estações de hidratação do ISPN, de sucos de araticum, coquinho azedo, mangaba e cagaita, além de água mineral para compensar a seca e o calor. A distribuição será feita até acabarem os estoques e o público poderá retirar o brinde especial, um copo da campanha para levar um pedaço do cerrado para casa e lembrar de votar pelo bioma.

 

Três eixos para salvar o cerrado

Terena Castro, assessora técnica do ISPN, destaca que a conservação do cerrado é urgente e possível por meio de caminhos interdependentes que devem ser garantidos pelos políticos eleitos, que são: o uso sustentável, o fim do desmatamento e a inclusão dos produtos da sociobiodiversidade nativa no consumo cotidiano das pessoas.

“É importante que cidadãos estejam atentos às propostas dos candidatos e que cobrem de políticos ações que possam salvar o cerrado. A ameaça real que o bioma sofre é um risco para nossa segurança alimentar, para nossas fontes de água e para o equilíbrio climático global, além de violar direitos territoriais de milhares de comunidades tradicionais do País”, comenta.

“É preciso pesquisar as propostas e a trajetória de candidatos que receberão nossos votos neste ano, para verificar se eles se comprometem com o uso sustentável da biodiversidade, com a redução do desmatamento no cerrado, e com a economia de povos, comunidades tradicionais e agricultores familiares, que chamamos de ‘economia da sociobio’. Essa atitude salva o cerrado”, completa.

 

Cerrado sociobiodiverso

No bioma, vivem mais de 80 etnias indígenas, além de quilombolas, geraizeiros, vazanteiros, quebradeiras de coco, ribeirinhos, pescadores artesanais, comunidades de fundo e fecho de pasto, entre outros, que têm seus modos de vida diretamente relacionados com a biodiversidade local. O cerrado abriga os aquíferos Guarani, Bambuí e Urucuia, além de nascentes de oito das 12 principais regiões hidrográficas do Brasil. Ele é responsável por 70% da vazão do rio São Francisco e 47% da vazão da Bacia do Rio Paraná, que abastece a hidrelétrica de Itaipu.

O cerrado é tema de segurança global, sendo central para os debates sobre mitigação das mudanças climáticas. Com raízes que ultrapassam 30 metros de profundidade, representando até 75% da biomassa de arbustos e árvores, o bioma consegue estocar cerca de 13,7 bilhões de toneladas de carbono.

 

Ameaça de extinção

Entre agosto de 2020 e julho de 2021, o cerrado perdeu área de vegetação nativa equivalente a seis cidades de São Paulo, um aumento de 8% em relação ao ano anterior.

A região do MATOPIBA, que abrange os Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e da Bahia, concentrou 61,3% do desmatamento no período (ou perda de 5.227,32 quilômetros quadrados). Segundo o Projeto de Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra no Brasil (MapBiomas), foram quase 6 milhões de hectares perdidos em uma década, de 2010 a 2020. A monocultura é uma das principais responsáveis pelo desmatamento.

De acordo com dados do MapBiomas, a área de lavoura no Brasil triplicou entre 1985 e 2020, passando de 19 milhões de hectares para 55 milhões. Destes, 36 milhões de hectares são dedicados à soja, em uma área maior do que a Itália. Metade desse avanço está no cerrado, que perdeu 16,8 milhões de hectares para a soja nos últimos 36 anos.

“O cerrado […] é tão importante quanto a Amazônia para biodiversidade e equilíbrio climático. A minimização das desigualdades sociais depende também do incentivo a um desenvolvimento sustentável”, afirma Terena Castro. “O segundo maior bioma do Brasil serve de moradia, alimentação e geração de renda para milhares de comunidades tradicionais do País, muitas invisibilizadas nos mapas oficiais”.

 

ISPN e Rede

O ISPN é uma organização não-governamental brasileira sem fins lucrativos, fundada em abril de 1990 e sediada em Brasília. Com 32 anos de atuação, é reconhecido por sua experiência em conservação e uso sustentável da biodiversidade, apoiando povos, comunidades tradicionais e agricultores familiares nos biomas Cerrado, Amazônia e Caatinga. Tem como missão contribuir para viabilizar a equidade social e o equilíbrio ambiental, com o fortalecimento de meios de vida sustentáveis e estratégias de adaptação às mudanças do clima.

A Rede Cerrado surge durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Brasil em 1992 (Eco-92), para enfrentar as ameaças que o bioma já vinha enfrentando. Atualmente, é composta por mais de 60 entidades da sociedade civil associadas, representadas por indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, vazanteiros, fundo e fecho de pasto, pescadores artesanais, geraizeros, extrativistas, veredeiros, caatingueros, apanhadores de flores Sempre Viva e agricultores familiares, que são os verdadeiros guardiões da biodiversidade do cerrado.

 

(Informações, sob adaptações: Assessoria de Imprensa)

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