SAÚDE DO CORAÇÃO

DR. JOÃO JOAQUIM DE OLIVEIRA

Refém – O processo de refenização do outro

Neste artigo vamos tratar do processo ou conduta de tornar uma pessoa refém. O termo tem origem no idioma árabe. Vem de rihan, com o significado de prenda ou penhor (garantia). No âmbito criminal refém pode se referir a uma pessoa ou bem que fica em poder de outro como garantia de um benefício exigido, seja um pagamento em dinheiro, um bem material ou outra condição abstrata, libertação de um preso, por exemplo.

Todavia, o processo de refenização tem se dado também nas relações sociais e pode ser objeto de estudo da sociologia, da psicologia do comportamento, na psiquiatria e nas neurociências. Numa projeção de medicina futurista, tal transtorno das relações interpessoais entrará na classificação do DSM. Relembrando, o DSM se refere ao manual estatístico e diagnóstico, da Associação Americana de Psiquiatria (APA). É um mecanismo psíquico onde uma pessoa exerce influência, dominação e aproveitamento de outra.

A conduta de refenização se dá de forma biunívoca em que um explorador e a vítima vão construindo um contato lento e paulatino à maneira de um parasitismo ou manipulação pessoal. Trata-se de um comportamento análogo a um indivíduo dominante ou alfa nesse grupo de relações. Pode ser uma relação entre duas pessoas. Mas, pode também ser um número maior de indivíduos, quando nesse grupo surge esse domínio de forma marcante, progressiva, muitas vezes dissimulado; de uma pessoa sobre outra. É um contato contínuo de um sujeito ativo sobre o outro de reação (ou não reação, inação) submissa e passiva.

Mais consistente e substancial se torna a explicitação através dos contextos encontradiços nas diversidades das esferas sociais. Nas relações conjugais e outros laços parentais, como irmãos, filhos/pais, etc. Tem sido muito frequente o expediente ou comportamento da refenização das pessoas. Nesse processo de tornar o outro refém a mulher tem sido a principal vítima. É a natureza do homem, no papel de macho alfa, que se vale de seu porte, sua força física, sua virilidade hormonal em refenizar a mulher. São essas as razões sociais e biológicas desse predomínio do homem como explorador da mulher (refém).

Em uma proporção infinitamente menor a mulher pode também assumir o papel de indivíduo alfa e praticar intenso domínio em tornar o homem um refém de seus caprichos, desejos e manipulação.

A prática de refenização nas relações conjugais vem sendo objeto de estudo de sociologia, antropologia e criminologia. Uma consequência dramática desse comportamento, predominante do homem em relação à mulher, são os casos que resvalam para a violência doméstica sofrida pela mulher (namorada, companheira, esposa), com uma perversa e alta taxa de feminicídios.

Por último, ainda no âmbito familiar, não é incomum constatar o fenômeno da refenização. Como deve ser entendido o organograma de uma família? Sua dinâmica funcional deve ou deveria se estabelecer ao modo de uma empresa, onde todos os integrantes devem ter isonomia de direitos e deveres; todos deveriam ter direitos e deveres conforme a aptidão pessoa.

Em outras definições, com exceção das crianças, dos idosos ou incapazes (inaptos para o trabalho), todos devem ter responsabilidade na manutenção, no zelo, na higiene, nos cuidados e receita dessa família, dessa casa, porque como empresa tem despesas com energia, água, higiene e víveres para o sustento.

E então, eis que nesse ambiente surge com frequência os chamados filhos e filhas, irmãos e irmãs no processo de refenização de outro parente ou parenta que torna vítima, refém desse (a) aproveitador (a). E não é raro que esse parente (a) empregue algum recurso chantagista. Um exemplo é se valer de interpor um filho (a) num laço afetivo com a vítima dessa relação. O expediente do afilhado (a) se revela um ardiloso expediente com a vítima e refém no processo que sensibilizada vai se perpetuar na condição de submissão e prover muitos caprichos e desejos desse explorador da relação. É o eterno e incompreendido bicho homem, de muitos caracteres e dissimilações. Quantas não são as famílias que têm que aturar uma pessoa que se considera melhor, mais bonita, mais poderosa, mais sabichona. De forma sub-reptícia, subliminar essa pessoa (mulher ou homem) vai tendo uma presença dominante em explorar e tirar proveito de outros do grupo. Basta um olhar de boas lentes e elas estão ao nosso redor.

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