Editor-Chefe: Jota Marcelo

Uruaçu, Estado de Goiás, 17 de julho 2019

SAÚDE DO CORAÇÃO

DR. JOÃO JOAQUIM DE OLIVEIRA

Os segredos de uma boa convivência

Com as mídias digitais e as redes sociais vivemos em uma atmosfera social com um intenso e intrusivo patrulhamento do comportamento das pessoas. A internet e todos os seus recursos vieram com esse poder, essa força de vigilância, de crítica e devassa social. E para ser justo, bem justo mesmo, as próprias pessoas ao se exporem em demasia em suas páginas virtuais é que permitem e dão azo a que outras pessoas, na maioria das vezes desocupadas e vazias, façam essa implacável vigilância e patrulha.

Sempre que escrevo e comento sobre as plataformas digitais, com suas ubíquas redes sociais, vêm-me à lembrança uma consideração do semiólogo, filósofo e crítico Umberto Eco (1932-2016). Perguntado pela jornalista Ilze Scamparini (Globo News) sobre a internet, o grande escritor italiano não titubeou: as redes sociais dão direito à palavra a uma legião de imbecis. E continua o entrevistado, “antes eles falavam em algum bar após uma taça de vinha e a conversa morria ali. Agora não, agora eles têm voz e vez”. E é isto mesmo. Conforme Eco, muitos têm direito à palavra como um prêmio Nobel. Os usuários da internet, na maioria esmagadora, constituem um grande rebanho de pessoas sem outros objetivos maiores e mais nobres na vida. Esses recursos da internet, para elas, permitem a que façam as interações com o mesmo mundinho que as caracterizam; todos se encontram no mesmo vácuo, nas mesmas frívolas e insossas atividades. Nada fazem, nada produzem, existem num eterno far niente.

A questão do patrulhamento e da vigilância digital traz-nos no bojo do mesmo tema outras questões das relações sociais que são as referências, as considerações, as titulações, as adjetivações, os apelidos, as apreciações sobre as atitudes e condutas das pessoas, o seu caráter; e num grau extremo até os insultos que são trocados. E trocados porque quase todos, insultados e insultadores pertencem ao mesmo jaez, à mesma tribo social.

Quando alguém recebe uma consideração, um comentário sobre si vindo de terceiros, sejam pessoas “amigas”, seja de alguém do ciclo de inimigos, a primeira reação deveria ser esta indagação: trata-se de uma inverdade, de uma fofoca? Ou ao contrário: esse comentarista está se referindo a alguma característica de fato verdadeira? Um comportamento, atividade ou ato que cometi fora dos padrões sociais? Ora, se for isso necessário se faz uma adaptação. A abelha deve voar e se comportar conforme a ânimo e regras da colmeia, do contrário elas podem ser picadas pelas próprias companheiras.

Dentro dessa análise, como alvo desses comentários, adjetivações ou apelidos entram, por exemplo, referências étnicas, preferência sexual, cor da pele, etc. Nesses termos, conforme os objetivos e tom do insultador, estamos diante de um crime e necessário se faz gerar um boletim de ocorrência policial e denúncia ou queixa crime no Ministério Público.

Em suma, aquilo que as pessoas dizem a nosso respeito pode ser uma verdade incontestável com a qual eu tenho que conviver. A análise também aqui deve levar em conta o objetivo desse comentarista, dessas considerações e características a mim endereçadas.

Nesse sentido, o tom, a intensidade desses títulos e atribuições. Mais do que isto, a finalidade dessas atribuições. O inteiro teor, o objetivo desses comentários devem ser levados em conta. Até mesmo quando alguém nos dirige algum insulto, seja ele de que magnitude for, deve-se de forma civilizada e ponderada avaliar os termos empregados. E então de forma educada, polida e civilizada, responder à altura a esse insultador ou impostor (a).

Há um princípio que afirma: “O insulto só funciona se você beber o veneno”. Assim devemos reagir quando alguém nos fizer alguma referência com intenção de nos irritar, nos desequilibrar ou tirar a nossa calma, a nossa civilidade. De sorte que fica claro que ao receber um veneno, ele só me intoxicará ou fará mal se eu o ingerir. Tomemos alguns exemplos da vida cotidiana.

Se alguém olha para você e o qualifica de careca, de gordo, de baixinho, de velho, de pé-rapado ou gay. Nesse instante, você deve certificar se se de fato trata de um atributo falso ou verdadeiro. Nessa circunstância os especialistas em comportamento humano aconselham como reagir. Como exemplo: se for um atributo falso e não injurioso ou não preconceituoso. O que revela esse comentário? Nada mais do que a dor moral ou inveja do insultador. Sua frustração, seus distúrbios adaptativos de sociabilidade. Nada além disso. Pode-se tratar de uma pessoa perturbada e desequilibrada que merece o nosso desprezo. Só isso.

Como fecho desta matéria o que se deixa como dicas para qualquer um de nós é a busca de uma convivência pacífica e civilizada. Cada um de nós deve ter uma cartilha ou código de conduta nas relações sociais e referências ao outro.

Fazer comentários e considerações a respeito de quem quer que seja pode se tornar uma fórmula de inimizade e intolerância das mais biliosas.

Cada pessoa tem o estilo de vida e as escolhas e gostos ao seu sabor, de acordo com os seus valores, sua educação, cultura e formação escolar. Comentar que tal mulher ou jovem escolheu casar para ter um maridão que tudo patrocina para a esposa, que tal opção foi golpe do baú, pode ser a fórmula certa para ódio, antipatias e muita inimizade. O que temos com isso?  Cada qual que ouça e enxergue conforme sua audição e visão. Inclusive quem está de seu próprio lado.

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