SAÚDE DO CORAÇÃO

DR. JOÃO JOAQUIM DE OLIVEIRA

O choro congelado – O gemido dos embriões congelados

A medicina é uma profissão que busca o apoio e as bases de muitos ramos científicos para o seu mais ético e humano funcionamento. São exemplos no seu constante aprimoramento a química (na síntese de medicamentos), a física (na execução de terapias e diagnósticos) e a biologia (fisiologia, citologia, genética, fenômenos de reprodução, etc).

Neste artigo busco falar especificamente sobre a reprodução humana. Trata-se de um ramo da medicina que evoluiu muito. As expressões fertilização “in vivo” e “in vitro” se tornaram até de domínio popular, tais as notícias veiculadas sobre tais práticas em clínicas de ginecologia e obstetrícia.

Antes de falar estritamente em humanos, faço um adendo. Na biologia animal e veterinária, por exemplo, os avanços chegaram ao estágio de clonagem e sexagem (escolher o sexo das crias). A reprodução induzida (in vivo ou in vitro) já vem sendo largamente praticada com vistas à geração de animais como matrizes, reprodutores e ao consumo como alimentos (produção de ovos e carnes de suínos e bovinos).

O instinto materno, muito mais do que o paterno, é um sentimento dos mais nobres. Ele deve estar presente em todas as mulheres, salvo um e outro caso fora dessa inclinação natural. Antes do advento da especialidade e das clínicas de reprodução humana o que sucedia com os casais inférteis ou estéreis? Três opções: a) aceitar a condição sem filhos, b) filhos adotivos, c) cuidar (ajudar) na criação e educação de sobrinhos (se tornar tios e tias).

Vieram as clínicas de fertilização. E elas vêm se proliferando. Tornou-se um mercado rentável e próspero; todavia, com elas surgiram as questões colaterais. Algumas boas, outras ruins e péssimas. As notícias boas é que casais antes inférteis podem contar com esses serviços para o sonho de ter filhos. O lado ruim desses avanços da medicina é que quase todas as clínicas são privadas e tudo muito caro. Existem poucas opções pelo SUS e nos hospitais-escolas das Faculdades de Medicina.

Uma segunda questão digna de menção se refere à opção de muitas mulheres em adiar o sonho (plano) da maternidade. Todos havemos de lembrar que o risco de infertilidade e síndromes genéticas (exemplo: Down) aumenta com a idade da mãe. Ou seja, mães inférteis mais velhas que buscam fertilização assistida vão ter mais ônus monetário, porque a indução da gravidez é mais complexa, e mais riscos de malformações fetais.

Uma terceira questão, talvez pouco lembrada de quem procura ter gestação induzida (“artificial”, “forçada”, in vitro, “de laboratório”; vários termos) envolve questões bioéticas graves, gravíssimas. Para tanto basta lembrar o que é feito e como é feito para uma mulher infértil engravidar. Basta enumerar os casos mais comuns. Situação 1. Vai-se estimular a produção da ovulação. Pode-se engravidar com feto único ou gêmeos. Quanto mais gêmeos, mais riscos para mãe e filhos, são as gravidezes de alto risco. Todos os bebês, quase sem exceção, serão prematuros, o que gera mais ônus pelos custos de assistência neonatal.

Situação 2. A mulher não ovula, apesar de todas as técnicas de estimulação. Mas ela tem ovários e óvulos normais. Neste caso então entra a fecundação in vitro. Vão ser obtidos vários embriões. Alguns vão ser implantados no útero da mulher. Como de todos sabido, muitas dessas gestações vão ser gemelares (2, 3, 4 fetos). As questões menos graves aqui são as de todas as gravidezes de gêmeos: prematuridade, algum natimorto, complicações maternas, pré-eclâmpsia, diabetes, hipertensão, etc.

As questões bioéticas gravíssimas que se revelam em autênticas monstruosidades no sentido ético, humano e religioso se referem aos embriões que sobram dessas práticas.

Há hoje pelo Brasil e pelo mundo milhares desses embriões que “sobram”, das fertilizações in vitro, e estão congelados nessas clínicas de reprodução.

Os Comitês de Bioética, os Conselhos de Medicina, as entidades de direitos humanos não sabem o que fazer com esses embriões humanos. E todos têm um RG (pai e mãe) e um genoma do casal que se deu a esses expedientes. E esses casais sabem, porque todos assinam um documento intitulado Consentimento Informado; ou seja, além dos médicos que fazem as chamadas gravidezes induzidas, a mãe e o pai são muito bem orientados sobre os desdobramentos dos procedimentos e a guarda (não pode descartar) dos embriões. Reprisa-se esse ponto porque se revela uma questão bioética gravíssima com as quais os Conselhos de Medicina, entidades de direitos humanos e religiosas se deparam. O que será feito com tantos embriões humanos “congelados”? Eles se transformaram no maior enigma ético e humanitário para os seus genitores (pais desses seres congelados) e autoridades legais e de saúde. Parece uma pergunta que soa como normal. Mas não é. Essa interrogação emblemática e enigmática das mais graves não pode se calar na consciência de quem permite essas práticas que são os casais e médicos praticantes. O que será feito dos embriões que sobram das fertilizações ou gravidezes artificiais?

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