Editor-Chefe: Jota Marcelo

Uruaçu, Estado de Goiás, 18 de janeiro 2019

SAÚDE DO CORAÇÃO

DR. JOÃO JOAQUIM DE OLIVEIRA

Há muito mais loucos e sociopatas do que mostram as estatísticas

O nosso Shakespeare brasileiro, o magnânimo escritor Machado de Assis, escreveu um magnífico conto, O Alienista, e uma bela crônica intitulada A Fuga dos doidos do Hospício. Quem já leu essas belíssimas criações, deve ter igualmente a mesma sensação de se tratar de uma tremenda e ácida ironia do que é a natureza do bicho humano. Um animal complexo, polissêmico, de difícil compreensão.

Nesses brilhantes textos, o autor, com muito sarcasmo, picardia e de forma picaresca faz uma análise da alma, da mente, do caráter e inclinação das pessoas. Aqueles que ainda não leram, vale o empenho de estudar e constatar o quanto são atuais as críticas de Machado. São aquelas obras atemporais e de significado universal.

A alma, a mente, a personalidade das pessoas. Eis aqui o mote ou teor dessa crônica.

Estudar o comportamento, as atitudes, a caracterização dos humanos sempre foi matéria de imenso motivo para filósofos e cientistas de Ciências Humanas. Como são a  Antropologia, a Sociologia, a Psicologia, a Psicanálise, entre outras.

Em todos os campos das atividades sociais podem-se registrar os tipos considerados padrão, mas também aqueles que fogem às balizas e enquadramento do normal ou minimamente aceitável em sentido de conduta, relações interpessoais, relações de negócios, conjugais; enfim, em toda forma de contato e interação com outras pessoas.

Para mais foro de veracidade e ilustração de questão tão intricada nada mais justo e melhor do que descrever alguns cenários onde abundam os tipos e classes de pessoas nos seus desvios de comportamento e atitudes.

No trânsito, por exemplo. Quantos não são os variados modos do agir humano nesse ambiente. Muitos são os motoristas que fazem desse espaço de encontro e convivência um cenário de conflitos verbais, de agressões, de xingamentos, de lesões corporais e mortes. Muitas mortes.

Nesse campo de batalhas, as estatísticas anuais falam por si mesmas. São números que lembram conflitos bélicos, a exemplo do que se vê atualmente na guerra da Síria. Nosso trânsito, seja o urbano ou rodoviário, faz 60 mil mortos ao ano. São cifras tão trágicas e repetitivas, que os humanos brasileiros, em suas neuroses, corridas diárias e ansiedade, vão se habituando a essas cenas. Há como que uma conformação e aceitação de triste e mórbida realidade, como numa síndrome de Estocolmo.

Apesar do recrudescimento das leis para os crimes de trânsito, as estatísticas se mostram com poucas alterações. São anos a fio e a tragédia é a mesma, são mortos, feridos e mutilados. Não remanesce dúvida ou controvérsia de que as drogas e o alcoolismo têm sido o catalisador de muitos desses delitos, dessas mentes insanas e sociopáticas.

Mas, eis que vêm as perguntas: por que beber se vai dirigir? Por que dirigir se bebeu? São dúvidas e inquietações que ressoam pelos quatro cantos do País e do planeta. Tais atitudes já são índices de uma mente com um desvio sociopático, de uma doença do trânsito, de algum transtorno cognitivo, de um comportamento desvairado.

A competição pela chegada na dianteira, a briga e ofensas por espaço e preferência são outras tantas mostras dos desníveis comportamentais.

As estatísticas policias e da criminologia são outros sólidos dados do que são as mentes e condutas patológicas dos convivas humanos. Falando estritamente de Brasil. Os espaços públicos e privados bem que podem ser de um campo de estudo, de laboratório experimental de psicopatologia, de sociologia, de caracterização das pessoas. O percentual de vítimas também nos faz reportar a fenômenos bélicos. São cerca de 60 mil assassinatos por ano.

Os inquéritos policiais e processos judiciais são provas incontestes do quanto são os desvios mentais e psíquicos dos autores dos delitos. Quando se faz uma análise criminológica e psiquiátrica, muitas vezes são indivíduos que não preenchem os critérios adotados de alguma psicopatia ou loucura. E então fica a dúvida, mas como não demente, se o indivíduo é capaz de tanta insensatez, de tanta crueldade, de tanta maldade contra o outro, por motivos fúteis, banais ou nenhuma justificativa para seus atos delitivos?

Em tão grave questão basta analisar as motivações das desavenças, dos conflitos, dos crimes passionais, dos feminicídios. Por motivos e justificativas as mais pífias e torpes o indivíduo se torna um ameaçador, um predador e torturador de sua namorada ou ex, da companheira ou ex-esposa. Analisando o fato ensejador de tais agressões, dos assédios morais, de tentativas de homicídios, etc, se conclui do quanto doentia e desviante é a mente de tais predadores de mulheres.

Refere-se o comentário sobre predadores de mulheres porque existe na verdade um imenso predomínio de ofensas e crimes cometidos do homem contra a mulher. É a cultura do machismo, da sensação de mais poder do homem sobre a mulher.

Um outro setor social de muita contribuição para as condutas desviantes temo-lo nos cargos políticos. Imagine o sujeito ser eleito para uma função pública e cometer os crimes de corrupção ativa ou passiva, de peculato, de improbidade administrativa! Imagine bem! O Nicolau é flagrado no delito, processado, tomado o que roubou de volta. Mas, o gatuno não se faz de rogado. E teimosamente volta a praticar os mesmos desvios de conduta. E os eleitores cativos e vendidos se mostram de mesma mente mórbida e ausência de senso crítico.

Então tinha razão Machado de Assis. Daqui a pouco, ao se andar pelas ruas, não saberemos quem é normal e quem apenas está num lapso de suas faculdades mentais. Daquele intervalo que liga uma mente sã de uma outra com desnível comportamental.

Inclusive muitos candidatos que nos deparam em busca de votos. Fica muito difícil separar o joio do trigo.

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