SAÚDE DO CORAÇÃO

DR. JOÃO JOAQUIM DE OLIVEIRA

Fome ou… – Matar a fome e nunca o apetite

“Uma das causas de qualquer grau de obesidade é o comportamento de se alimentar sem verecúndia” – Hipócrates. Verecúndia significa vergonha. Pode não parecer politicamente correto tal milenar afirmação. Todavia, não me soa muito estranho quando lembro-me que quando criança, meus avós e meus pais ensinaram-me uma minúscula ética, ou a hoje referida etiqueta à mesa. O que pensavam meus genitores, trazido de seus ancestrais? Que nunca se deve comer, alimentar eliminando por completo o apetite. Noutros termos, diziam eles: Pode-se matar a fome, mas não o apetite.

Acredito, que minha ascendência tem esses postulados e diretrizes de se comportar à mesa porque leram o grande sábio grego de Cós, Hipócrates, também tido e intitulado o Pai da Medicina. É dele também o axioma “primum non nocere”, dirigido a todo profissional médico. Primeiro não ser nocivo; eis aqui o artigo mais importante do juramento de qualquer profissional de saúde, o mais simbólico, capitaneado pelo médico.

Podemos considerar a grande ética como uma ciência das relações humanas. Quem assim se indispuser que a considere como um conjunto de sugestões, de regras, diretrizes capazes de nortear e bem reger a interação, contato, convivência e relações humanas nos mais variados âmbitos e interesses, sejam eles sociais, afetivos e profissionais, gastrointestinais ou gastronômicos.

O que diferencia a ética da moral é que esta se revela como a aplicação prática dos princípios éticos. A moral é a prática da teoria ética. Assim se recomenda no expediente e gestos das pessoas no exercício de se alimentar. O princípio mais civilizado no tocante à relação do homem com o alimento é aquele da nutrição como sustento. O conceito mais ordinário e objetivo de nutrição é este: o ato de ingerir o alimento como fim fundamental e essencial de provisionar o organismo como um todo, as células, enfim, dos nutrientes necessários à sua fisiologia (função enzimática, anatômica e reparadora). Para tanto entram aqui essas duas sensações gustativas: a fome e o apetite.

A fome é a sensação que informa de uma carência nutricional, em analogia com a sede, sensação que me indica necessidade de hidratação, água. O apetite se traduz em uma sensação gustativa prazerosa na ingestão de alimentas, sensação capaz, de gerar bem estar e gozo (prazer).

Imagine um indivíduo que ingeriu uma refeição habitual. A fome foi saciada porque houve a ingestão dos nutrientes essenciais às funções celulares, como glicose, vitaminas, minerais, água, lipídios, carboidratos e proteínas. Todavia, tendo saciado a fome, se disponível esse conviva e comensal será capaz de ingerir centenas, talvez milhares de calorias em doces e chocolates. Ou até outros alimentos salgados como uma cheirosa e apetitosa pizza ou lasanha, se esse conviva as tiver ao alcance. Trata-se de um comportamento de pura glutonaria, gula; a popular gulodice.

Tempos houve na história da humanidade, por exemplo: época do antigo Império Romano, em que a glutonaria, as orgias alimentares, as libações alcoólicas inebriantes eram práticas comuns e consideradas como fontes de prazer e diversão. As pessoas tinham o hábito de comer desmedidamente, desbragadamente, até sentirem-se mal por se tornar empanturradas de comida. Em seguida para aliviaram-se, esses comilões provocavam vômitos e comiam de novo. Foi desses tempos e dessa cultura que surgiu o distúrbio alimentar intitulado bulimia (de boulemia, apetite de boi).

Os tempos se passaram. Vieram na esteira da idade moderna, a era industrial e o capitalismo. Hoje temos um outro sistema, o consumismo. Como diretrizes das relações humanas, no gesto do consumo, criaram a etiqueta, um manual de mini ética para a mesa. Ela funciona em parte. Por exemplo, em cerimônias, num cenário de protocolos e com câmeras mostrando as pessoas, no seu vai e vem de comer e beber.

Basta o indivíduo se sentir mais liberto e privativo e com uns goles de cerveja que ele se comporta como um Gargântua ou Pantagruel (vide obras de mesmo nome de François Rabelais). Come, come, come. Bebe, bebe, bebe, como se fosse o dia final. Haverá um dia que o indivíduo e comilão, acerta, vai morrer de tanto comer.

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