Editor-Chefe: Jota Marcelo

Uruaçu, Estado de Goiás, 24 de março 2019

SAÚDE DO CORAÇÃO

DR. JOÃO JOAQUIM DE OLIVEIRA

De estimação? – A escravidão e tortura dos animais

Nós humanos, mais humanos poderíamos nos tornar se nos relacionássemos mais humanamente com os outros animais não humanos. O mundo seria mais belo, o mundo seria mais aprazível, o mundo seria menos violento, e todos, homens e animais, poderíamos viver na absoluta harmonia. Ops, minhas escusas pelas anáforas.

Ao certo o que se tem é que a relação do homem com os animais vem de primitivas épocas. Tal interação de proximidade, exploração e cativeiro se inicia na narrativa bíblica da construção de tamanha nau, a arca de Noé. Isto sem dispensar o emprego da força animal. Impossível. Em feito tão árduo e dispendioso necessário se fez o uso de ajuda de tração de elefantes. Portanto, o seu recolhimento à arca não se deu de forma graciosa. E mesmo quando da soltura da pomba para que ela retornasse com algum vegetal em sinal de terra à vista. Era o recuo das águas do dilúvio. Conforme nos registra o Livro de Gênesis.

Fora da concepção e tradição bíblica o trato do homem para com os animais foi sempre de muita exploração, violência e maus-tratos, antes do que de amparo, proteção e cuidado. E tal relação de desrespeito e ofensas não se atenuou, mesmo após a era industrial e têm-se as explicações.

Muito da atividade motriz se fazia às custas de animais. Peguem-se os exemplos dos equídeos. Quantos cavalos e muares não foram empregados em operações de guerra até fins do século XIX e início do XX! Mesmo nos tempos digitais, com a evolução do automóvel, e até das naves espaciais. Muitas Nações, muitas plagas desse planeta, ainda se movimentam com muito emprego da força animal. Em muitas regiões inóspitas da Terra cavalos e barros (asnos) são os principais meios de transporte humano e de cargas.

A predação de animais é outro triste capítulo que envolve os humanos versus animais. Se somos racionais deveríamos usar desse atributo superior para proteger nossos irmãos não racionais. Sejam eles bípedes, quadrúpedes ou mesmo ápodes por um design de criação. É o caso por exemplo dos anelídeos, dos hirudíneos, dos peixes e ofídios. E mesmo grandes mamíferos. Basta rever a biografia dos elefantes, dos rinocerontes e muitos irmãos primatas. Muitos já foram extintos e outros em vias de sê-lo.

Para ser bem realista, até nossa mãe Luzia, de que tinha apenas um esqueleto fóssil no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. A Luzia, que viveu em Lagoa Santa-MG, tinha quase 12 mil anos de idade. No incêndio do Museu se transformou em pó, ou melhor, em cinzas. Não é que ela estava destinada a tornar-se ao pó. Mas, pelo descaso de autoridades brasileiras, virou cinzas. Cumpriram-se as escrituras sacras, veio do pó e ao pó tornou-se. Graças à digitalização, ficaram ao menos sua silhueta virtual e algum busto de gesso.

O abate de animais como fonte de proteína na alimentação das pessoas revela-se em outro condenável cenário adotado pela sociedade humana. Não que o consumo de carne vermelha mereça repúdio. O que se critica é a forma de criação, de transporte e abate dos bichos. Tudo se inicia pela forma, e pelas condições onde se dão o crescimento e a engorda desses animais. Muitas das espécies para tais fins são confinadas em curtos espaços, em condições degradantes, com extremo desconforto e indução de ganho de peso com substâncias anabolizantes. O uso desses hormônios se traduz em um dano aos animais e às pessoas que vão se alimentar desses produtos frigoríficos contaminados. Outros derivados químicos na indústria frigorífica são as nitrosaminas, tidas e provadas como cancerígenas.

Os maus-tratos e condições degradantes na criação de animais para abate têm outros requintes de crueldade. A exótica carne de vitela é obtida com a criação de bezerros em diminutos confinamentos. São tratados com dieta para que a carne fique branca ou rosada e abatidos com três a quatro meses. O animal não tem nenhuma mobilidade e não tem direito sequer a tomar sol. Esta e outras formas de violência são práticas comuns com outros animais, como porcos e aves para produção de carnes especiais.

Na produção do foie gras (fígado gorduroso ou esteatótico) os patos ou gansos são tratados com uma sonda passada pelo esôfago da ave. O animal fica em uma gaiola e recebe uma dieta líquida contínua num sistema chamado gavage. Desta forma a engorda do animal e o fígado gorduroso se dão em poucos dias. Trata-se de um processo patológico, a indução de uma doença, corresponde à esteatose, encontradiça nos humanos; sobretudo em obesidade avançada, diabetes e excessos alimentares e alcoólicos. Só mesmo os humanos são capazes de tais esquisitices. Provocar uma doença no animal e dela se refestelar de prazer e satisfação gastronômica (sic).

As técnicas de abate dos animais são outras demonstrações da banalização da violência e tortura por que passam os animais.

Muitos dos maus tratos, violência e crimes contra os animais se fazem sob a displicência, sob a tolerância, quando não com a chancela e omissão de governos e autoridades sanitárias e do meio ambiente. Um exemplo para além do absurdo se deu com um navio de carga viva em outubro 2015, em Barcarena-PA, no rio Pará. Como apurado, a embarcação em precárias condições transportaria 5 mil bois para a Ásia. O navio naufragou antes da partida. As carcaças dos 5 mil animais continuam no fundo do rio Pará. Nesse trágico dano à vida animal e ao meio ambiente nada mais se falou, os responsáveis pela tragédia continuam impunes. Trata-se da mais robusta e morta prova do quanto tem sido a indignidade, vilania, desprezo e negligência dos mercadores e autoridades nas relações com os animais.

A insensatez e brutalidade em questão de relações dos humanos com os animais vão  a um absurdo de escravizarmos muitos bichos, encarcerá-los, prendê-los em peias e coleiras e referirmos a eles como nossos animais de estimação. Imaginemos agora o inverso, se fôssemos adotados pelos bichos (vide A Revolução dos Bichos, de George Orwell). Já pensaram nisso? Se vivêssemos guiados por coleiras e presos em gaiolas, em estreitos e confinados apartamentos. Tudo feito pelos bichos, nossos animais de estimação, que nos querem tanto bem! Já Imaginou!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Conteúdo Protegido!!