PAINEL CULTURAL

DR. ABILIO WOLNEY AIRES NETO

Cora Coralina

A primavera deu-lhe o cavalo selvagem da paixão

Apeada em seu corcel, noite alta, solidão

Trotando os 21 anos na quimera da ilusão

 

Amor de outras plagas, seu encanto, sua parelha

Proibido como o Éden em versos de torrentes vermelhas

Depois o adeus…

Depois o amar do mirante da ponte, varanda do mundo, sacada da fonte

 

E então a imperatriz de aspectos matronais

Brava dama quer viver no prazer de deixar ser

Linda vida, longos passos, um romance pra se ler

Atol de coral, ventania, longe a roda de menina

Água marinha do rio, em botânica, Coralina

 

Passos lépidos, silenciosos, qual gazela em pradaria

Desde os 15 nascitura em cordel sem livraria

Pós 70 em versos soltos, sua primeira edição

Na espádua cai-lhe a trança, foi-se o tempo, irrisão!

 

De coração fez-se Cora, Coralina de Vermelho

Fez o rio qual Narciso dar-lhe a face como espelho

Púrpuro rosto bordando nos lábios secretas verdades

Cinzéis triunfantes talhando palavras de liberdade

Vasquejando o firmamento na varanda de algum tempo

Deixando perder o vale sepulto do prazer quase ao relento

Lá na ponte o balaústre faz fronteira ao anoitecer

Doce amante, sem pecados, versos teus não vão morrer

 

Da sacada do sobrado nos fundos de quintal altivo

Desce o rego em cristal líquido como leve é o seu sorriso

Aragem de outono sopra a úmbria do seu horto

Manuscritos pejam cartas e poemas absortos

 

Fogão de lenha, bronze, tachos, limão e cinza

Dias lentos, casa da ponte, sua gamela é o horizonte

Tem um vaso na janela orvalhado de esplendor

Tulherias, flores brancas traz fragrâncias de olor

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