SAÚDE DO CORAÇÃO

DR. JOÃO JOAQUIM DE OLIVEIRA

Alarde falso – A queixa-crime era outra

O jogo fluía ao estilo civilizatório, cada equipe se atendo ao que o técnico e toda equipe de suporte orientaram aos atletas para aquele embate. Era um jogo de futebol. Em função da pandemia do novo coronavírus, não havia espectadores nas arquibancadas para assistir ao desempenho dos gladiadores. Não eram os romanos de extintos coliseus de que ainda se veem ruínas. Mas, pela dedicação dos atletas, pelo tamanho das arenas, esses estádios bem que lembram aquelas antigas e horrendas pugnas, com homens e feras se atracando, sangue esguichando e turbas e maltas de torcedores em alucinadas ovações. Quando não esses expectadores esquecem os espetáculos e passam às ações dos também gladiadores, com pancadas e pancadões, pescoções, garrafadas, bombas, porretadas, ferimentos e mortes. Dentro e fora dessas gigantescas arenas construídas para esportes.

O jogo entre as duas equipes esquenta, os competidores esquecem as preleções recebidas da equipe técnica. E passam então a se hostilizarem mutuamente, a bola sofre, chutes são dadas sem direcionamento, xingamentos, achincalhes, feições e olhares crispados, corpos suados, palavras são fuziladas contra os adversários.

Mais animosidade, mas incivilizado fica o duelo, a bola é esquecida, empurrões, enfrentamentos, desafios verbais, palavras de superioridade mais fortes são proferidas. Quando então, as sorrateiras câmaras flagram palavrões, ofensas. “Seu gringo de m…”. Cala a boca seu negro”. O jogo para, os técnicos e membros das equipem se intervêm, destemperos, parar o jogo, não parar, o árbitro faz o relato dos fatos, súmula do jogo, tudo registrado.

E assim, termina aquela pugna, aquele desafio e repto, com os ânimos mais serenados. Mas, o jogador negro, continua renitente, inconformado e quer porque quer levando a lide para a frente, abrir um inquérito policial, processo judicial e outras providências que o episódio comportar. A imprensa também entra em animosidade, entrevistas de solidariedade são proferidas em nome do atleta negro. Como pode tal atitude ainda persistir nos dias atuais. Tem que falar, tem que denunciar, tem que investigar, processar e tudo que couber de coibição a esses ataques, de racismo, de injúria racial, ofensa racial. Todos somos iguais em direito, pouco importa a cor de nossa derme, de nossa tez. Que desfaçatez.

E assim, prosseguiu, registrou-se o Boletim de Ocorrência, testemunhas foram ouvidas, vítimas e ofensores foram ouvidos. Que fique lembrado. Eram dois personagens, um de etnia branca foi chamado de “seu gringo de m…”. O de etnia negra reclamava, da frase a ele dirigida: “Cala a boca seu negro”. Pacificado então. Que haja BO, inquirição dos envolvidos, processo criminal por preconceito, injúria individual ou racial. Vêm delegados, vêm oitivas, testemunhas, vídeos do ocorrido, advogados cuidando do caso.

Eis que vem a parte final, e os atletas são ouvidos. Chega a vez daquele de etnia negra. Audiência, advogados, testemunhas, vídeos, falam todos. E o juiz então faz a pergunta capital:

“Então o senhor, jovem atleta, RG tal, data nascimento tal, CPF tal, etnia negra. O senhor jovem atleta, cobra, pede justiça a esse Juízo, por ter sido chamado de negro? Confere tudo para o senhor?”.

“Não excelência, eu não cobro por ter sido chamado de negro, porque a minha negritude, quase retinta, como pode bem ver pela minha pele salta aos olhos de todos. Eu cobro, pelo cala boca, pela minha liberdade de imprensa e de expressão. Nada mais.”.

“Oh! Então esse Juízo lamenta! Mas, essa tipificação de delito não é nesta Vara. Encaminhe-se o caso para outro Juizado e dê os cumprimentos a minha decisão.”.

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