PAINEL CULTURAL

DR. ABILIO WOLNEY AIRES NETO

A Academia Goianiense de Letras e o Pe. Luis Palacín

No ano passado assumi a Cadeira 36 da Academia Goianiense de Letras quando os anos caminham para a fronteira de melhor idade, abraçado a projetos de cultura e com mais 2 livros no prelo para compor o meu trabalho de 15 títulos publicados em modo físico e digital até este momento.

Cheguei àquela Academia quando em mim pulsavam os mais sinceros desejos de encontrar meios de dar visibilidade aos autores regionais goianos, buscando algum espaço nos meios de comunicação digital da era nova para caminhar com eles para estantes virtuais de modo a dar visibilidade para as pratas da Casa, pois resenhar autores famosos, comentar-lhes as obras, trazê-los à berlinda da qual já desfrutam por serem conhecidos é função bastante razoável, como de brilho que tangencia o próprio produtor da divulgação que, nesse sentido alcança o duplo mérito: o de quem escreve a respeito e sobre quem é escrito ou produzido o excelente trabalho.

Divulgar a nós próprios, os escritores, poetas, historiadores, cronistas e jornalistas radicados na cidade de Goiânia ou do Estado parece ser o desafio do momento, pois Goiás emprestou ao Brasil alguns nomes importantes, mas poucos de nós ganhamos o reconhecimento de uma fama justa pela obra empreendida.

Se eu cumprir esse desiderato com a minha pequena parcela de contribuição, a par das coisas que escrevo, terei sido o sapateiro que ajudou a fazer calçados aos que caminham na direção da arte historiográfica e literária, pois só o esteta pode encontrar o belo como valor essencial das coisas, compor esse Tribunal da História ao julgar o passado e formular o presente de modo a contribuir com a melhora da humanidade que, quase sempre, foi dirigida por generais e não por estetas e homens de letras.

Todavia, sou daqueles que ainda tenho muito que fazer para que as palavras correspondam às atitudes, certo que se damos testemunho de nós próprios, pouco vai valer, pois o tempo e a história nos julgarão de algum modo.

Se falamos em testemunho de quem já fez o périplo do século em que viveu, aí sim, teremos condições de apurar os seus feitos numa existência inteira ou do capítulo de uma série dentro na qual estará inserido.

A esse propósito, destaco o nome do patrono da Cadeira 36 que assumo, qual seja o do escritor Padre Luis Palacín Gomez. Era filho de Agustín Palacín Poveda e Adelina Gómez e nasceu em Valladolid, Espanha, em 21 de junho de 1927, cujo ser humano deixou o mundo um pouco melhor depois que passou por aqui.

O escritor e Prof. Antônio César Caldas Pinheiro destaca Luis Palacín como um homem que

 

“Sentindo-se chamado à vida religiosa, entrou para a Companhia de Jesus, em Salamanca, no dia 20 de setembro de 1944. Em Salamanca, passou os primeiros anos da formação jesuítica, transferindo-se, em 1948, para Comillas, diplomando-se em Filosofia, em 1951.”.

 

De 1951 a 1954, realizou o curso de licenciatura em História, nos municípios de Salamanca e Santiago de Compostela, época em que passou a exercer o magistério. Data dessa época o seu amor pela História.

De volta a Comillas, cursou Teologia, de 1954 a 1958, e após criterioso discernimento, foi ordenado sacerdote pelo Núncio Apostólico da Espanha, Dom Ildebrando Antoniutti, no dia 15 de julho de 1957.

Em 1958, Padre Luis Palacín embarcou para o Brasil, onde realizou, em 1959, a Terceira Provação na Fazenda Três Poços, no Rio de Janeiro, concluindo as etapas de sua formação na Companhia de Jesus. No Brasil, passou a integrar a Vice-Província Goiano-Mineira dos Jesuítas, e iniciou, em 1960, seu trabalho na Universidade Católica de Goiás, hoje PUC Goiás, então dirigida pelos jesuítas.

Para continuar seus estudos, regressou a Espanha, em 1965, com o fito de cursar o doutorado. Doutorou-se em História, em 1967, pela Universidade Complutense de Madri e, logo em seguida, retornou para seu campo de trabalho na Universidade Católica de Goiás, ministrando aulas também na Universidade Federal e, esporadicamente, em outras instituições, como na Unisinos, no Rio Grande do Sul.

Sacerdote dedicado, prestou relevantes serviços ao Tribunal Eclesiástico da Arquidiocese de Goiânia. Atendeu diversas comunidades, muitas na periferia de Goiânia, solidarizando-se com o povo sofrido, socorrendo e minorando seus sofrimentos. Pesquisador arguto, não interrompeu suas atividades, mesmo após se aposentar, aproveitando seu tempo para atender e prestar sua colaboração a trabalhos diversos, pesquisas e bancas examinadoras em diferentes universidades brasileiras.

As pesquisas e estudos do Padre Palacín consolidaram um projeto científico para a produção historiográfica de Goiás. A historiadora Maria Augusta de Sant’Anna Moraes afirmou ser o Padre Palacín o “pai da historiografia científica goiana”, no que é secundada por diversos historiadores goianos como Ferreira Freitas, Gilka Vasconcelos Salles, Noé Sandes, Paulo Bertran, Nasr Chaul e muitos outros. Para o Professor Wolmir Amado, que teve o Padre Palacín como orientador em seu mestrado, a pesquisa historiográfica do Padre Palacín “demarca as origens de um novo fazer histórico em Goiás. Traz consigo diversas fases epistemológicas, metodologias novas, chaves hermenêuticas e conceitos que suscitam novas óticas e enfoques. Por isso, sem o risco da precipitação, serenamente se pode dizer que o Padre Palacín demarca um antes e um depois no modo de produzir as narrativas históricas, em Goiás.”.

Como resultado de suas investigações e estudos, deixou publicados os seguintes livros:

(1972) Goiás 1722/1822. Estrutura e conjuntura numa capitania de Minas.​

(1977) História de Goiás (parceria com Maria Augusta de Sant’Anna Moraes).

(1978) Do Sempre e do Instante (poemas).

(1978) A Fundação de Goiânia e o Desenvolvimento de Goiás.

(1981) Sociedade Colonial, 1549 a 1599.

(1982) Patrimônio Histórico de Goiás (em parceria com Ana Maria Borges).

(1983) Subversão e corrupção. Um estudo da administração pombalina em Goiás.

(1986) Vieira e a Visão Trágica do Barroco.

(1986) Quatro Tempos de Ideologia em Goiás.

(1990) Coronelismo no extremo Norte de Goiás: O Padre João e as três revoluções de Boa Vista.

(1994) História Política de Catalão (em parceria com Nasr Chaul e Juarez Barbosa).

Padre Palacín pertenceu aos quadros do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, instituição da qual é patrono da Cadeira 13, hoje ocupada pelo Professor Wolmir Amado, e foi conselheiro do Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central, da PUC Goiás. Era exímio pescador e amante da prática do tênis e do jogo de xadrez, tendo vencido diversos concursos no Brasil e no exterior.

 

Simples, humilde mesmo, nada tinha de seu. Pobre, seguiu o Divino Mestre na escola de Santo Inácio, entregando-se totalmente, corpo, mente e vontade, a serviço do Reino. Sempre tranquilo e afável, escutava todos e conversava sem elevar a voz, sempre prestativo, com olhar sereno e penetrante.

Adoecendo, foi diagnosticado com um sério problema de saúde, cujo processo não poderia mais ser revertido. Centrando-se em sua fé, com calma e desprendimento, não deixou se abater e permaneceu firme. Buscou os recursos que poderiam auxiliá-lo e deu fiel testemunho, sofrendo estoicamente, sem desviar o olhar d’Aquele que o encantara desde a sua juventude e cuja ressurreição alicerçava sua inquebrantável fé.

No final do mês de janeiro de 1998, seguiu para Itaici, para a casa dos Jesuítas, onde tomou parte no retiro espiritual com seus coirmãos. Após a celebração da Páscoa, fortalecido pela certeza da ressureição, retornou para Goiânia. Aqui, junto à sua comunidade, aos amigos de pescaria, professores, pesquisadores, fiéis das diversas comunidades onde trabalhou como capelão, pároco e vigário cooperador, na Arquidiocese de Goiânia, onde realizou e se realizou em sua vocação missionária, deveria “combater o bom combate, terminar a carreira e guardar a fé!” (2 Rm 4,7).”.

Prossegue o escritor Prof. Antônio Caldas:

“Padre Luis Palacín Gomez adormeceu no Senhor, no dia 28 de abril de 1998, aos 70 anos de idade e 53 na Companhia de Jesus. A noite já caíra sobre Goiânia e para o Padre Palacín, a luz do eterno dia se fizera realidade na presença luminosa do Senhor.

A Igreja Arquidiocesana, os filhos de Santo Inácio e a comunidade acadêmica, pesarosos, choraram o passamento do virtuoso e dedicado sacerdote, do confrade zeloso e afável, do insigne historiador e professor emérito. Porém, conformados e confortados pela certeza transcendental da existência, expressaram ao Pai Eterno a gratidão imensa pela vida tão profícua do Padre Luis Palacín Gomez, homem de Deus, missionário devotado e sempre disponível para o serviço do Reino, goiano de coração!”.

 

Ademais, a Academia Goianiense de Letras volta à atividade mais intensa quando o seu presidente, Dr. Aidenor Aires, mantém como renova os quadros da instituição, providencia espaço para o seu franco funcionamento e edita revistas periódicas, além de abrir agenda para uma sede definitiva da Casa beletrista dos Escritores goianienses.

Vale escrever o nome desse aguerrido empreendedor da cultura com sua expressão marcando todos os salões da cultura goiana nas galerias das fotografias de ex-presidentes em diversas delas, inclusive da Academia Goiana de Letras:

Aidenor Aires Pereira (Riachão das Neves, 30 de maio de 1946) é poeta brasileiro, radicado em Goiânia. Por sua importância cultural para o estado de Goiás, recebeu o título de Cidadão Goiano da Assembleia Legislativa, no ano de 2009. Filho de Wilton Santos e de Valeriana Aires Pereira, após cursar as primeiras letras na cidade natal, mudou-se para Goiânia, onde completou a formação na Escola Técnica Federal. Depois cursou o Lyceu de Goiânia e bacharelou-se em Letras pela Universidade Católica de Goiás e, mais tarde, em Direito.

Trabalhou na advocacia e no magistério, quando por concurso integrou o Ministério Público até sua aposentadoria.

Membro da Academia Goiana de Letras e da Academia Goianiense de Letras, foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

Por seu livro Reflexões do Conflito, de 1970, escrito em parceria com Gabriel Nascente, passou a pertencer ao grupo pós-GEN, ou Novo Grupo de Escritores Novos. Detentor de diversos prêmios de poesia, entre eles, o Fernando Chinaglia, de 1978 e o Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, de 1986. É um dos fundadores da Academia Goianiense de Letras.

Livros Publicados por Aidenor Aires:

  • Reflexão do Conflito, Goiânia: Departamento Estadual de Cultura de Goiás, 1970;
  • Itinerário da Aflição, Goiânia: Oriente, 1973. Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos;
  • Lavra do Insolúvel, Goiânia: Oriente, 1974. Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos;
  • Rio Interior, Goiânia: Líder, 1977. Prêmio Fernando Chinaglia;
  • Amaragrei, Brasília: Ipiranga, 1978. 1º lugar no 3º Concurso Nacional de Literatura de Goiás;
  • Canto do Regresso, Goiânia: Edição do Autor, 1979;
  • Tuera – elegia carajá, Brasília: Thesaurus, 1980;
  • Aprendiz de Desencantos, Goiânia: Inigraf, 1982;
  • Os Deuses são Pássaros do Vento, Goiânia: Cerne, 1984; Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, 1984;
  • Via Viator, São Paulo, Melhoramentos, 1986. Prêmio Bienal Nestlé.
  • Na Estação das Aves, 1973;
  • O Canto do Regresso, 1979;
  • A Árvore do Energúmeno, contos, 2001; Via Viator, 1986;
  • O Dia Frágil, 2005; Seleta Poética, antologia, 2005; XV Elegias, 2007;
  • Seiva Resguardada, tradução, 2007.

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