PAINEL CULTURAL

DR. ABILIO WOLNEY AIRES NETO

‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XXIV – A ORIGEM DO NOME “DIANÓPOLIS”

[Em diferentes edições e capítulos, o JORNAL CIDADE publica O DIÁRIO DE Abílio Wolney, livro do articulista Abilio Wolney Aires Neto, lançado pela editora Kelps (Goiânia-GO.), em 2009

Praça Dep. Abílio Wolney em Novo Jardim – TO. O município foi criado sobre as terras da Fazenda Jardim, doadas por Abílio Wolney – Fotos: livro

 

XXIV – A ORIGEM DO NOME “DIANÓPOLIS”

 

Em 1938, depois de quase uma década de autodesterro, Abílio Wolney retornava da Bahia para São José do Duro, ano em que o município passou a se chamar Dianópolis.

Pesquisando sobre a origem do nome “Dianópolis”, fomos para os lados do Casarão. Na esquina do antigo largo do Duro, na porta da casa, folgava à tarde, numa cadeira, a tia e madrinha Doralina Wolney Valente [261 com suas recordações da Vila de antanho. E com ela fomos conversar, buscar outras cartas e fotografias, além das que me foram fornecidas por minha mãe Irany Wolney. Colher mais dados e documentos sobre a história do torrão natal.

Primeiro a benção e não demora – vamos direto ao assunto:

– Fico olhando para essa casa do meu avô, do meu pai, e choro de lembrar como tudo pôde acontecer daquele modo – diz ela, lembrando que nasceu no ano de 1918, caminhando para os seus 90 anos de idade, mas é como se tivesse vivido naquela época. Afinal, além de Irany Wolney, foi ela uma das filhas que esteve sempre muito próxima do pai Abílio Wolney, ouvindo dele mesmo a versão dos fatos daqueles tempos idos.

Em 1938, Doralina Wolney contava 20 anos de idade, tempo em que o seu pai Abílio Wolney findava o seu longo mandato de prefeito nomeado em Barreiras-BA.

Ao retornar para a nossa terra, – contou-nos ela – o veterano político, no tirocínio dos sexagenários, foi solicitado para uma reunião.

Abílio Wolney receberia ali no Casarão, sua residência, uma comitiva dos homens do lugar, encabeçada por Coquelin Ayres Leal, seu parente, e pelo amigo Veríssimo Teixeira da Mata. Vinham tomar uma opinião, buscar uma sugestão para renomear a vetusta São José do Duro.

– Vocês sabem que a Vila de Santana das Antas passou a se chamar Anápolis – Cidade de Ana. A iniciativa foi minha, no findar do meu primeiro mandato de Deputado. Fiz em homenagem a Nossa Senhora Santana, avó materna de Jesus Cristo, da qual era devota Ana das Dores – das primeiras do lugar.

Todos gostaram muito. E ele prosseguiu:

– Vejam que coincidência: Temos por aqui quatro Dianas, que depois da hecatombe do Barulho passaram a ser as mães dos filhos desta terra. A rima de polis com Diana vai dar um belo nome, cobrindo os escombros do passado, embora dele jamais possamos nos esquecer…

Embargou.

Olhando por cima dos óculos, um lornhão, concluiu feliz por merecer a distinção da consulta:

Anápolis foi de Ana. Dianópolis é de Diana. Cidade das Dianas…

Risos!

Estava posta a homenagem às quatro Dianas, como eram carinhosamente conhecidas Custodiana Wolney Nepomuceno Araújo, filha de Josina Wolney, irmã de Abílio; Custodiana Leal Rodrigues, sua prima; Custodiana Costa Aires, sua parenta e filha do amigo de todas as horas, Casimiro Costa e, ainda, Custodiana Wolney Póvoa, filha do próprio Abílio Wolney, uma bela viúva que despertava os sentimentos de Veríssimo, também viúvo, embora o destino não viesse a uni-los.

Homenageava-se ainda Anna Custódia Wolney Leal, irmã de Abílio, e, no mais, dava ao local um belo nome.

 

Veríssimo da Mata seria, no ano seguinte, o sexto Prefeito da Vila, dentre os nomeados por Pedro Ludovico Teixeira, Interventor em Goiás. Com certeza, dentre as demais, o nome agradaria Diana Wolney, sua paixão platônica.

– Bom nome. Eu imaginava algo assim, disse o futuro alcaide.

Pode-se imaginar a satisfação de Coquelin Ayres Leal, casado com Diana Costa:

– Minha mulher foi a primeira professora aqui. Ela merece, como as outras também.

Agora se faziam necessários os papéis para levar ao Governo do Estado, onde, à frente, estava o seu amigo Pedro Ludovico, por esse tempo já em Goiânia, a nova capital, o que foi providenciado. E logo veio o resultado. Por força do Decreto-Lei nº 311, de 02 de março de 1938, conjugado com os Decretos-Leis 557 e 808, de 9 de junho e 30 de setembro de 1938, respectivamente, a Vila do município de São José do Duro foi elevada à categoria de cidade. Em 1º de janeiro de 1939, deu-se a festividade solene de implantação e inauguração da Cidade Diana.

Na concepção poética, Diana quer dizer Lua. Em latim, significa “divina”. Era a deusa da lua para os romanos, a deusa da caça que atirava suas flechas através das florestas da Grécia.

 

Doralina Wolney Valente

 

No pastoril, que é uma pequena representação dramática, composta de várias cenas (jornadas), durante as quais se sucediam cantos, danças, partes declamadas e louvações, e que se realizava diante do presépio, entre o dia de Natal e o de Reis, para festejar o Nascimento de Jesus, as Dianas são as personagens femininas, as Doralina Wolney Valente pastoras ou pastorinhas.

Na mitologia, conta a lenda que havia um vale rodeado por densa vegetação de ciprestes e pinheiros, consagrado à rainha caçadora, Diana. Na extremidade do vale havia uma gruta, não adornada pela arte, mas a natureza imitara a arte em sua construção, pois cravejara a abóbada de seu teto com pedras, tão delicadamente como se estivessem dispostas pelas mãos do homem. De um lado, jorrava uma fonte, cujas águas se espalhavam numa bacia cristalina. Ali, a deusa dos bosques costumava ir, quando cansada de caçar, e lavava seu corpo virginal na água espumejante.

 

Certo dia, tendo entrado ali com suas ninfas (divindades fabulosas dos rios, dos bosques e dos montes, representadas por mulheres novas e formosas), entregou a uma delas o dardo, a aljava e o arco, a túnica a uma segunda, enquanto uma terceira retirava-lhe as sandálias dos pés. Então, Crácole, a mais habilidosa de todos, penteou-lhe os cabelos e Néfele, Híale e as demais carregavam a água, em grandes urnas. Enquanto a deusa entregava-se assim aos cuidados íntimos, Actéon, tendo-se separado dos companheiros e vagando sem qualquer objetivo definido, chegou ao local, levado pelo destino. Quando surgiu à entrada da gruta, as ninfas, vendo um homem, gritaram e correram para junto da deusa, a fim de escondê-la com seus corpos. Ela, porém, era mais alta que as outras e sobrepujava todas pela cabeça. Uma cor semelhante à que tinge as nuvens no crepúsculo e na aurora cobriu o rosto de Diana, assim apanhada de surpresa. Cercada como estava, por suas ninfas, ainda fez menção de voltar-se e procurou, impulsiva, as setas. Como estas não estivessem ao seu alcance, atirou água no rosto do intruso, exclamando:

– Agora, vai, e dize, se te atreves, que viste Diana sem suas vestes […]. (Texto da mitologia grega).

 

***

 

Por volta de 1939, outra providência foi tomada por Abílio Wolney junto ao Ministério da Guerra, na tentativa de trazer para Dianópolis uma linha aérea, como narra o Dr. João Rodrigues Leal em carta ao seu irmão Dário Leal:

 

Quanto ao desenvolvimento que está sendo imprimido à nossa terra é motivo de satisfação para todos nós. Sobre o campo de aviação […] não há muito tempo tio Abílio teve esta ideia, submetendo mesmo à apreciação do Ministério da Guerra, (isto antes da criação do Ministério da Aeronáutica) uma petição para que o Correio aéreo Militar tivesse escala aí, isto é, que houvesse ligação aérea entre o Tocantins e S. Francisco. O pedido foi apreciado tendo uma solução contrária em virtude de acarretar gastos de material […] O material aeronáutico é todo importado, o que justifica plenamente o cuidado na sua conservação e se fosse possível esta linha, realmente seria para este trecho alguma vantagem. Futuramente com o desenvolvimento da aeronáutica tal fato poderá se verificar, porquanto a tendência é sempre melhorar… (Rio, 29/IX/1941). (Acervo do autor)

 

Praça Dep. Abílio Wolney em Novo Jardim – TO. O município foi criado sobre as terras da Fazenda Jardim, doadas por Abílio Wolney

 

[261 Doralina Wolney Valente e Irany Wolney Aires foram, dentre os irmãos e outros parentes, dignas referências à família Wolney. Com a morte de Abílio Wolney em 1965, coube à primeira criar e educar os filhos menores deixados pelo pai, hoje homens: Joaquim Wolney (Funcionário Público Federal aposentado); Emílio Póvoa Wolney (fazendeiro), Dorinha Wolney (Oficial do Registro Civil de Dianópolis), Mariazinha Wolney (Funcionária Pública aposentada) e Francisco Wolney (Bancário). Dinha Dora guardou razoável acervo histórico dos nossos antepassados, hoje reunidos no Museu, sediado no Casarão. Após décadas de serviço público, aposentou-se no cargo de Oficial do Cartório do Registro de Imóveis e Notas de Dianópolis-TO. É mãe da atual Oficial do Cartório, Ronedilce Wolney Valente, do médico Dr. José Wolney Valente e da Advogada da União, Drª. Maria Jovita Wolney Valente, que ocupa cargo no alto escalão da República em Brasília-DF.

 

[Continua na próxima postagem quinzenal, com a publicação do Capítulo XXV

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