PAINEL CULTURAL

DR. ABILIO WOLNEY AIRES NETO

‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XXIII – O LONGO MANDATO DE PREFEITO EM BARREIRAS-BAHIA

[Em diferentes edições e capítulos, o JORNAL CIDADE publica O DIÁRIO DE Abílio Wolney, livro do articulista Abilio Wolney Aires Neto, lançado pela editora Kelps (Goiânia-GO.), em 2009

A embarcação Ajoujo, arquitetada por Abílio Wolney (Acervo de Irany Wolney Aires) – Fotos: livro

 

XXIII – O LONGO MANDATO DE PREFEITO EM BARREIRAS-BAHIA

 

Caída a oligarquia Caiado em 1930, Abílio Wolney já se encontrava desde meados dos anos 20 no oeste baiano, onde foi prefeito de Barreiras entre 1932 e 1937.

Quando do pleito para Deputado Federal no longínquo ano de 1900, tivera votos para eleger-se Deputado Federal por Goiás e pela Bahia (tratamos disso quando da notícia da sua depuração também na eleição pela Bahia). Ali, no final dos anos 20, ao aconchego de amigos e políticos de Barreiras, torna-se Vereador e Presidente do Conselho Municipal (Câmara de Vereadores).

Barreiras, a menos de 200 quilômetros de São José do Duro, fica situada na margem do Rio Grande, afluente do lado esquerdo do Rio São Francisco, sediando a região que compreendia Angical, Duro, Brejolândia, Catolândia, Correntina, Cotegipe, Cristópolis, Formosa do Rio Preto, Ibipetuba, Riachão das Neves, São Desidério e Tabocas do Brejo Velho.

Logo que se fixou em Barreiras, foi acolhido por Geraldo Rocha, pelo Deputado Francisco Rocha e familiares, então donos da Companhia Sertaneja Agro-Pastoril S.A., que, na verdade era um conjunto de empresas de vulto, inclusive a de energia elétrica. Abílio é escolhido para gerente do Escritório da Companhia, que, na época, englobava também o maior complexo agropecuário do nordeste do País, e com a sua habilidade é convidado a dar solução para o problema da travessia do Rio Grande, que separava a cidade ao meio e não havia ponte. Surge então o plano da construção do Ajoujo, [259 uma balsa, que presa a um cabo de aço que atravessava o rio, movia-se com a pressão da água contra a embarcação, que deslisava presa ao cabo, atracada por um sistema de correntes, sem a necessidade de remos. Era uma obra de engenharia. Na época era a única viatura capaz de atravessar carros sobre o dorso do rio.

Por outro lado, Abílio abre em Barreiras uma grande farmácia, a “Farmácia Wolney”, manipulando remédios e exercendo a medicina prática, autorizado que era pelos Conselhos de Farmácia e Medicina para ambas as profissões. Tinha como colaborador o grande amigo e depois farmacêutico João Gualberto, de quem batizou a filha Magaly Almeida Brum Ribeiro. A botica ficava no piso inferior do Sobrado que ali adquirira e onde passou a morar com a família, cuja construção está preservada integralmente graças aos cuidados da pedagoga e escritora Ignez Pitta de Almeida, atual proprietária.

 

Sobrado que foi propriedade e residência do então Prefeito Abílio Wolney. Atual Museu no Centro Histórico de Barreiras-BA

 

Farmácia de Abílio Wolney, no interior do Sobrado acima. Hoje museu de Barreiras. (Acervo do autor)

 

Abílio Wolney (3º da direita para a esquerda) em Barreiras-BA, nos anos 30 (Acervo de Doralina Wolney Valente e Ignez Pitta)

 

A embarcação Ajoujo, arquitetada por Abílio Wolney (Acervo de Irany Wolney Aires)

 

Uma das fachadas da antiga Companhia Sertaneja no Centro Histórico em Barreiras-BA (Foto do autor)

 

O jornal “O Tempo” de propriedade de Abílio Wolney, divulga projetos cheios de entusiasmo num tempo em que Barreiras era como uma ilha no oeste baiano. O projeto da criação do Estado do São Francisco é publicado mais uma vez. A Bahia é a nova terra de Abílio Wolney. As edições de “O Tempo” dão a nota do novo cidadão baiano, com sua pena fulgurante.

 

Acervo de Doralina Wolney, Ignez Pitta e Magaly Almeida

 

Juraci Magalhães, Interventor do Estado da Bahia, o prestigiá-lo-ia nomeando-o Intendente de Barreiras, e uma nova fase na vida pública reiniciará para ele em outras terras.

Exerceria o longo mandato de prefeito nomeado entre 1932 e 1937.

Dentre as obras do Prefeito Abílio Wolney em Barreiras, destaca-se a construção da imensa ponte “São João”, que ligava Barreiras a São Desidério, São Domingos, Correntina e outras cidades naquela direção; o projeto de Irrigação, desenhado e ilustrado, hoje em funcionamento a partir da barragem situada em São Desidério, drenando mais de 3.000 hectares do semiárido. A irrigação é toda por gravidade e desce em canais largos e fundos de cimento e através dos seus dutos, tudo pelo sistema de gravidade. Outra obra foi o traçado da estrada de carro ligando Barreiras a Sítio do Mato, além do primeiro aeroporto de Barreiras e Projetos de inclusão social de famílias carentes, retirantes do nordeste. (Veja o livro Abílio Wolney na Bahia, do autor)

 

Ponte São João, na saída urbana de Barreiras para São Desidério

 

Sobre Juraci Magalhães pode-se dizer que foi uma notabilidade na vida brasileira: general do Exército, Governador da Bahia, Deputado Federal, Senador da República, Presidente da Companhia Vale do Rio Doce, Presidente da Petrobrás, Embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Ministro da Justiça e Ministro das Relações Exteriores, numa vida pública de 50 anos. Em uma entrevista que concedeu ao escritor Nertan Macedo em Petrópolis-RJ [260, responde ele:

 

– O Coronel Abílio Wolney era um caudilho que vivia em Goiás e se foi abrigar em pleno sertão da Bahia, na cidade de Barreiras. Quando cheguei aquele Estado, no ano de 1931, ele ali se encontrava.

– Wolney adquiriu tal conceito na sociedade local, isto é, em Barreiras, quase na fronteira com Goiás, que quando assumi o Governo do Estado, como Interventor da Bahia, seu nome me foi indicado para o cargo de prefeito.

Nomeei-o e não me arrependi. Fez uma administração exemplar.

– Wolney era um homem de fala mansa, daquele ‘saber de experiência feito’ a que aludia Camões. Conversava desembaraçadamente sobre pessoas e fatos da sociedade que o tinha acolhido, e mesmo a respeito dos inimigos do passado, em Goiás, referia-se com respeito. Usava barba num tempo em que isto não era comum. Pelos adversários políticos locais, era estimado. Como você sabe, lá em Barreiras dominava a família Rocha, tendo como cabeça o doutor Francisco Rocha, e de onde viriam mais tarde Antônio Balbino, Vieira de Melo e tantos outros.

– Wolney falava com moderação mesmo sobre estes adversários políticos. Por sinal, um deles, o Vieira de Melo – que mais tarde se casaria com uma neta de Wolney – foi meu concorrente nas eleições de 1958 para Governador da Bahia. Perdeu. Mas eu o convidei para o cargo de Secretário de Viação, que aceitou, ocupou e desempenhou muito bem.

– Depois de 1937 perdi Abílio Wolney de vista, mas dos contatos que tive com ele guardo até hoje boas lembranças.

Jamais esteve no Palácio do Governo para falar com o Interventor e fazer pedidos pessoais, para si, para amigos, parentes ou correligionários. Pedia, sim, para o município: estradas, escolas, verbas para iluminação pública, enfim, tudo quilo que o município necessitava. Era um homem honesto.

– Eu tenho uma opinião diferente da que é geralmente aceita sobre os chamados ‘coronéis’ do interior. Conheci muitos deles, que foram exemplares chefes, políticos nos sertões, exercendo um benéfico patriarcado, dando tudo de si para bem servir a coletividade. Ser chefe político em um município é um ônus terrível que, geralmente, condena o indivíduo a uma pobreza definitiva. É claro que houve também os ‘coronéis’ que usavam o poder para exercer uma espécie de monopólio do comércio, marcada sua atividade pela prática de um nepotismo sem limitações. Mas, de regra, o chefe político fazia imensos sacrifícios, inclusive para custear as festas cívicas a que se obrigava, como um dos imperiosos deveres para manter o seu prestígio na coletividade a que servia.

– A Revolução de 30 marcou o fim dos ‘coronéis’ caudilhos, mas os verdadeiros chefes políticos sobreviveram e continuaram servindo ao povo com abnegação, merecedores de respeito. Ainda hoje há homens que já não se intitulam coronéis, mas que continuam com aquela vocação de servir ao próximo que os impõe para o exercício da liderança política, sempre tão exigente.

– A sociedade evoluiu e hoje são raros os homens de bem que aceitam se tornarem líderes da comunidade onde vivem.

Há, atualmente, uma crise de liderança local, regional ou nacional, porque na verdade a capacidade de se devotar a causa púbica é cada vez menos encontradiça. A atividade política encontrava uma farta compensação no respeito que esse trabalho cívico merecia por parte dos seus concidadãos.

Um líder político era geralmente apreciado, respeitado e despertava gratidão. Hoje, a condição de homem público é quase pejorativa. Admite-se que o político procure obter vantagens pessoais no trabalho a que se dedica em favor da coletividade. Isso nem sempre é verdadeiro. Há homens que se sacrificam nas lutas partidárias; há, naturalmente, aqueles que aproveitam as posições para o enriquecimento ilícito e para o abuso da autoridade. Felizmente, porém, são exceções fáceis de identificar. Quando se noticia um caso de corrupção ou desmando político, a divulgação é ampla. Mas os sacrifícios cotidianos dos políticos honrados morrem no esquecimento.

– Faça-se um inquérito para saber quantos líderes enriqueceram no exercício da atividade pública e há de se chegar à conclusão de que, em geral, morreram pobres, tendo sacrificado os interesses de suas famílias em favor da coletividade. Frequentei honrados lares de chefes políticos em todo o Brasil e só guardei lembranças boas de sua generosa hospitalidade, testemunhando a excepcional capacidade de servir ao próximo de que eram dotados.

– Lembro-me bem de que os líderes políticos pediam sempre muito, mas era muito raro que um pedido fosse feito em seu próprio benefício. Um estudo sociológico da vida dos coronéis como Abílio Wolney há de revelar facetas muito interessantes e desconhecidas do público em geral.

– Muitas foram as vezes em que Wolney comparecia às audiências em Palácio, na capital da Bahia. Não me recordo de ter feito qualquer pedido pessoal para ele ou para a família dele.

– Eu acho que Wolney desempenhou um papel na sociedade onde viveu. Deve ter tido pecados, que Deus, na sua generosidade, há de perdoar. Mas muito contribuiu para o bem da sociedade. Ele está entre os ‘coronéis’ dignos, entre aqueles que jamais usaram o prestígio para tirar proveito pessoal. Wolney sempre pensou na coletividade e no interesse desta, os mais legítimos.

 

Numa das viagens que o então Prefeito Abílio Wolney fez ao Rio de Janeiro no início dos anos 30, participou de importante reunião com altos chefes militares, inclusive com o General Juarez Távora, Ministro da Viação no governo Vargas. A Juarez, Abílio sugeriu a criação dos Batalhões Rodoviários do Exército, e Juarez, aplaudindo a ideia, levou-a ao Ministro da Guerra, tendo sido a mesma aprovada. Foi daí que começaram a nascer as unidades militares rodoviárias, que tantos serviços importantes têm prestado ao Brasil nas últimas décadas.

 

Prefeitura (Intendência) de Barreiras-BA, em 1937. Abílio Wolney está ao meio, na linha de frente

 

Ao fundo, Abílio Wolney em Barreiras-BA, nos anos 30 (Acervo de Doralina Wolney Valente e Ignez Pitta de Almeida)

 

[259 Ajoujo, assim batizada por Abílio Wolney, já que se tratava – como no léxico – de uma embarcação de balsa e canoa constituída de quatro canoas, tendo por cima um estrado de madeira (coxia) a elas fortemente amarrado, e que era impelida pela inclinação das correntes que a atavam a um cabo de aço.

[260 Obra citada, pág. 61-64.

 

[Continua na próxima postagem quinzenal, com a publicação do Capítulo XXIV

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