‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XI – “A AUDIÊNCIA NO INVENTÁRIO ‘O BARULHO’”
[Em diferentes edições e capítulos, o JORNAL CIDADE publica O DIÁRIO DE Abílio Wolney, livro do articulista Abilio Wolney Aires Neto, lançado pela editora Kelps (Goiânia-GO.), em 2009
XI – “A AUDIÊNCIA NO INVENTÁRIO ‘O BARULHO’”
Maio, 9 – Quinta-feira. João Corrêa e Oscar estiveram aqui; o primeiro consultando-me sobre o inventário de Vicente Belém e eu fui de parecer que se fizesse a descrição a contento da justiça local para evitar maiores males.
O ano de 1918 marcaria trajetória bem diferente na vida de Abílio Wolney. [140 E o palco seria mesmo São José do Duro, onde, além dos acontecimentos narrados, outras escuras reminiscências permaneciam longe no tempo, como um lastro, remontando à época do inventário de Manoel Ayres Cavalcante, sogro de Sebastião de Brito e do próprio Abílio, quando este opinava pelo arrolamento de todos os bens do finado, surgindo discórdia por parte de Brito, que achava dispensável meter a rol quinquilharias. Todavia, prevaleceu a opinião de Abílio, consoante com os demais sucessores do morto.
Agora, no inventário de Vicente Belém, Sebastião era o Coletor Estadual. Ouvida, a Coletoria deu parecer pelo arrolamento de todos os bens, sem exceção.
O Juiz Municipal determinou que assim o fizesse.
O inventário não vai galopar com a mesma pressa dos cavalos dos matadores do de cujus. O Juiz despacha ordenando que a viúva ponha a rol um par de caçambas de potosi, um burro de arreio e outras coisas inexistentes, reputadas sonegadas no parecer do Coletor, para quem os bens não descritos subtraíam a incidência do imposto em prol da Secretaria de Finanças do Estado.
A viúva Rosa Belém foi intimada para incluir os bens faltosos e ficou sem saber o que fazer diante do despacho do Juiz, pelo que recorreu a Abílio Wolney, pedindo-lhe advogar a causa com o fito de convencer Manoel de Almeida de que a descrição de bens era verdadeira.
Abílio, que já vinha contrariado no alistamento eleitoral e em processos de vários correligionários seus, assume o patrocínio da causa, convicto de que, além de tudo, era mais uma injustiça o que faziam com a viúva, mulher pobre, analfabeta, e passando necessidade desde a morte do marido. Queria os autos do inventário com carga para estudar melhor, nos seus termos, mas o Escrivão Aristóteles Leal disse que o Juiz só autorizava com procuração da viúva.
Segundo o jornalista e escritor Luiz Carlos Bordoni, o tão zeloso Coletor,
Sebastião de Brito, num passado recente, fora daqueles fiscais encarregados de tributar a exportação de gado, mas sempre fazia o jogo dos fazendeiros (O Posto Fiscal do Duro ficava no caminho para Barreiras-BA, por onde passavam as boiadas de outros municípios do norte). Se a manada era de mil, ele registrava 200 cabeças e abria a porteira […].
Abílio, como advogado da viúva de Vicente, tentou resolver o caso do inventário na base da velha amizade, mas Sebastião entregara-se ao caiadismo de corpo e alma […]. [141
Parece que sim. No arrolamento dos bens da viúva de Vicente, Brito mostrava-se um fiscal de rendas rigoroso, o que fazia com que o inventário se arrastasse de modo que as autoridades interessadas pudessem esvaziar o patrimônio da viúva e depois lançarem dúvida sobre a atuação de Abílio, fomentando ainda mais o clima de idiossincrasia.
Diante das pressões e ameaças dos parentes do morto, o Juiz Almeida resolveu marcar para 16 de maio uma audiência, em meio àquele ambiente de ‘disse-que-disse’.
Maria Jovita Leal Wolney havia admoestado o filho para que não intercedesse no inventário de Vicente Belém, sob pena de muito contrariá-la, pois Abílio mesmo estava vendo a situação.
Mataram Vicente Belém em dezembro e já era maio sem a viúva poder vender um bezerro, no aguardo de decisão judicial muito simples, pois o inventário teria um rito de arrolamento sumário por ser diminuto o patrimônio a inventariar – inferior à modesta quantia de 2:000$000 (Dois contos de réis).
E como era de se esperar, o patrocínio de Abílio Wolney gerou ecos que verberaram na capital, com prévios comentários de que o advogado incutia na inventariante a ideia de não pagar o imposto causa mortis, um crime contra o erário, e que Theodolino [142 e Olympio Belém, gente de Abílio e irmão e sobrinho do morto, prometiam vingança contra o Juiz e o Coletor pela morte de Vicente.
Por seu turno, Abílio Wolney, juntamente com o seu pai, havia realizado um encontro com João Rodrigues de Santana, Benedito Pinto de Cerqueira Póvoa, Domingos Francisco Diniz e o cunhado João Batista Leal, homens de São José do Duro, colimando outorgar poderes ao concidadão Casimiro Costa, para rebater as fofocas políticas perpetradas na capital e pioradas por conta do inventário, conforme escreve:
Fevereiro, 22 – Quinta. Encontrei um positivo de Casimiro nos comunicando a resolução de ir a Capital entender com o Governo acerca da nossa situação política; Janjão já havia convidado a compadre João Rodrigues e a Benedito a fim de confirmarmos acerca da resposta a dar. Chegando, notei a falta do compadre Domingos e Janjão mandou convidá-lo. Chegado o compadre Domingos, resolvemos dar ao compadre Casimiro amplos poderes de representação e fizemos por meio de um mandato escrito. Meu Pai propôs que se quotizasse para auxiliá-lo e Janjão subscreveu 200 $s, Benedito 100 $s, João Rodrigues 10 $s, Compadre Domingos 50 $s e meu Pai 300 $s. Candinho remeteu em carta 100 $s. Do Duro mandei Alexandrino passar na Boa Vista, morada de Compadre Domingos, para trazer Candinha e sua companheira Leonor e aqui chegando à noite as encontrei. A Candinha vem ficar em casa da Maria até que eu faça uma casa para ela no Cedro.
Fevereiro, 23 – Sexta. Volto ao Duro, despacha-se o positivo de Casimiro e vou pernoitar no Nogueira. Começamos a tirar caibros e tabocas.
Fato é que estava difícil “entender com o governo acerca da situação política” ambientada no sopé da Serra do Duro. Abílio Wolney sentia a iminência de um conflito pessoal e temia, recorrendo à vã tentativa de composição com a situação. Deliberadamente, as autoridades da Vila preparavam o momento adequado para o enquadramento do ex-Deputado, na forma orquestrada com a oligarquia.
O Duro era tão distante e “fora do mundo” que o ex-Deputado, no recesso do sertão, anotava:
Março, 01 – Sexta. Dizem ter havido eleição para presidente e vice presidente da Rep., Senador e Deputados Federais, votando os eleitores em cartório. Acabamos de tirar mais de 200 caibros de pau Pereira, 10 frechaes e 40 dúzias de taboca, tudo ficou junto e os caibros descascados.
Neste mesmo mês de março de 1918, Casimiro Costa havia partido levando em companhia o seu genro Coquelin Ayres Leal, a fim de entabularem as questões visando a acalmar o ambiente na terra de São José.
Afinal, na Cidade de Goiás, Abílio não deixou só inimigos. Havia gente influente, embora uma minoria de amigos, que poderia interceder por ele.
Casimiro Costa era simpático aos situacionistas, perante os quais gozava de prestígio, mas, ao mesmo tempo, era amigo e correligionário de Abílio.
Chegando à Capital, Casimiro Costa obtém um início de sucesso, fazendo chegar às mãos do presidente do Estado uma carta do Cel. Joaquim Ayres Cavalcante Wolney, que num supremo argumento de pai, dirigia-se ao velho amigo João Alves de Castro, que, num passado próximo havia recebido na capital o seu filho Wolneyzinho. O próprio Des. Alves de Castro daria notícia dessa missiva:
[…]Ainda o ano passado (1918), antes de maio, recebi carta amistosa do coronel Wolney, dela sendo portador o coronel Casimiro Costa. (Jornal do Comércio, Rio, 10.02.1919)
No retorno, Casimiro traria expedientes endereçados pelo Governo às autoridades municipais, embora soubesse de antemão que o Juiz Manoel de Almeida e o Coletor e chefe político Sebastião de Brito, mais cedo ou mais tarde iriam reambientar as questões.
Por seu lado, os familiares de Vicente Belém se preparam para executarem a tiros o Coletor e o Juiz, imputados como mandantes do assassinato. O linchamento é iminente para se dar no largo da Vila. Vai-se fomentando a intervenção, o desforço pessoal. O Cel. Joaquim Wolney chamou João Pedro Belém, Theodolino (“Santo” Belém) e Olympio
Belém aconselhando que não retaliassem, pois seria pior.
Casmiro está na capital e não chega. Aquilo tudo cheirava a pólvora, no rastilho das conspirações. Abílio Wolney matutava, cogitava antes de agir.
Era preciso intervir, mas como? Peitar Manoel de Almeida seria uma solução de força, que supunha necessária, todavia o Governo o cercava dentro da Vila com prepostos nomeados: Juiz, Coletor e Delegado.
Sabia das consequências decorrentes de qualquer ação sua, mas supunha que apenas responderia a um processo criminal por ‘desacato’, caso investisse contra Manoel de Almeida. E pelo crime de Desacato, a pena poderia ser cumprida em liberdade ou, pela quantidade em tese, ficaria alguns dias preso e depois seria solto, melhor que tolerar aquela situação.
Abril, 06, – Sábado. No Duro substituo as linhas apodrecidas da casa velha. Às 5 horas meu Pai parte para o Jardim. Às 2 da tarde sou avisado no Duro da estada aqui do João Belém, Eustáquio e Ernesto. Chego à noite e Wolney segue para o Duro.
Inebriado na psicologia e no ambiente da Vila, Abílio parecia traído em suas próprias forças, parecendo se esquecer de que, ao ter deixado a Capital, sobre a sua fronte pairavam sinistras previsões. E analisava, nos pródromos de uma luta maior, que representaria para o seu espírito o prólogo dos mais dolorosos e mais tristes sofrimentos…
Desde que retornou para São José do Duro, vivia no âmbito daqueles caprichos, arrastando as correntes da sua derrocada política.
Benedito Pinto de Cirqueira Póvoa depôs, adiante, em juízo […]
que Abílio Wolney, lhe falando um dia a propósito dos embaraços que o Juiz Municipal lhe criava, disse que não desejava vir mais a audiências do mesmo Juiz porque estava vendo o desfecho um dia entre eles, pois, nem firma sua o Juiz deixava reconhecer e que João Rodrigues Sant’Anna, seu cunhado, lhe afirmou ser isso verdade porque assistiu; que Abílio Wolney, lhe escrevendo um bilhete a propósito desses fatos, lhe dissera que sabia que a pena de seu crime era de uns meses, que a testemunha não lembra agora, mas que estaria disposto a cumprir mais do que essa pena contanto que isso revertesse em bem da mocidade… [143
No Duro, agora, vivia-se um crepúsculo, ao qual sucederia profunda noite, e, dentro dela, seriam desfechados acontecimentos espantosos.
Manoel de Almeida dava os seus despachos há doze quilômetros da Vila, na sua fazenda Beira d’Água. Se o freguês tivesse pressa, que fosse lá. Vez em quando vinha à Vila fazer audiências e conveniências.
Designada para o dia 16 de maio de 1918, a audiência do inventário de Vicente Belém seria inusitada. Escreve Abílio:
Maio, 15 – Quarta-feira. Comecei a transplantar mudas de café para o novo canteiro e fui ao Duro. Em casa, recebi carta do professor João Corrêa me comunicando não haverem o Coletor e o Juiz aceito a descrição de bens feita por Dona Rosa Belém. Chegando no Duro, junto com o Corrêa nos dirigimos à residência de Dona Rosa e de volta passamos em casa do companheiro Campos e do companheiro Domingos. Pernoitei no Duro.
Maio, 16 – Quinta-feira. Tornei pela manhã à fazenda de Dona Rosa para que a mesma me passasse procuração para tratar do inventário e ali encontrei Theodolino Belém e Olympio Belém. Feita a procuração fiz igualmente o necessário requerimento e voltei acompanhado dos dois Belém.[…]
Abílio Wolney e os Belém se aproximam da Vila. O ponteiro vai saindo do meio-dia, vagaroso, todos ansiosos para chegarem a tempo e hora. O sol límpido de maio tremeluzia no largo, onde a viração do outono era vencida pelo calor. Caiam as flores, caiam as folhas. Vão cair os homens.
O Juiz já havia chegado. Diz Abílio:
[…]Ao entrar na Vila, o Juiz estava nas salas das audiências e como fosse o seu costume negar-me as coisas mais justas e legais, propositalmente, entrei, ligeiramente, e segurei-o exigindo saber se despachava ou não o meu requerimento.
Começa o alvoroço no certame do dia. Na porta da Casa de audiências, três montarias em arreio. Uma delas era de Theodolino Belém, cunhado, e outra do sobrinho afim da viúva, Olympio Belém. Olympio ficou de sentido na porta dos fundos. Estão prontos para matarem seu Manoelzinho, como era conhecido o Juiz Manoel de Almeida. Queriam a homologação do inventário diante da situação da viúva que, para completar, estava doente.
Manoel de Almeida, sem preparo para o cargo, lá estava para o desempenho do seu papel. As coisas estão na direção esperada. Querendo dar alguma solenidade, o juiz inicia a audiência. A palavra está com o advogado da viúva que vai falar sobre a impugnação dos sonegados apresentada pelo Coletor.
Com uma entonação, agora moderada e formal, Abílio começa por ponderar que, sendo a inventariante de maior idade e herdeira universal, passando por necessidade desde o mês de dezembro de 1917, fez a descrição e avaliação dos bens, conforme a lei, em sede de inventário amigável, não havendo falar em sonegados, porquanto não descreveu o burro de montaria do falecido em razão de o animal estar inutilizado, visto ter sido baleado no dia em que assassinaram Vicente.
Quanto aos demais bens exigidos pelo Coletor, cuidavam-se de bagatelas e de outros, que nunca existiram. Todavia, que os metessem a rol, pois a viúva estava disposta a pagar o imposto, contanto que o Juiz homologasse o inventário. Quanto à viúva, não compareceu à audiência porque estava gravemente enferma e acamada, o que ele próprio, Abílio, atestava como médico autorizado.
Nesse ínterim, o Juiz tomou a palavra, interceptando o advogado, e arrematou enfático que tudo faria ‘a muque’, coagido pelos Belém e por ele, Abílio, o que gerou uma alteração de vozes do lado de fora da Casa de Audiências, onde os Belém estavam armados. Manoel de Almeida, que já previa a ocasião, também estava armado e lá fora havia gente sua armada de punhal e revólver [144, algo que, além da ocasião, revelava-se um costume da região.
O Coletor Sebastião de Brito morava ali ao lado. Ouvindo o ‘barulho’, e com o positivo de Voltaire Ayres Cavalcante, aproximou-se portando um revólver e um punhal e já denunciando ter-se deparado com os Belém armados a rifles na entrada da Casa de Audiências.
Para dar maior tônica, disse que “se não lhe deixassem entrar pela porta, entraria pela janela para socorrer Manoel de Almeida”.
Vendo Sebastião pela janela da Casa e ouvindo isso, Abílio disse que precisava dele ali também e veio à porta da rua e deu o braço a Sebastião para entrar. [145
Com aquele ‘barulho’, alguém foi ao Casarão avisar ao Cel. Joaquim Wolney que seu filho estava em questão com Manoel de Almeida, e, então, D. Mariazinha reclamou apavorada que havia advertido o filho para não se envolver no ‘caso Vicente Belém’.
O velho Wolney – que não tinha conhecimento prévio da decisão do filho – cruzou rápido o largo da Vila, atravessando no meio daquele tanto de gente na porta do Cartório e, empunhando uma pistola mauzer, adentrou o recinto da audiência, supondo o filho em apuros.
Entretanto, ao chegar, deparou com a filha Anna Custódia Wolney, que para ali também havia acorrido na companhia da prima Auta Ayres, mulher de Sebastião de Brito, a qual aproximou-se do pai pedindo nada fazer, pois todos ali eram pais de família. Segundo a versão de inimigos políticos dos Wolney, constante de processo judicial, aparentando nervoso, o velho teria bradado com a parabélum [146 na mão, dizendo a Manoel de Almeida:
Outrora fui obrigado a usar esta contra Agenor Cavalcante, “aquele cachorrinho que você mandou me insultar muito tempo” (sic), e agora, se preciso, farei uso dela para defender meu filho de qualquer mal que queiram fazer contra ele. E não vacilo ‘em arrancar os miolos’ do Brito, um sobrinho ingrato e traidor, que por aqui chegou espirrado de Conceição do Norte, apenas com a roupa do corpo, a quem demos moradia e Abílio lhe confiou a Farmácia; ‘um freguês’ que viveu às nossas custas por anos, tendo feito o que fez com uma coitada, na ausência de meu filho! [147

Anna Custódia Wolney Leal, irmã de Abílio Wolney. – Fotos: livro
Diante de todos, o Coletor teria redarguido algo heróico às colocações do Cel. Wolney: “Pois dispara-me ela, estou disposto a morrer com o Almeida […]. Olha, retire-se, o senhor é um homem velho e eu respeito os seus cabelos brancos”. [148
Nesse instante, Abílio Wolney segurou firme no braço de Sebastião de Brito, tomando-lhe o revólver e o punhal, sem maiores dificuldades, enfatizando: “Vamos sem armas! Nada quero senão vê-los obrigados a cumprir os seus deveres legais. Nada mais que isso!”
Ainda, segundo depoimentos de adversários dos Wolney, Mamédio e Theodolino Belém (‘Santo’) [149, estavam justo na porta da casa de audiências, onde o primeiro dizia: “quem está aqui é o Mamédio [150, que não veio fazer sangue e sim despachado de um inventário”. Depois teria dito à mãe do Escrivão Aristóteles, ali muito aflita, que “apenas queria fazer a queixada de arara preta (que era Manoel de Almeida) comer cartuchos sem água porque ele havia mandado matar o seu irmão Vicente Belém e agora queria acabar com os bens da viúva do mesmo. [151
Assentado na cabeceira da mesa, o Juiz Manoel de Almeida bradou e ameaçou tomar providências legais com relação àquele sobrosso no prédio do Cartório, alegando desacato à sua autoridade, daí porque escreveria delatando ao Governo, momento em que dramatizou a situação mostrando a mão direita e dizendo que só não denunciaria se lhe cortassem os dedos. Em seguida, ordenou que o Cel. Joaquim Wolney se retirasse do recinto, prometendo que ele responderia por isso. Mas só a pedido de Abílio e de Anna Custódia o velho disse: “atendido”. E saiu acenando com a cabeça.
Antes de sair, o coronel chasqueou que Almeida e Brito lhe dessem graças, pois foi ele quem desviara os Belém do intento de os matar ali mesmo. [152 E que apressassem a marcha do inventário, pois a trama estava descoberta, e a viúva não seria roubada! De fora, ficou a observar pela janela o que se dava lá dentro.
No auge da confusão, Abílio Wolney dizia que muitas denúncias de seus adversários locais, sem prestígio popular, davam para inutiliza-lo politicamente, aproveitando da situação que lhes era favorável [153, e advogava em alto e bom tom:
– Vocês foram de acordo em matar um grande amigo meu, tanto que Almeida, além de acoitar os assassinos por oito dias, os deu fuga e nunca tratou de processá-los, querendo agora a todo transe proceder à arrecadação dos bens do casal, sendo que a herdeira inventariante fez uma descrição legal; e o que podem me acusar de desacato a um Juiz como você, um sujeito sem nenhum preparo, diante de uma arrecadação ilegal, que representa continuidade de perseguição política?
– É bom lembrá-los que os seus nomes deviam figurar entre os cúmplices do assassinato do inventariado, e agora querem servirem-se da autoridade para prejudicarem a viúva a quem vocês roubaram o marido, seus gatunos! E Isso digo por ter provas que ainda posso fazer em Juízo. [154
– Assassinos, vocês são assassinos e gatunos! [155 E vivem no capricho de me perseguirem, bem como aos ligados a mim!
E pontofinalizou:
– Este inventário só interessa à própria pessoa da viúva, pois o morto não deixou descendentes nem ascendentes vivos. Sendo ela herdeira universal do marido, permite-lhe a lei descrever os bens do casal, cabendo à Coletoria apenas calcular o imposto que ela quer pagar! E ela paga agora mesmo o que vocês quiserem! Esse não é o problema! O que vocês querem mesmo nós já sabemos, mas isso não vai ficar assim!
Na mesma data, Abílio escreveria em seu Diário:
[…] Fiz ver aos senhores Manoel de Almeida e Sebastião de Brito que qualquer mal que promovessem contra nós seriam eles punidos; que respeitávamos o governo, não trocaríamos um só tiro com a força pública, mas eles responderiam por tudo.
O Escrivão Aristóteles José Leal, parente próximo do juiz, soltou a seguinte:
Eu ouvi Abílio Wolney dizer ao juiz: “eu não te disse miserável que um dia nós havíamos de ajustar as nossas contas!” e perguntou-lhe se fazia naquele dia ou não o inventário de Belém, ao que então Almeida respondeu que faria… [156
Sobre o inventário, relembrou Sebastião de Brito ter apontado, dentre outros, como sonegados, “um par de caçambas de potosi, um burro, um tacho de cobre e uma alavanca de ferro”, conforme seu parecer nos autos, datado de 11 de maio de 1918.
Agora opinaria: “Em vista da alegação da viúva, sou de parecer que se aceite a presente descrição”. [157
[…]Desta vez fui atendido, o Coletor, por seu turno, resolveu concordar com a descrição e o inventário ficou feito e julgado às 5 horas da tarde.[…](Abílio Wolney)
Mas antes o Escrivão Aristóteles vai lavrar os Termos nos autos.
O agente de correio Thomé Celestino de Abreu, amigo próximo do Juiz Almeida e do Coletor Sebastião, ao se aproximar, gerou suspeita.
Um bom motivo para dizerem que Theodolino (“Santo” Belém), cunhado da viúva, mandou ficasse ele de pé do lado de fora, exposto ao sol e debaixo de ordem, até o final da audiência.
Noutra versão, constante de processo judicial, Thomé Celestino teria mesmo era ficado assentado na porta da Casa de Audiências e Auta Ayres, esposa do Coletor Brito, a lhe oferecer café.
Antônio Martins Resende, também gente de Almeida, teria sido afastado da porta dos fundos, sob a suspeita de estar armado.
No largo da Vila, os poucos residentes foram logo para ver do que se tratava aquele ‘barulho’, daí a expressão que ficou na história, até porque as alterações de tal natureza no sertão eram mesmo conhecidas como ‘barulho’.
E para ali acorreram também o Major Cândido Nepomuceno de Souza, João Correia de Mello, o menor Oscar Wolney, José Anízio Costa, Olympio Belém, Igyno, Firmino, Fructuoso, Domingos Alves, José Roxo, que eram do grupo político de Abílio Wolney. Outros como João Baptista Leal e o Dr. Abílio Faria, o primeiro cunhado e o segundo genro de Abílio Wolney, também foram estar na porta da Casa de Audiências, sem armas e deixando claro que se faziam presentes para evitar qualquer desenlace fatal.
Segundo depoimentos de pessoas ligadas ao grupo de Sebastião de Brito e Manoel de Almeida, estariam armados João Correia de Mello, José Anízio, um camarada de Cândido Nepomuceno de Souza e Domingos Alves dos Santos, surgidos durante o transcurso do dia, os quais, segundo eles, teriam se somado aos Belém, sob o argumento de estarem ali para, caso necessário, defenderem os Wolneys.
Às 5 horas da tarde realmente terminava a audiência, recolhido o imposto causa mortis e concluído o inventário, hoje equivalente ao rito do arrolamento sumário. Finalizado o certame, Abílio dizia levar os autos com carga porque no seu requerimento constante deles havia pedido a juntada de procuração e vista do processo. Depois que, homologado pelo juiz, o caderno do inventário passava a ser um documento pertencente ao dono da herança, nos casos de inventário de pequena alçada, conforme a legislação da época. [158
O boato corre ligeiro, em comentários de toda ordem.
Houve quem dissesse ter Abílio Wolney batido com o coice da carabina na mesa do Juiz Municipal, ordenando-lhe concluísse o inventário. Todavia, não há notícia desse fato em nenhum dos quase vinte depoimentos coligidos no caderno do processo judicial, recém-encontrado, presidido pelo Juiz de Direito Celso Calmon Nogueira da Gama. [159 E a grande maioria das testemunhas ouvidas eram inimigas dos Wolneys, a propósito do magistrado togado.
A respeito, escreve Abílio Wolney em seu Diário:
(Maio, 16)-[…]Meus parentes e amigos foram ao meu socorro e não (houve) fatos delituosos.
Outras testemunhas afirmariam em depoimentos judiciais (no processo da Justiça Federal, em 1922), não ter havido armas da parte de Abílio. Tampouco “ofensas físicas ou lutas corporais; apenas forte altercação de parte a parte e que ao retirar-se o Cel. Abílio, ficaram na casa da audiência o Juiz com seu escrivão e mais pessoas a eles interessadas como Thomé Celestino e outros, sem coação”. Tal assertiva realça a versão de Abílio Wolney, segundo o qual o desforço contra o Juiz se deu ‘ligeiramente’, ‘a muque’, ‘sem ferros ou armas’, no momento em que este estava a sós na casa de audiências, antes de iniciada. [160
Ouvida novamente, a viúva tratou do ocorrido repetindo que
[…] ferramentas velhas, quase sem valor, eram vindicadas pela justiça local, e mesmo depois de descritas, o Coletor continuou a alegar sonegados, pelo que ela informante mandou chamar um seu cunhado, para representá-la no processo do inventário e não tendo esse chegado até a manhã do dia 16 de maio, para o qual fora intimada, a fim de assistir a arrecadação dos seus bens, constituiu seu procurador o Sr. Abílio Wolney, advogado residente nesta Vila, que imediatamente dirigiu-se da sua fazenda para essa Vila, acompanhado de seu cunhado Santos Belém e Olympio Belém [161, que ali chegaram inesperadamente e receosos de que o seu procurador fosse, como seu marido, vítima de uma cilada, acompanharam-no. [162
Caía a tarde. Ao crepúsculo, Manoel de Almeida retornou para sua casa na fazenda Beira d’Água. “O Coletor e o funcionário do Correio Thomé demoraram-se ainda por mais de uma semana na Vila, folgadamente”.
Abílio retornou à fazenda Buracão, onde de há muito estava morando com o pai. Mais tarde, narraria o fato, dando a sua versão, em carta ao Senador Gonzaga Jayme, publicada a 27.09.1918, no Rio Jornal, editado na cidade do Rio de Janeiro, in verbis:
Compareci na audiência de 16 de maio para ver se defendia a viúva de um amigo, Vicente Belém, assassinado traiçoeiramente a mandado deles, tanto que os assassinos
muito conhecidos não têm processo. Queriam no inventário deixar a viúva limpa; opus-me e como o Juiz estivesse armado me aproximei dele para poder me defender.
Neste entrementes entrou o Coletor armado de revólver e punhal: quando o vi assim, em um lance arranquei o revólver da cinta do Juiz e peguei o braço direito do Coletor o qual, reconhecendo minha superioridade em força, ficou quieto. Passado esse incidente, continuaram o inventário até a conclusão. Não depus ninguém: depois desse incidente tiveram eles aqui 16 dias, retirando-se quando José Hermano arquitetou o plano de pedir força e criar a monstruosidade conhecida. Conceição, 09 de Junho de 1918.
Em carta ao seu primo Coquelin Ayres Leal, escrita no Buracão em 6 de junho de 1918, Abílio Wolney realça a sua versão:
Estava a enformar rapaduras ontem quando tive a alvissareira notícia da estada de Casimiro na Vila. Com essa notícia, o Jayme, seu portador, entregou-me a tua de 30 de maio que devorei.
Corri ao Duro cheio de prazer por vê-los restituídos ao seio da família sem desconsiderações.
Estive com Casimiro, conversamos até as 7 da noite e ele narrou-me tudo o que viu e ouviu. Completei o que ele viu e não compreendeu.
Homem sincero e não afeito às hipocrisias da época, ele não podia compreender tudo o que viu e ouviu.
Estou satisfeito; agora ele viu.
Fazem dez anos que suporto perseguições e insultos para ver se dessa tolerância nos resultaria a compaixão dos perseguidores vendo seus desejos saciados, mas tudo foi debalde: o que fazíamos por tolerância e amor à paz e tranquilidade geral era tomado por covardia, desfibramento, falta de meios de reação, medo, enfim.
Quando vi que estávamos às bordas do abismo insondável da descrença de todos e vi que eram preferíveis as consequências da reação, reagi.
Reagi sem empunhar ferro, usei do muque moderado, sem um bofetão sequer, peguei os gajos com a mão e eles viram que não valia a pena estrebuchar, aquietaram.
Não pratiquei um ato irrefletido; não tenho dele o menor arrependimento, não acho que fiz de menos nem de mais.
Posso ter errado: se errei, só o tempo o poderá dizer, antes porém desse pronunciamento não me convencerei.
Não comuniquei minha resolução a ninguém para não ter cúmplices; a empresa estava nas minhas forças.
Aqueles que levarem a tolerância e amor à vida ao ponto de permitir verem-se despojados dos bens, da honra e até da vida, que reprovem meu procedimento.
Casas de Candinho [163 foram ao prego, Janjão [164 pagou exportação que não devia, a vida de meu pai foi posta em almoeda, o camarada de Zezinho [165 e Vicente [166 pagaram com a vida sua dedicação a nós. Não satisfeitos de terem roubado a vida de Vicente, queriam limpar a viúva!
Coquelin, meu querido amigo, se eu consentisse nem os meus deviam confiar mais em mim, nem crer em mim.
A nossa tolerância tem sido excessiva, tem autorizado a audácia do inimigo – embarguei.
Para sustentar os embargos, não desejo incomodar os mais velhos; contigo, os mais moços e amigos de porte, sustentaremos.
Muitos olhos, muitos ouvidos, pouca boca: prudência e resolução pronta. Nem aí nem aqui devemos agüentar mais um insulto.
Respeitamos muito dentro da lei e dos bons costumes, mas do nosso direito não cederemos uma linha.
Tu já és pai de família, tens preparo e traquejo da vida, tens ponderação, prudência e coragem, portanto, enquanto andarem pelas regiões da diplomacia, vá com os velhos, mas o dia que precisar reagir, tome a frente e me avise.
Nada de abismar-se e muito menos de acovardar-se.
O mundo é dos fortes, dentro da razão.
Um abraço efusivo do teu amigo sempre.
Em depoimento judicial posterior, no ano de 1923, Abílio Wolney diria ainda que […]
confirmava tudo quanto havia dito quando foram inquiridas a testemunha Felismina e a informante D. Rosa, cujo resumo é que a discussão havida com o Juiz Manoel José d’Almeida e Coletor Sebastião teve por base o assassínio de seu amigo Vicente Belém por eles mandado executar, tanto que nunca trataram de processo contra os mandatários José Nunes Vianna e Antonio Nunes Vianna. Disse e declarava que ainda pode provar hoje de modo insofismável tudo quanto tem afirmado. [167
Ouvido em Inquérito Policial de 1918, Josino de Abreu Valente disse lhe parecer que “os fatos ocorridos em maio já tinham sua procedência de inimizade política”. [168
Voltemos.
Complicavam-se na capital os contatos pacificadores de Casimiro Costa.
O Juiz e o Coletor, ajudados por José Hermano, Escrivão da Coletoria, rompiam noite adentro lavrando a denúncia ao Presidente do Estado e ao Secretário de Finanças, [169 dando cores próprias ao ocorrido, onde terminaram pedindo fossem-lhes asseguradas condições para o desempenho das suas funções, embora Abílio Wolney houvesse deixado claro que só queria o andamento do inventário que, embora a muque, estava resolvido.
Acabado o ‘Barulho’, Sebastião de Brito e José Hermano bolam uma retirada da Vila para criar uma situação mais grave.
Incumbiram José Hermano de ir ao Rio de Janeiro reforçar junto aos representantes federais do Estado os pedidos de garantias ulteriormente feitos em ofício enviado via Barreiras (BA).
As coisas não podem se arrefecerem. No dia 20 de maio de 1918 Sebastião de Brito vai com Manoel de Almeida até Natividade, entregando ao juiz de direito da comarca as denúncias para serem repassadas ao Presidente do Estado, não antes de confabularem com o intendente Deocleciano Nunes, ex-senador estadual e situacionista, o que adiante vai aparecer no circuito.
Na laboriosa denúncia, o Coletor Sebastião de Brito formalizava o pedido de providências ao presidente, Des. João Alves de Castro, como se fazia necessário, recomendado. Ao concluir, dizia estar
[…] esperando ser tomada na devida consideração essa afronta que os mais altos poderes do Departamento de Estado sofreram representados na minha humilde pessoa como empregado que se tem esforçado no cumprimento dos deveres que lhes foram confiados, e como um simples soldado que com disciplina e lealdade tem sabido defender a bandeira do glorioso Partido Democrata, apelo para os sentimentos de justiça que sempre presidiram os atos de V.Exª. É escusado ponderar a V.Exª que deve haver a mais rigorosa escolha, da preferência, na escolha das autoridades e até praças que forem determinados para apurarem as responsabilidades dos culpados aqui. [170
O Delegado Joaquim Martins Rezende, que morava na fazenda Vazante, há 30 quilômetros, e só vinha à Vila em situações extremas, também encaminhou denúncia à Capital, conforme haviam orquestrado.
Telegrafaram de Barreiras para Goiás Velho e para o Rio de Janeiro, onde estava o Cel. Eugênio Jardim, o Senador da República, cunhado de Totó Caiado, solicitando-lhe providenciasse a nomeação urgente de um Juiz togado, para apurar um assalto ao Cartório. Avisado de tudo, o Dep. Totó Caiado fez gestões junto ao outro cunhado, Des. João Alves de Castro, Presidente do Estado, para a imediata nomeação de uma Comissão de Inquérito. [171
Sebastião de Brito e Manoel de Almeida estão recolhidos na fazenda Beira d’Água, deste último. Por vários dias, mantêm gente armada, forjando a iminência de sofrerem ataques, e assim requestando defesa.
Sobre aqueles acontecimentos, o então Chefe de Estado-Maior do Exército, Major Álvaro Guilherme Mariante, também relatou, em 1919, ao Ministério da Guerra o seguinte:
A pressão local contra Abílio Wolney havia chegado a tal ponto que a ele, Wolney, e seus amigos era recusado o direito de ligar suas filhas pelos laços do matrimônio. A filha de Abílio está ainda hoje casada apenas na igreja, pois o Juiz distrital, a conselho dos chefes políticos locais, recusa-se a fazer o casamento civil (número treze, página duzentos e trinta e seis). E o mesmo fato se observa com outra moça da vila, filha de um seu amigo. E nem assim a atitude hostil de seus inimigos consegue demovê-lo do propósito de fugir à luta partidária e deslocar-se exclusivamente à lavoura, esperando ser esquecido por seus adversários (número catorze, página quarenta e sete).
Chegou, porém, um momento em que a calma do homem ponderado e refletido sentiu-se profundamente abalada.
A vinte e nove de janeiro de mil novecentos e dezoito era assassinado o pequeno comerciante Vicente Belém, amigo da família Wolney. Diz-se que o móvel do crime foi o roubo e que um dos assassinos, Jose Nunes Viana, dirigiu-se à fazendo do Juiz Municipal Manoel de Almeida, chefe da facção política situacionista, expôs-lhe o ocorrido e, em lugar de ser preso por aquela autoridade, recebe dela um guia que o conduz para a cidade de Palma (número quinze, página quarenta e nove). E, como era de esperar, os criminosos ficaram impunes (número dezesseis, página quarenta e nove). A viúva, Dona Rosa Ribeiro Belém, procede a inventário dos bens deixados por seu marido. Entretanto as autoridades locais, Coletor Sebastião de Brito e Escrivão Aristóteles Leal, criam-lhe embaraços e declaram-lhe positivamente que haviam de persegui-la e arrebatar-lhe os bens por ter sido seu marido amigo da família Wolney.
Urgia, pois, que Abílio tomasse a peito a causa da viúva de seu falecido amigo. E foi o que fez conseguindo uma procuração para proceder ao inventário (número dezesseis,
página quarenta e nove). Não era mais possível recorrer aos meios legais pois as autoridades fugiam ao cumprimento dos mais rudimentares deveres, como ficou já demonstrado. A Abílio Wolney restava um único e extremo recurso, a violência. E foi a arma de que lançou mão. Estava assim atingido o desideratum de seus inimigos. O Juiz Municipal Manoel de Almeida e o Coletor Sebastião de Brito, especialmente este,
não aceitavam a descrição de bens apresentada pela viúva e por seu procurador Abílio Wolney.
A este afigurava-se que o intuito das autoridades era despojar sua protegida do pequeno pecúlio que lhe deixara o marido e isto tão somente por ter sido Belém seu amigo. Arrastado por essa atitude de seus inimigos, Abílio Wolney no dia dezesseis de maio de mil novecentos e dezoito, munido de procuração que lhe passara a viúva Belém e acompanhado de parentes dela, apresenta-se na sala de audiências do Juiz Municipal Manoel José de Almeida. Não era, sem dúvida, pacífica a sua atitude. Ia praticar atos de violência contra as autoridades locais e da responsabilidade que lhe adviria desse modo de proceder, não fugiria, nem fugiu, como mais adiante se há de verificar.
Os tópicos de documentos designados pelos números dezoito, dezenove, vinte e vinte e um, uns favoráveis a Abílio; outros desfavoráveis na descrição que nos foi feita por diversas pessoas, permitem reconstituir com bastante fidelidade o que então se passou. Abílio Wolney, armado e acompanhado de capangas parentes da viúva Belém, comparece à residência do Juiz Almeida e intima-o a dar despacho a requerimentos que haviam sido apresentados e a julgar o inventário nas condições por ele desejadas. O Juiz, embora estivesse também armado, sente-se sem forças para reagir, e, com o escrivão resolvem ceder as imposições de Abílio. Nesse ínterim, avisado do que se passava em casa de seu amigo Almeida, corre a ela o Coletor Sebastião de Brito, também armado e disposto a proceder com violência. Abílio trava-lhe o braço e subjuga-o.
À mesma casa chegam também outras pessoas amigas de Abílio, entre elas seu pai Cavalcante Wolney. Trava-se então forte discussão entre os presentes, arrancam-se revólveres, trocam-se ameaças violentas. E o incidente termina com a vitória de Abílio e seus amigos, mais numerosos e mais enérgicos.
Segue-se então longa série de combinações que unem os inimigos da família Wolney. Adversários da véspera dão-se as mãos na campanha de aniquilamento de Abílio, de seu pai e de seus parentes e amigos. Às autoridades desacatadas juntam-se pessoas estranhas ao incidente, e, entre elas, como mentor intelectual, surge a figura de José Hermano, indivíduo intrigante e falso e por isso, mal conceituado na região. A conselho deste o desacato toma forma de deposição das autoridades. Estas dizem-se depostas e abandonam seus cargos (número vinte e dois, página quarenta e nove).
E assim, pintando a negras cores, o incidente é comunicado aos políticos situacionistas em telegrama urdido com o mais flagrante maquiavelismo. Uma carta de José Hermano a Sebastião de Brito (número vinte e três, páginas sessenta e nove e setenta e um) é o documento mais cabal da perfídia com que agiam os inimigos de Abílio sob a inspiração
de Hermano. Nela se lê o telegrama em que o incidente, adulterado e exagerado é narrado nos seguintes termos ao Senador Eugênio Jardim:
Duro, dezessete, cinco, novecentos e dezoito. Coronel Eugênio Jardim. Senado Federal Rio. Hoje Abílio Wolney gritando ter deixado a enxada pela carabina invadiu esta vila hora audiência juízo municipal acompanhado turma bandidos nos fez prisioneiros obrigando-nos praticar atos ilegais prejudiciais ao Estado apontando nossas cabeças armas embaladas roubou autos prometeu nos assassinar caso protestarmos continua aumentando grupo malfeitores anular qualquer ação justiça. População alarmada pedimos enérgicas providências garantir autoridades agredidas e ameaçadas. F… Juiz Municipal. F… Tabelião ad-hoc. F… Coletor Estadual.
Preparada assim a farsa, não tardam a unir-se aos sertanejos inimigos da família Wolney os adversários que Abílio adquirira em sua vida política (número vinte e quatro, página setenta e três) e o próprio Governo do Estado. Um emissário enviado à capital do Estado não logra ser atendido pelo governo (número vinte e cinco, página cinquenta e um) e Abílio Wolney, seu pai e outras pessoas envolvidas no incidente ocorrido na sala de audiências do Juiz Almeida vão ser processados. [172
No mesmo mês de maio de 1918, dias após o ‘Barulho’, Abílio Wolney parece acreditar que o incidente seria contornado, buscando dialogar com o primo e Coletor Sebastião de Brito na tentativa de convencê-lo a não se retirar do seu posto. É o que deflui desta página do Diário:
Maio, 18 – Sábado. Meu Pai, tendo passado madrugada para o Açude, voltou à hora do almoço e almoçou conosco.
Joaquim e José de Cerqueira, tendo sabido do que ocorreu no Duro, foram ali e passaram por aqui. À tarde, aqui esteve o professor João Correa, também Norberto Gonçalves e José
de Sousa. Mais tarde chegaram Wolney e José Anísio.
Maio, 19 – Domingo. Pela manhã Wolney com a Constantina, Miretta e Alzira seguem para o Duro para reunirem-se ali com Anna Custodia e minhas filhas, e irem para a festa do compadre João Rodrigues. Às 4 e 1/2 chega aqui o Sr. Benedito Araújo, primo de Abílio Araújo e insiste comigo para ir com ele à festa do companheiro João Rodrigues, ao que acudo e vamos.
Dali voltamos as 2 da manhã com a Constantina; Miretta e Alzira voltaram com Wolney para o Duro.
Maio, 23 – Quinta-feira. Deixei o pessoal continuando a tirada de madeiras e coivaras e fui visitar Josino Valente e Benedito Pinto; em casa de Josino estavam Confúcio e Sebastião. Desse passeio voltei para o Duro onde pernoitei e soube do propósito do Coletor de retirar-se e fechar a repartição; para evitar o grande prejuízo que essa medida acarretaria, por intermédio de Janjão perante Francellino e Confúcio consegui que ele prometesse não fazê-lo.
Maio, 24 – Sexta-feira. Ontem chegou um positivo de Boa-Sorte com a notícia da morte do Sr. Joaquim Américo, vítima de um tiro, após ter assassinado uma mulher.
Demorando no Duro, ali chegaram às 11 horas João Belém, Ernesto, um filho do João, Pedro Guará e mais um outro; vieram em socorro de D. Rosa, que estava a ser limpa pela justiça; mal que atalhei em tempo. Ali estive com eles até 5 horas, e eles voltaram à Pedra-Grande e eu parei aqui.
Maio, 26 – Domingo. Passo o dia aqui fazendo diversos serviços. À tarde, Messias veio me dizer a mandado de Benedito Pinto que o Juiz havia renunciado o cargo, por isso não passava o expediente a outro. Jayme, Wolney Netto e Zuquinha vieram passear aqui.
Maio, 30 – Quinta-feira. Fui ao Duro e de volta passei em casa do Coronel Francellino com quem conversei acerca dos fatos de 16 deste e dispensa dele do cargo de escrivão interino. (destacou-se)

Sebastião de Brito Guimarães, primo e concunhado de Abílio Wolney. Coletor Estadual protegido do Cel. Eugênio Jardim, cunhado de Totó Caiado (Foto do livro Crônicas de Outros Tempos, de Osvaldo Póvoa, exposta no Museu Municipal de Dianópolis).

O Juiz Municipal Manoel de Almeida.
[140 No livro O Barulho e os Mártires, o autor faz reproduzir a íntegra das peças do processo judicial iniciado com a Comissão do juiz togado, Celso Calmon – depois anulado pelo Tribunal de Goiás e encerrado na Justiça Federal, com recurso para os Tribunais Superiores.
[141 (Jornal Opção, de 3 a 9 de novembro de 1996, pág A-13). Parênteses inserido pelo autor.
[142 Theodolino ou o velho Santo Belém, como era conhecido.
[143 Depoimento constante dos autos do Inquérito Policial presidido pelo juiz togado Celso Calmon.
[144 Depoimento do novo Juiz Municipal em Juízo, José Francisco de Campos.
[145 Depoimento de Felismina em Juízo.
[146 Certa pistola automática de procedência alemã.
[147 Paráfrase de depoimentos no processo judicial de 1918/19, copiado para o arquivo do autor.
[148 Depoimento testemunhal em lnquérito Policial de 1918/19.
[149 Segundo me informou Raul de França Belém (sobrinho-neto de Vicente Belém), Santos Belém na verdade era o próprio Theodolino Belém, que tinha o apelido de “Santo Belém” ou “Velho Santo” e era irmão de Vicente.
[150 Mamédio seria outro irmão de Vicente Belém. Ao que tudo indica, Santos Belém (ou Theodolino Belém) fazia referência ao irmão para reforçar a sua atuação, parecendo que Mamédio também estivesse ali, mas as testemunhas não confirmam a presença deste último naquele momento.
[151 Depoimento constante do Inquérito Policial presidido pelo Juiz Celso Calmon em 1918/19.
[152 Fragmentos do depoimento de José Francisco de Campos em Inquérito Policial. A tradição oral que chegou até nós dá conta de que a viúva D. Rosa e os Belém teriam mandado vingar a morte de Vicente Belém, como era de praxe naquela época, sob pena de desonra perante a opinião pública. Zuca Viana e o irmão, foragidos, teriam sido procurados por mais de um ano.
[153 Paráfrase de depoimento de Abílio Wolney nos autos do processo da Justiça Federal em 1922.
[154 Texto quase idêntico às palavras ditas por Abílio Wolney no seu interrogatório em Carta Precatória da Justiça Federal no ano de 1922 (Veja no livro O Barulho e os Mártires, do autor, onde estão transcritas as peças do inventário de Vicente Belém e do processo da Justiça Federal.
[155 Tirado do depoimento de José Francisco de Campos em Juízo, no dia 17.05.22.
[156 Depoimento do Escrivão de Órfãos do Duro, Aristóteles José Leal, no Inquérito Policial presidido por Celso Calmon em 1918/19.
[157 Transcrição do último parecer do Coletor Sebastião de Brito nos autos do Inventário em 1918.
[158 Requerimento e despacho constantes de fls. 76 (82) dos autos do Inventário de Vicente Belém em 1918.
[159 Inquérito Policial e Processo presididos pelo Juiz Celso Calmon Nogueira da Gama em 1918/19, que vão reproduzidos ipsis litteris em nosso livro O Barulho e os Mártires.
[160 Depoimento nos autos do processo da Justiça Federal, em 1922.
[161 Olympio Belém era sobrinho de Santos ou “Santo” Belém (Theodolino).
[162 Depoimento de Rosa Belém em juízo no ano de 1922.
[163 Cândido Nepomuceno de Sousa era cunhado de Abílio Wolney.
[164 João Batista Leal, também cunhado de Abílio Wolney.
[165 Segundo o Prof. Osvaldo Póvoa, obra citada, era um baiano de nome João, assassinado em Conceição do Norte por Leopoldo Hermano, com um tiro de carabina. Ato contínuo, Leopoldo tentou assassinar Zezinho, desfechando contra ele, que estava na porta de sua casa, também um tiro, tendo errado o alvo.
[166 Vicente Pedro Belém, assassinado por adversários políticos do Cel. Abílio, cujo inventário foi o estopim das lutas que se desenrolariam em São José do Duro.
[167 Interrogatório de Abílio Wolney no processo da Justiça Federal, 1923.
[168 Depoimento de Josino de Abreu Valente no Inquérito Policial em 1918.
[169 O Secretário de finanças era o Cel. Olegário Rodrigues Delfino, da oligarquia, que foi comunicado por
[170 Cópia da original em poder do autor.
[171 Totó ajuda a eleger o cunhado, Des. João Alves de Castro, casado com Theresinha de Ramos Caiado, para novo presidente de Goiás, governando de 1917 a 1921. João Alves de Castro outrora foi amigo de Abílio, mas, primeiramente, acima de tudo e abaixo de Deus, era casado com a irmã de Caiado. Em 1918, Leopoldo de Bulhões perde a senatoria para Hermenegildo Lopes e, com a morte do coronel Francisco Leopoldo Rodrigues Jardim, em março de 1920, a oposição e o Partido Republicano em Goiás são sepultados com ele. Sai um cunhado de Totó e entra outro cunhado na presidência do Estado. Eugênio Jardim (como dito era casado com Diva Caiado, irmã de Totó e viúva de Ovídio Abrantes, filho de Braz Abrantes) substituirá João Alves de Castro, cujos irmãos Joviano, Agenor e Abílio também são casados com irmãs de Totó e vão estar presentes na representação federal.
[172 O Duro e a Intervenção Federal – Relatório ao Ministro da Guerra, idem
[Continua na próxima postagem quinzenal, com a publicação do Capítulo XII
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