OPINIÃO

DIVERSOS

‘Cartas de Screwtape aos terrivelmente religiosos’ – Ivania Carozo [Artigo

Uma crônica sobre fé, política e o perigo de se achar melhor do que o próximo.

Ivania Carozo

 

Moro numa cidade interiorana. Dessas em que as pessoas se conhecem pelo nome, sabem quem frequenta qual igreja, quem comunga aos domingos, quem levanta as mãos durante o louvor e quem, na época das eleições, escolhe o candidato ungido por alguma autoridade religiosa. Aqui, a política entra nas conversas da calçada, atravessa os almoços de família e, às vezes, chega ao altar vestida de verdade absoluta.

Sou católica há muitos anos, aliás desde que nasci. Aprendi na Igreja a amar o próximo, a cultivar a fé e a esperança, a buscar as virtudes cristãs e a reconhecer nos mandamentos um caminho para a vida. Aprendi a amar Maria. E como amo essa mulher! Vejo nela a mãe, a mulher de fé, a coragem silenciosa e a humildade de quem não precisa humilhar ninguém para demonstrar a grandeza que carrega.

Se consegui aprender tudo isso perfeitamente? Claro que não. Sou humana, cheia de contradições e ainda em construção. Há uma virtude, porém, que parece ter escapado às minhas aulas de catequese: a obediência sem perguntas. Confesso que obedeço, porém, antes, questiono. Quero entender. Preciso pensar. Não consigo entregar minha consciência a alguém só porque essa pessoa usa uma veste religiosa, segura um microfone ou fala em nome de Deus.

Talvez seja por isso que a leitura de Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, de C. S. Lewis, tenha me deixado tão inquieta.

Na obra em questão, Screwtape ensina ao sobrinho como afastar os seres humanos do bem. E o diabo, convenhamos, não precisa necessariamente convencer alguém a abandonar a igreja, rasgar a Bíblia ou renegar a fé. Às vezes, basta uma estratégia bem mais eficiente: fazê-lo acreditar que é melhor do que os outros justamente porque frequenta a igreja, conhece as Escrituras e tem certeza de estar do lado de Deus.

Após a leitura, comecei a olhar com outros olhos para certas homilias, para alguns discursos religiosos e para o comportamento de ministros e lideranças cristãs, tanto católicas quanto evangélicas. Não de todos, evidentemente. Há pessoas que fazem da fé um gesto diário de acolhimento, serviço e amor. Contudo, há também quem pareça ter confundido o púlpito com um palanque e a homilia com um comício.

Em tempos eleitorais, a coisa fica ainda mais interessante. O candidato defendido por determinada autoridade religiosa ganha ares de homem escolhido pelo céu. O adversário, por sua vez, parece ter sido despachado diretamente para as profundezas do inferno. E ai de quem ousar discordar! De repente, não se discute mais uma proposta política, uma ideia ou um projeto de governo. Discute-se a moral de quem pensa diferente, como se a preferência eleitoral fosse um sacramento e o voto uma prova definitiva de santidade.

Na minha cidade, como em tantas outras, há conservadores de boa-fé, pessoas honestas que encontram na tradição um porto seguro. Respeito isso. O que me inquieta é quando a conservação dos costumes se transforma em licença para a intolerância, quando a defesa da família serve de desculpa para desprezar famílias diferentes, quando o amor a Deus parece diminuir na mesma proporção em que cresce a aversão ao próximo.

Nesse contexto, me fez lembrar da parábola do fariseu e do publicano. Todos já ouviram em alguma igreja a narrativa belíssima: um homem vai ao templo e, em sua oração, enumera as próprias virtudes. Agradece por não ser como os outros: pecadores, injustos, gente que não está à sua altura. O outro sequer ousa erguer os olhos. Reconhece suas falhas e pede misericórdia. Jesus, para escândalo dos que gostam de distribuir certificados de santidade, diz que foi o segundo quem voltou para casa justificado.

O fariseu não foi condenado por cumprir os mandamentos. O problema foi transformar sua religiosidade em pedestal e a oração em instrumento de comparação. Já o publicano não apresentou currículo, não exibiu méritos, não pediu que Deus punisse seus adversários. Pediu misericórdia.

Penso nisso quando ouço sermões que parecem mais preocupados em condenar quem está do lado de fora do que em examinar o que acontece dentro da própria casa. Raciocinar a respeito de alguém que usa a autoridade religiosa para dizer em quem o rebanho deve votar e, de quebra, insinua que os dissidentes estão do lado errado de Deus.

Imagino Screwtape satisfeito, escrevendo mais uma carta ao aprendiz:

“Meu caro, não se preocupe em afastá-los da igreja. Deixe que continuem frequentando as Missas e cultos, participando dos cultos, cantando hinos e repetindo versículos. O importante é que passem a acreditar que a fé deles os torna superiores. Ensine-os a desconfiar dos que pensam diferente, a chamar arrogância de convicção e intolerância de defesa dos valores cristãos. Se possível, faça com que confundam a voz do líder com a voz de Deus. Assim, não precisarão mais examinar a própria consciência: bastará condenar a consciência alheia”.

É claro que essa carta é minha, imaginada à sombra da obra de Lewis. Todavia, depois de escrevê-la mentalmente, veio uma pergunta que não me deixou em paz. E eu?

Eu, que critico os sermões partidários nos púlpitos, que me indigno com a arrogância religiosa, que me declaro oposição ao candidato bonzinho defendido pelo bispo, que não aceito ver o Evangelho transformado em propaganda eleitoral… Será que também estou construindo meu próprio pedestal?

Será que, ao chamar os outros de fariseus, corro o risco de me tornar uma versão diferente do mesmo personagem? Será que minha indignação, ainda que tenha motivos legítimos, pode se transformar em vaidade moral? Afinal, é muito fácil perceber a soberba no discurso alheio. Difícil é reconhecer quando ela começa a florescer dentro de nós, disfarçada de coragem, lucidez ou defesa da verdade.

Não quero abandonar minhas convicções para parecer humilde. Tampouco acredito que humildade seja concordar com tudo, baixar a cabeça diante de abusos ou aceitar que alguém use Deus para controlar a consciência dos outros. Jesus também confrontou a hipocrisia. Questionar não é necessariamente faltar com respeito, assim como obedecer não é sempre sinal de virtude.

Contudo, há uma diferença entre combater uma ideia e desumanizar quem a defende. Entre denunciar uma contradição e imaginar que, por enxergá-la, nos tornamos moralmente superiores. A crítica precisa de coragem, sim, mas também precisa de vigilância. Caso contrário, a gente troca apenas o uniforme: continua fazendo a mesma guerra, com a certeza de que Deus está exclusivamente do nosso lado.

Continuo amando Maria, tentando aprender com sua fé, sua força e sua humildade. Não sei se aprendi a obedecer sem questionar. Talvez nem queira aprender dessa maneira. O que desejo é não perder a capacidade de me questionar, inclusive quando estou convencida de ter razão.

Porque talvez o verdadeiro perigo não esteja em fazer perguntas, discordar de um bispo ou votar contra o candidato recomendado no púlpito. Quiçá esteja em acreditar que nossas escolhas nos tornam automaticamente melhores do que aqueles que escolhem diferente.

Repare, se Screwtape estiver escrevendo cartas para todos nós? Para os que condenam em nome da direita e para os que condenam em nome da esquerda; para os que confundem fé com obediência cega e para os que confundem lucidez com superioridade?

Talvez sua obra-prima seja esta: fazer com que cada um reconheça o fariseu no adversário, mas nunca no próprio espelho. Por isso, antes de apontar o dedo para o púlpito, quero olhar para dentro de mim. Não para silenciar minha voz, mas para impedir que ela se transforme naquilo que tanto critico.

Afinal, não quero ser aprendiz de Screwtape. Quero continuar aprendiz de Cristo mesmo que, no caminho, eu ainda tropece nas minhas certezas, faça perguntas inconvenientes e precise pedir perdão por me achar dona de alguma verdade.

E, se um dia eu me ajoelhar para rezar, que eu não precise enumerar as minhas virtudes nem apresentar a lista dos defeitos alheios. Que eu consiga apenas dizer, com a sinceridade do publicano:

“Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecadora”.

 

Ivania Carozo, nascida no ano de 1975, em Niquelândia (Goiás), desde cedo demonstrou sensibilidade social e espírito comunitário. Professora, atualmente, integra o corpo docente do Centro de Ensino em Período Integral (Cepi) Polivalente Dr. Sebastião Gonçalves de Almeida, onde continua semeando conhecimento, afeto, criatividade e esperança. É graduada em Letras pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), com pós-graduação em Língua Portuguesa pela Universidade Salgado de Oliveira (Universo) e em História da Cultura Afro-brasileira e Relações Étnico-Raciais pela Universidade Federal de Goiás (UFG). É mestra em Tecnologias Emergentes na Educação, com diversos artigos publicados na área. Em 2023, lançou seu primeiro livro, Menina da Língua Solta e, desde então, participa de várias antologias, consolidando-se também como escritora. Apaixonada por poesia, acredita que a palavra quando nasce do coração – é capaz de mover consciências e mudar destinos.

Leia Também:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Conteúdo Protegido!!