‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XX – ABÍLIO WOLNEY E O COMBATE À COLUNA PRESTES. A COLUNA ABILIO WOLNEY E A COLUNA CAIADO
[Em diferentes edições e capítulos, o JORNAL CIDADE publica O DIÁRIO DE Abílio Wolney, livro do articulista Abilio Wolney Aires Neto, lançado pela editora Kelps (Goiânia-GO.), em 2009

Fotos: livro
XX – ABÍLIO WOLNEY E O COMBATE À COLUNA PRESTES. A COLUNA ABILIO WOLNEY E A COLUNA CAIADO
Na mesma época em que a oligarquia goiana procurava reprimir o movimento liderado por Santa Dica no povoado da Lagoa, em Pirenópolis (1925), interveio em Goiás a Coluna Prestes. Como manifestação do tenentismo, a coluna pretendia moralizar a vida pública brasileira, pondo fim às fraudes eleitorais e à hegemonia dos grandes proprietários rurais.
A coluna formou-se após as revoltas tenentistas de 1924, dando início a uma guerra de movimento contra o governo de Artur Bernardes. Liderado por Luiz Carlos Prestes, o Movimento objetivava conscientizar as camadas populares das injustiças do regime oligárquico, mas não ganhou a adesão das massas para a derrubada da ordem instituída em razão da sua atuação controvertida. O movimento chocou-se várias vezes contra tropas oficiais. A coluna não sofreu uma única derrota graças ao brilhantismo de seu principal líder. A revolta tampouco alcançou seus objetivos de uma ação popular ampla, desfazendo-se na Bolívia, em fevereiro de 1927.
Em suas correrias pelo Brasil, fez parte do trajeto da coluna Prestes a sua passagem em território goiano.
Sob a liderança da oligarquia dominante, formou-se a Coluna Caiado. A coluna Prestes chegou a se articular com elementos insatisfeitos da política regional, mas a organização da coluna Caiado serviu para demonstrar a hegemonia dos Caiado no cenário político goiano. [245
Segundo Osvaldo Póvoa,
Nos anos de 1925 e 1926 muitos municípios do antigo norte de Goiás viveram dias de pavor com as notícias da aproximação do que o povo denominava os revoltosos, grupo formado por militares e civis sob o comando de Miguel Costa, Juarez Távora, Carlos prestes e outros idealistas.
Este grupo revolucionário teve início com a união de força do Exército com oficiais da Força Pública de S. Paulo para mudar a política do Brasil que fazia trinta e cinco anos vivia sob o jugo do Partido Republicano em que só paulistas e mineiros eram eleitos. Cresceu muito com a incorporação de pessoas que não se submetiam à rigorosa disciplina militar, cometendo crimes de toda natureza, inclusive assassinatos e estupros. As escolas fechavam, as famílias fugiam das vilas e cidades para se esconderem nas matas. Através de ofício de 17 de novembro de 1925, o Delegado de Polícia do Porto Nacional relata as ocorrências ao Capitão Delegado Regional de S. José do Duro:
“Desde os Primeiros dias de outubro, conforme nos mandais dizer em ofícios de 3 e 10 do corrente mês que nos chegaram notícias da aproximação das forças revolucionários vindas do sul do Estado e que alcançaram Natividade em marchas relativamente demoradas, onde estacionaram por alguns dias, chegando aqui a 15 do mesmo mês de outubro os primeiros 25 e saíram os da última turma. Sem meios de defesa, sem comunicações, segregado quase do resto do Estado, pois não temos nem estradas por onde chegasse pronto socorro, este não tivemos e por isso a população abandonou a cidade para onde voltaram as famílias.”
Houve as costumeiras requisições, precedendo-as a posse manu militari das fazendas que eram percorridas pelos soldados revolucionários e arrebanhada toda a cavalhada e muitos gados que deixaram pelos campos.
[…]
Foi nesse clima de pavor que a Vila do Duro recebeu em setembro de 1925 a notícia de que os revoltosos marchavam em sua direção. A Vila, recém-saída de uma chacina, estava sediando a 4ª Companhia da Polícia Militar do Estado de Goiás sob o comando do Capitão Antônio César de Siqueira que tomou as necessárias providências para interceptar os revoltosos em Santa Maria de Taguatinga, inclusive requisitando os serviços do civil Francisco Liberato Póvoa para servir como enfermeiro. No dia 29 de setembro de 1925 a vila de Santa Maria de Taguatinga foi atacada por 250 revoltosos, segundo informe do comandante da força policial. Comandavam este pequeno grupo os coronéis Juarez Távora e Siqueira Campos, enquanto o grosso da coluna revoltosa sob o comando do General Miguel Costa, do Coronel Carlos Prestes e do civil João Alberto Lins se deslocava rumo a Conceição do Norte. O General Miguel Cosa e o Coronel Carlos Prestes falam de modo sucinto dessa passagem em carta ao gaúcho Dr. Batista Lusardo:
“A 28, a Divisão deslocou-se para Natividade via Conceição, enquanto que uma força do 3º Destacamento, sob o comando do Tenente-Coronel Siqueira Campos era lançada como flanco-guarda direito da Coluna nas direções de Santa Maria de Taguatinga e Duro. Cumpria ainda a esse flanco-guarda destacar sobre a fronteira baiana a fim de fixar ou localizar as avançadas inimigas, constituídas de um lado pela polícia goiana, saída do Duro e de outro, por forças federais vindas de Barreiras, na Bahia.”
As notícias do choque dos revoltosos com a polícia em Santa Maria de Taguatinga fizeram com que as escolas suspendessem as aulas até a passagem da tormenta em várias localidades. Do município da Palma um professor dava notícia de ter a cidade sido invadida em 1925 pelas hostes revolucionárias do General Izídio.
Passada a tormenta, o Professor Cárdia relata em poucas palavras o que ocorreu no Município da Palma, que na verdade é uma síntese do que aconteceu por onde a chamada Coluna Prestes passou na sua caminhada de mais de trinta mil quilômetros por todo o Brasil:
“Aula Pública da cidade da Palma, em 27 de outubro de 1925. Exmo. Sr. Dr. Artur da Silva Jucá, DD. Secretário do Interior e Justiça. Saudações. Tenho a honra de levar ao conhecimento de V. Exa. que tendo-se as hostes revolucionárias afastado deste município, onde fizeram muitas depredações, saqueando e incendiando propriedades de alguns fazendeiros, invadindo lares nos quais implantaram a desonra e o luto sem que ao menos coubesse às infelizes e indefesas vítimas de tamanho banditismo o sagrado direito de protestarem, V. bem V. Exa. pelas ligeiras exposições que aqui faço os horrores que sofremos durante os longos e tenebrosos dias do corrente mês. Os prejuízos causados neste município são superiores a 100:000$000(Cem contos de réis). Aproveito a oportunidade para reafirmar a V. Exa. os protestos de subida honra e distinta consideração. Saúde e Fraternidade.
O Professor Aristides Mendes Cárdia.” [246
Também em 1926, estando Presidente da República Arthur Bernardes, o mesmo anistiou Abílio Wolney, isentando-o de todo e qualquer processo judicial formalizados pelo Governo goiano, quando do Movimento do Duro.
O perdão de Arthur Bernardes, também dado a outros Coronéis da Guarda Nacional, vinha num ato pelo qual a União declarava impuníveis, por motivo de utilidade social, todos quantos, até certo dia, tomaram atitudes tipificadas como delitos, em geral políticos, fosse fazendo cessar as diligências persecutórias, fosse tornando nulas e de nenhum efeito as condenações.
Era o indulto com o qual Abílio Wolney se veria livre da sentença de morte dada pela oligarquia Caiado, em razão da qual viveu lutando e depois fugindo, primeiro para Barreiras-BA. Chegou a ser sapateiro durante o tempo que esteve no Piauí, de onde voltaria para a Bahia. Ainda fugindo, estivera em Pilão Arcado, sob a proteção do coronel Franklin Lins de Albuquerque.
Enfim, depois do seu calvário iniciado em 1911, estava Abílio anistiado em 1926 no governo de Arthur Bernardes e, então, passa a residir definitivamente em Barreiras-BA.
A rigor, tal anistia foi um ato sobremaior no aspecto legal e político, mas juridicamente estéril, salvo quanto a outros ou a novos processos abertos a posteriori e até aqui desconhecidos pela história, porquanto o processo presidido pelo Juiz Celso Calmon, no mesmo ano de1919 foi todo anulado pelo Tribunal de Justiça de Goiás, que entendeu se tratarem de fatos políticos, da competência da Justiça Federal, para onde foram remetidos os autos. Em 1922, o processo foi encerrado judicialmente na Justiça Federal, por prescrição, portanto sem condenação, in litteris:
[…] Por esses fundamentos e de acordo com a opinião sustentada pelo Ilmo. Sr. Procurador da República na sua promoção, julgo prescrita a presente ação penal e mando que subam os autos, no prazo legal ao Exmo. Sr. Dr. Juiz Federal, intimando o dr. Procurador da República. Custas na forma da lei. Goyas, 8 de novembro de 1922. (as) Luiz Xavier de Almeida-Juiz Federal. (Extraído do livro O Barulho e os Mártires)
O Ato presidencial serviu para cessar a caprichosa perseguição política. O Presidente da República havia concedido ao ex-Dep. Abílio Wolney a patente de Tenente-Coronel e Coronel-Patriota. O próprio Abílio “formaria um batalhão de 1000 homens, devidamente fardados, municiados e instruídos, para dar combate à Coluna. Nessa época, andava fardado de tenente-coronel. A única diferença da sua farda para a dos militares regulares era as divisas pretas. A dos militares de carreira, eram brancas”, como escreve Nertan Macêdo. (Ob. cit.).
Tratava-se da “Coluna Abílio Wolney”, assim designada por seu Comandante-em-Chefe, que jamais colheu desse levante patriótico qualquer dividendo, mesmo que fosse político.
Com a missão de combater a Coluna Prestes e comandando um dos principais batalhões do Exército Brasileiro, segundo Jorge Amado no livro O Cavaleiro da Esperança, vamos encontrar “Abílio Wolney no dia 24 de fevereiro de 1926 na cidade de Boa Vista, no Pernambuco, ao lado de outros, na linha de frente do seu Batalhão.”
O Cel. Patriota, entretanto, usava da estratégia de mandar alguém delatar que o seu Batalhão estava no encalço da Coluna, de modo que os revoltosos fossem se afastando da localidade onde se encontrassem, evitando o choque armado. E assim atingia o objetivo de “empurrar” a Coluna, que adiante sairia do País.
Admirador da coragem de Carlos Prestes e Miguel Costa, e sabedor da necessidade da queda das oligarquias, Abílio Wolney também “sonhava conscientizar as camadas pobres do norte das injustiças do regime”, vendo aquele levante socialista.
A verdade é que, além de ser um ato de civismo pátrio, Abílio aceitava a patente do Governo Federal como Alvará de Soltura, Salvo Conduto, pois vivia expatriado, sua família e seus bens destruídos, e procurado para ser morto.
Segundo Pang, [247
[…] no início de 1926, cerca de dez Batalhões patrióticos foram organizados pelos coronéis da Bahia. Três deles tiveram um papel importante na campanha: o batalhão de Lavras Diamantina, comandado por Horácio de Matos (cerca de 1500 homens) o batalhão Franklin Lins, do Vale Médio do S. Francisco (cerca de 800 homens), e o grupo de Abílio Wolney, formado por recrutas de Barreiras e Goiás (cerca de 1000 homens). Essas unidades recebiam dinheiro e armas do Governo Federal, e os oficiais e todos os outros homens receberam postos como se fossem do exército.
O Batalhão de Abílio só podia ser composto mesmo por homens do nordeste goiano e de Barreiras-BA, que era divisa. A ressalva é para observar a existência da chamada Coluna Caiado, Batalhão de voluntários recrutados nos municípios do sul pelo então Senador Totó Caiado.
Conforme o “Boletim Official” do jornal O Democrata nº 422, de 11/9/1925, mesmo não tendo se confrontado com os revoltosos, a participação dos seguidores de Caiado serviu como importante fator de recrutamento de eleitores para as eleições do Legislativo Estadual rumo à manutenção da oligarquia goiana. O referido jornal é citado por Itami Campos [248, para quem “no que se refere ao combate à Coluna Prestes, em Goiás, são graves as acusações feitas ao Senador Caiado, por diferentes autores”.
Numa carta da época, Abílio Wolney narra a seguinte ocorrência:
Corrente 19-12-25.
Antoninho, hoje ao entrar do sol recebi seu ofício de ontem procedente como devia. Antes do seu positivo chegava o Epifânio com a ordem do comando-em-chefe para que o Esquadrão seguisse para embarcar em Pontal e o Bm. patriota para Santa Rita; tudo sem perda de tempo. Os revoltosos tomaram Urussuly e devem estar em Floriano
pelo que foi alterado o plano de defesa. Em vista disso V. despacho atrasados expressos que despachou para Vitória e Urussuly e volte com o resto do pessoal trazendo os do posto. Isto por aqui, por enquanto está em perigo. O Cap. Meirelles virá com a força dele para esta Vª. José Honório continuará em suas fazendas juntando seu gado. Calcule as despesas dos soldados que ficaram e dê o dinheiro preciso a fim de nada ficarem a dever. No dia que v. saiu piorei da caxumba, só hoje estou me levantando muito abatido. Lembrança a teu pessoal, de teu sogro amigo.
Abílio Wolney.

A República dos coronéis era um tacão – já o havia sentido. De Coronel, Abílio Wolney ficou com o título. Roubado, fugitivo, com seu pai, seu irmão, seus parentes e seus amigos assassinados em 1919 e a sua terra, seu lar, de posse do Cap. Siqueira, desde 1923, vão sendo aniquilados paulatinamente.
Na obra clássica O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, delineiam-se as táticas factíveis do absolutismo. O livro é uma cartilha de cabeceira dos astutos, ainda hoje em voga no meio político, mutatis mutandis.
Com base na experiência da história, Maquiavel recomendava que o “príncipe”, ao galgar o poder matasse o inimigo. Não o podendo, o trouxesse para trabalhar ao seu lado. Se não fosse possível este último alvitre, então que destruísse os seus bens e eliminasse a sua cidade.
Os Caiado cumpriram a cartilha. Abílio Wolney, na Capital, foi um obstáculo; no norte, uma ameaça ao sistema. Livrar-se dele foi o caminho almejado para garantir a república conquistada. Não conseguindo matá-lo nem trazê-lo para trabalhar a seu lado, cuidaram em destruir os seus bens e em eliminar a pequena São José do Duro.

[245 ASSIS, Wilson Rocha, Estudos de História de Goiás, Vieira, 2005, p. 101.
[246 PÓVOA, Osvaldo Rodrigues, Inconfidências de Arquivo (O Velho Norte de Goiás), Kelps, 2006, p. 181 usque 187.
[247 PANG, Eul-Soo, The Politics of Coronelismo in Brasil: The Case of Bahia (1889-1930), p. 187.
[248 CAMPOS, Itami. Obra citada.
[Continua na próxima postagem quinzenal, com a publicação do Capítulo XXI
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