‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XIX – OUTRAS OPOSIÇÕES REVOLUCIONÁRIAS ATÉ 1930
[Em diferentes edições e capítulos, o JORNAL CIDADE publica O DIÁRIO DE Abílio Wolney, livro do articulista Abilio Wolney Aires Neto, lançado pela editora Kelps (Goiânia-GO.), em 2009

Deputado Federal, Senador e Ministro José Leopoldo de Bulhões (corajoso político oposicionista e uma voz em favor do Duro) – Foto: livro
XIX – OUTRAS OPOSIÇÕES REVOLUCIONÁRIAS ATÉ 1930
Na capital de Goiás, os seus donos pareciam perpetuar-se no poder, vendo os anos passarem livres como as águas plácidas e correntias do Rio Vermelho. Temido poder, porque nenhuma voz ousava se levantar contra o regime. Vermelhas as ações, porque de sangue e impunidade se fez o mando.
O Cel. Eugênio Jardim, que havia sucedido o concunhado Des. Alves de Castro, vê-se acometido de problemas de saúde e se afasta da presidência, voltando a ocupar o cargo de Senador. Seu mandato de presidente seria completado pelo adesista, Cel. Miguel da Rocha Lima, que se torna o mais novo cabo de chicote dos sobas de Goiás.
Adiante, na sucessão de Eugênio Jardim, vai eleito Brasil Ramos Caiado (1924-1929), em cuja administração começarão a surgir as primeiras manifestações de descontentamento de raros goianos, depois de quase 20 anos de familiocracia compactuada pelo silêncio das massas anônimas, revoltadas, mas sem voz.
A INTERVENÇÃO FEDERAL DE 1919
É verdade também que nem tudo foi silêncio. A primeira insurreição contra o regime caiadista foi o próprio Movimento de 1919 em São José do Duro, naquele recontro entre jagunços oficiais os jagunços do sertão, por tudo o que se viu, onde a primeira vítima foi coberta pelo sudário branco de um “Auto de Resistência”. E depois…
Essa conturbação de base política de oposição ao Governo desafiaria alguma providência da União. Tentando justificar o genocídio do Duro, cinicamente o próprio Governo do Estado pediu e obteve o decreto de intervenção federal em Goiás, que teve um efeito diametralmente oposto ao que desejava: resultou num minucioso Relatório do Major do Estado Maior do Exército, Álvaro Guilherme Mariante, antes citado, cuja lavra
“foi uma (precoce)sentença condenatória contra a oligarquia Caiado” [235, embora sem imediato resultado prático na remoção das autoridades governamentais culpadas A respeito, o autor tratará no livro O Duro e a Intervenção Federal – Relatório ao Ministério da Guerra. [236
O MASSACRE DOS SEGUIDORES DE SANTA DICA
Cabe destacar, também, o Movimento liderado por Benedita Cipriano Gomes, conhecida como Santa Dica, no Povoado da Lagoa (hoje Lagolândia), município de Pirenópolis, que resultou noutra chacina em Goiás.
Em 1925, estando Brasil Caiado no governo de Goiás, foi mandado para Lagolândia o mesmo Juiz Celso Camon Nogueira da Gama, famigerado esbirro da oligarquia.
Conhecido pela chacina do Duro, Celso Calmon dirigiu em Comissão, um Batalhão de soldados da milícia goiana,
[…] que ficaram entrincheirados nos morros que circundam o povoado de Lagolândia e foram apontadas metralhadoras Madsen, além de outras armas automáticas para varrer a localidade. Havia ali cerca de mil homens capacitados para a luta; os demais eram mulheres e crianças. O massacre durou cerca de 24 horas consecutivas. [237
O Movimento de Santa Dica tratava-se […]
de uma revolta messiânica, nos moldes da Guerra de Canudos, ocorrida no sertão baiano, liderada por Antônio Conselheiro. Nos dois casos, encontramos a religiosidade popular servindo de instrumento de organização das camadas populares, que se levantam contra a ordem coronelística instituída. As semelhanças com o movimento de Canudos fizeram com que Santa Dica fosse chamada “Antônio Conselheiro de saia” (Carvalho, in Revista Estudos, v. 20, n. 12, p. 2713)
A jovem mística Santa Dica, assim canonizada pela Igreja Católica Brasileira, fundou um povoado às margens do rio do Peixe, conhecido como “Calamita dos Anjos”. A comunidade estruturou-se em torno da propriedade coletiva da terra, de forma igualitária, atraindo ferrenha oposição dos coronéis da região. Santa Dica passou a ser descrita como histérica e desordeira, incitando a revolta entre os sertanejos. Ocorreu a morte de onze seguidores, sendo Santa Dica trancafiada e condenada a nove meses de prisão. [238
A QUESTÃO DO PODER JUDICIÁRIO
A oposição ao caiadismo torna a se manifestar com o surgimento do caso que ficou conhecido como A Questão do Poder Judiciário. Foi entre 1926 e 1927, quando o Poder Judiciário de Goiás novamente considerou-se inapto para realizar suas atividades devido à interferência dos poderosos da cidade de Goiás. [239
A Questão do Judiciário decorreu de uma polêmica central,
[…] quando se confrontaram dois Caiado: Mário Alencastro Caiado e Totó Caiado. Ao longo da construção da hegemonia caiadista, o tronco familiar de Antônio José Caiado (Torquato Ramos Caiado – Antônio Ramos Caiado) sobrepôs-se ao tronco de Joaquina Emília Caiado (Maria de Alcântara Alencastro – Mário de Alencastro Caiado). Apesar de Maria de Alcântara ter se casado com seu primo-primeiro, Luís Antonio Caiado, filho de Antonio José Caiado, esse tronco vinculou-se aos Alencastro, que não eram considerados plenamente Caiado. O poder político acumulado no Império e na transição para a República por Antônio José Caiado, avô de Mário e Totó, foi transferido e ampliado por Totó Caiado. O início dos problemas é anterior à questão do Judiciário (ocorrida em 1927), quando Mário Caiado informou o governo estadual da passagem de armas por Piracanjuba, em 1909, destinadas aos homens sob comando de Totó Caiado e Eugênio Jardim, no processo de destituição do grupo Xavier de Almeida. Outro episódio acumulou desavenças entre os dois grupos em 1926, por causa de um testamento, envolvendo a judicatura dos juízes Mário Caiado e Jarbas Caiado de Castro, que redundou na divisão do Tribunal:
ficaram quatro juízes contra a posição de Totó Caiado e apenas um a seu favor. Como escreve Joaquim Rosa, ‘desse momento em diante o que menos interessava era o testamento. [240
Tais intrigas no cerne de oligarquia acabariam ocupando, na imprensa, “várias edições do jornal O Democrata, na defesa de Totó Caiado, enquanto os juízes apresentavam a questão nos jornais do Rio de Janeiro.
O Senador Totó chegou a usar a tribuna do Senado Federal para combater os juízes rebeldes. No começo de 1927, o Tribunal decidiu requerer a intervenção federal em Goiás, sob a alegação de falta de condições para o livre funcionamento do Judiciário, de desrespeito do Executivo às decisões da Justiça e de dilapidação das terras devolutas do Estado”. [241
Porém, a influência de Totó Caiado, como Senador por Goiás, sustentou as articulações no sentido de impedir a intervenção. Derrotada a intervenção, Totó Caiado influiu para a ampliação de 5 para 9 o número de Desembargadores, garantindo a maioria (5 x 4) a seu favor. [242
Enfim, os pedidos de Intervenção Federal não tinham força para socorrer a coisa pública apossada, pois Goiás não despertava maiores interesses da União, era um Estado pobre, atrasado. E quando Caiado bradou por Goiás foi para denunciar os magistrados parentes que o contrariavam. Só mesmo familiares para se digladiarem, pois outro juiz
no Estado não teria coragem de enfrentar Antônio Ramos Caiado.
O reflexo direto dessa omissão do poder central quanto aos pedidos de Intervenção no Estado abria espaços para uma maior autonomia interna [243, sobretudo pelo fato de a oligarquia ser hegemônica, com bem tecida ‘teia de aranha’ nos poderes da República, da capital do Estado ao Rio de Janeiro, embora os políticos de Goiás pouco ou nada influíam nos caminhos da política nacional, cujos cargos exerciam por personalismo e para assegurar interesses do grupo.
A figura goiana de verdadeiro compromisso com o Estado estampava-se em José Leopoldo de Bulhões, definitivamente vencido na Cidade de Goiás. Leopoldo foi uma notabilidade na vida pública: Formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade de São Paulo. Deputado Geral de 1881 a 1885. Em 1892 foi eleito Presidente do Estado, na primeira eleição direta para o governo de Goiás, não tendo assumido sob a alegação dos encargos de Deputado Federal entre 1891 a 1893; Senador de 1894 a 1902; Senador de 1909 a 1909; Senador de 1911 a 1918; Presidente da Associação Comercial; Presidente do Conselho de Contribuintes do Imposto de Renda. Foi nomeado Ministro da Fazenda em 1906, no governo de Rodrigues Alves. Em 1907 havia assumido a Diretoria do Banco do Brasil. Como visto, em 1909 havia ocupado pela segunda vez, cargo de Ministro da Fazenda no governo de Nilo Peçanha. Há quem diga que ele foi Prefeito de Petrópolis-RJ. Um homem desse tamanho, tornou-se maior ainda pelo desprendimento. Intelectual e dedicado à vida pública, nunca teve tempo e dinheiro para adquirir fazenda e gado, tanto que morreu pobre, de um modo em que os amigos tiveram que cotizar para lhe pagar o funeral. [244
José Leopoldo de Bulhões, mesmo no Rio de Janeiro, foi uma voz na imprensa em favor de São José do Duro, do que o autor trata no livro O Duro e a Intervenção Federal.

Deputado Federal, Senador e Ministro José Leopoldo de Bulhões (corajoso político oposicionista e uma voz em favor do Duro)
[235 Palavras do Prof. Osvaldo Rodrigues Povoa, em carta dirigida ao autor em 2005.
[236 NETO, Abílio Wolney Aires, O Duro e a Intervenção Federal – Relatório ao Ministro da Guerra. Em 1919, Batalhões do Exército se movimentaram para a divisa entre a Bahia e Goiás, acantonando as tropas na cidade de Barreiras-BA, rumo a São José do Duro, em razão da retaliação do ex-Dep. Abílio Wolney à polícia dos Caiado.
[237 AIRES, Voltaire Wolney, Abílio Wolney, Suas Glórias, Suas Dores, 2ª ed., 2002, p. 114.
[238 ASSIS, Wilson Rocha, Estudos de História de Goiás, Vieira, 2005, p. 100-101.
[239 CHAUL, Nasr Fayad, obra citada.
[240 RIBEIRO, Miriam Bianca Amaral, Coronelismo em Goiás: estudos de casos e famílias, p. 209 e ss.
[241 Idem. Miriam Bianca ali explica o mesmo que foi dito por Godoy Garcia: A questão das terras devolutas “referia-se à aquisição, por preços simbólicos, das fazendas Tesouras e Aricá, por Totó Caiado, com base em lei aprovada durante o governo de Brasil Ramos Caiado. A lei que permitiu tal compra foi revogada assim que se legalizaram as escrituras de Totó Caiado”
[242 Ibidem.
[243 CAMPOS, Itami. Obra citada.
[244 O nome de José Leopoldo de Bulhões foi atribuído a um Distrito do município de Silvânia, Goiás, em 8 de dezembro de 1931 por força do Decreto-lei nº 66.
[Continua na próxima postagem quinzenal, com a publicação do Capítulo XX
- 30/09/2025 13:04:38 - ‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [ANEXO - ABILIO WOLNEY FAZ OUTROS REGISTROS HISTÓRICOS. HOMENAGENS. E, BIBLIOGRAFIA
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- 31/08/2025 20:28:53 - ‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XXIV – A ORIGEM DO NOME “DIANÓPOLIS”
- 15/08/2025 22:55:31 - ‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XXIII – O LONGO MANDATO DE PREFEITO EM BARREIRAS-BAHIA
- 17/07/2025 16:30:27 - ‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XXII – PRISÃO E QUEDA DE TOTÓ CAIADO
- 01/07/2025 06:02:39 - ‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XXI – O AMIGO PEDRO LUDOVICO E A REVOLUÇÃO DE 1930
- 30/06/2025 21:23:01 - ‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XX – ABÍLIO WOLNEY E O COMBATE À COLUNA PRESTES. A COLUNA ABILIO WOLNEY E A COLUNA CAIADO
- 15/06/2025 23:56:37 - ‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XIX – OUTRAS OPOSIÇÕES REVOLUCIONÁRIAS ATÉ 1930
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