‘O DIÁRIO DE Abílio Wolney’ [XXI – O AMIGO PEDRO LUDOVICO E A REVOLUÇÃO DE 1930
[Em diferentes edições e capítulos, o JORNAL CIDADE publica O DIÁRIO DE Abílio Wolney, livro do articulista Abilio Wolney Aires Neto, lançado pela editora Kelps (Goiânia-GO.), em 2009

Primeiro Governo revolucionário de Goiás após a revolução de 1930: Sentados, os membros empossados da Junta: Drs. Pedro Ludovico, Emílio Póvoa e Mário Caiado. De pé: Cel. Quintino Vargas, Dr. Pinheiro Chagas, Dr. Inácio Loiola, Dr. José Honorato, Dr. Antonio Perilo, Dr. Claro de Godói e Cel. Pireneus de Souza – Fotos: livro
[XXI – O AMIGO PEDRO LUDOVICO E A REVOLUÇÃO DE 1930
Mas tudo passa; o poder é temporal. Entretanto transitaria por longos anos, pois o caiadismo vai até 1930. Ao final do governo de Alfredo de Morais, estava em curso o processo da Revolução de 30, que extirparia a supremacia dos Caiado em Goiás.
Chegava-se ao ápice da Revolução Nacional, e com ela Getúlio Vargas. Em Goiás, com a vitória da Aliança Liberal, a Junta Governativa Pedro Ludovico – Des. Emílio Póvoa – Mário Caiado derrotou Totó Caiado, que se retirou da Capital do Estado.
Mario d’Alencastro Caiado era aquele juiz dissidente no “Caso Judiciário”, quando houve um racha dentro da família Caiado entre 1926 e 1927. Em junho deste ano, Mário Caiado havia fundado o jornal Voz do Povo, que sustentou o combate ao grupo caiadista e aglutinou a oposição. Esta contou também com Americano do Brasil e Colemar Natal e Silva, membros da família Caiado por laços de casamento, e com o primo Claro Godoy, do mesmo tronco familiar de Mário Caiado.
O vulto altaneiro do Des. Emílio Francisco Póvoa pela primeira vez na vida deixava por uns dias a cadeira de Desembargador. Tomava assento numa cadeira colegiada com seus pares na Junta Governativa, designada pelo alto escalão revolucionário.
Emilio Póvoa assistira aos desmandos na Capital – com muitos dos seus votos vencidos no Tribunal – no aguardo daquele dia memorável.
Nunca se dobrou à oligarquia. Dentre outros pedidos de intervenção federal em Goiás, foi ele o autor de uma longa e fundamentada petição de Intervenção da União no Estado, pois muitas decisões judiciais, especialmente as suas, não eram cumpridas pelo Governo e sua clientela. Justamente por causa daquele pedido de Intervenção, Emílio Póvoa foi destituído do cargo de Presidente do antigo Superior Tribunal de Justiça de Goiás para dar entrada ao Des. Ayrosa Alves de Castro, primo do afamado Des. João Alves de Castro, cunhado de Totó Caiado.
Com certeza o Des. Emílio recordava-se de tudo, numa indignação sem mágoa. Era chegado o momento, esperado há quase duas décadas. Era a hora da vitória da toga da Justiça. O seu anelo era a magistratura. Nela, em 1919, proferiu o memorável Voto condutor do Acórdão que anulou todo o processo da Comissão do juiz Celso Calmon Nogueira da Gama, juiz mandado pelo Governo para presidir a Comissão que culminou no massacre dos reféns na Chacina dos Nove.
E Celso Calmon foi preso, processado e depois condenado, embora tenha conseguido se livrar de tudo no final dos anos 20, quando havia chegado a Desembargador, conforme prometido pelos situacionistas.
Logo que Pedro Ludovico assumiu o governo monocrático, uma das primeiras providências que tomou foi colocar o novel Des. Celso Calmon Nogueira da Gama em disponibilidade, ao que tudo indica sem vencimento, como o fez a outros, livrando-se dele em Goiás. Calmon voltou para sua terra, no Espírito Santo, de onde nunca mais deu notícia.
No seu livro Memórias, Pedro Ludovico expõe o drama, especialmente do Estado, naquela quadra da história:
Embora me sentisse revoltado com a falsa democracia que existia em todo o Brasil e em Goiás, continuava afastado das lides políticas, para não provocar aborrecimentos ao meu sogro. Chegou a tal ponto a minha repugnância pela situação, que não mais resisti e tomei atitude. Meu sogro (Antônio Martins Borges ou Totonho Borges) não me impediu de assim agir. Eu, Ricardo Campos, Dr. Almeida Barros, advogado militante, Atanagildo França e Teódolo Emrich fundamos o jornal “O Sudoeste” e começamos a criticar os erros da política e da administração do Estado, onde imperava uma familiocracia. Basta lembrar que Antônio Ramos Caiado era Senador da República, Brasil Caiado, irmão dele, Presidente do Estado, Joviano Alves de Castro e Lincoln Caiado de Castro, Deputados Federais, respectivamente, cunhado e sobrinho-genro do Senador.
Entrando na refrega política, como dizia, comi o pão que o diabo amassou. Apesar de nossas divergências, nunca fui inimigo pessoal do Chefe caiadista de Rio Verde. Mantivemos sempre relações cordiais.
Pouca gente tinha coragem de combater o caiadismo. A maior parte do povo estava insatisfeita, mas só alguns pequenos grupos, na velha Goiás, em Rio Verde, em Inhumas, punham as mangas de fora. Não vou citar nomes porque cairia fatalmente em omissão de muitos que foram bravos. Pode ser que, no correr destas Memórias, fale em alguns.
As eleições eram um escárnio, uma brincadeira. Colocavam-se nos postos, onde se realizavam os sufrágios, um Tenente da Polícia e dois soldados. Ao entrar, o eleitor recebia de um dos mesários um envelope fechado, que continha o seu voto e o colocava na urna. Muitas vezes, nem a esse trabalho se davam. Chamavam umas três ou mais pessoas, inclusive os transeuntes, que assinavam os nomes dos eleitores, para “efeito legal”. Era o regime escandaloso das atas falsas. Aliás, isso acontecia no Brasil inteiro.
Não somente isso o que me indignava, sobretudo, a falta de garantias que sofriam os que não se conformavam com esse estado de coisas, as perseguições de que eram vítimas.
Quanto mais o nosso movimento ganhava vulto, mais se acentuava a reação do absolutismo. Mesmo assim, quando havia eleição para qualquer cargo público, de Prefeito, Vereadores, Deputados, Governador ou Senador, dávamos sinal de vida.
Não podendo entrar na sessão eleitoral, votávamos em Cartório, como uma forma de protesto. […]
Sabendo que aqueles votos em Cartório nada valiam, pois não eram computados, queríamos provar a nossa determinação de repelir uma eleição fraudulenta e escandalosa.
Iam para Rio Verde os oficiais mais valentes e violentos da Polícia Militar, que, felizmente, sempre manifestavam uma consideração à minha pessoa. O ambiente, dia a dia, mais se carregava.
Abriram-se-me duas alternativas: ou mostrar forte ou abandonar a luta. […]
O destacamento policial se fortalecia, de meses em meses, com mais soldados que chegavam. As violências contra elementos do povo ocorriam constantemente.
E narrando outros fatos, continua Pedro Ludovico:
[…] Estando já em minha casa, uma cunhada minha me alertou que um grupo de soldados, armados de fuzil, para lá se dirigiam. Estava só. Minha mulher foi encontrá-los à porta da rua. O tenente foi logo lhe dizendo que ela se considerasse viúva, pois ia matar-me e que me buscaria dentro da minha residência […]. Para que o incidente não se tornasse mais grave, fui passar alguns dias em Uberlândia, a pedido do meu sogro (Totonho Borges).
Esse militar, conforme fui informado, meses depois foi fazer uma prisão em Catalão, matando um homem, deixando na orfandade dez filhos. Não guardei, nem guardo, nenhuma mágoa dele, mesmo porque estava cumprindo ordem superior, ficando certo disto depois que recebi uma carta de um alto representante do Judiciário Goiano, informando-me de que o Oficial tinha sido recomendado para assim proceder, a fim de me desmoralizar ou matar. Eventos que tais foram numerosos comigo, não valendo a pena recordar, a não ser os principais.
O mandonismo caiadista convenceu-se de que era preciso uma atuação mais violenta contra os inadaptáveis do sudoeste, e, então, enviou para Rio Verde o Delegado Especial Erkonvaldo de Barros, acompanhado de 50 soldados. Afirmava-se que este homem fora indicado pelo Governador do Rio Grande do Norte, Dr. Juvenal Lamartine, ao Senador Antônio Ramos Caiado.
Tramava-se e se executava uma expedição punitiva contra os rebeldes que não queriam se submeter à política caiadista.
Nos idos de 1929, tão logo chegado a Rio Verde, Erkonvaldo de Barros pediu a mim e ao meu sogro que comparecêssemos à sua presença, porque tinha necessidade de conversar conosco. Não previmos que estivesse usando uma artimanha, para nos prender. Lá chegados, convidou-nos para acompanhá-lo à Cadeia Pública, onde instalara a sua Delegacia. Retirou-se, dizendo que voltaria logo.
Depois de quatro dias, apareceu bêbado.
Antes de entrar na sala em que nos encontrávamos detidos, ouvimos que ele espancava uma pessoa, que estava também presa. Imediatamente, soubemos que se tratava do advogado que havia requerido habeas corpus para nós e cuja concessão, horas antes, tinha sido deferida pelo Juiz José Ferreira de Azevedo, magistrado íntegro, com muito bom nome na Comarca. O advogado era meu velho amigo, muito corajoso, porque se não o fosse não teria ânimo para defender a nossa causa.
Em seguida ao espancamento, surgiu Erkonvaldo diante de nós. Foi logo dizendo que tinha ordens negras contra mim. Não deixei que continuasse. Respondi-lhe que, se ele me tocasse com a mão, como acabara de fazer com o advogado, o mataria, não na prisão, porque não havia possibilidade, mas depois, em qualquer lugar onde o encontrasse. Esbravejou, repetindo que eu era um insolente, um atrevido, e que tinha ordens especiais contra mim, e se afastou, deixando-nos incólumes. Prendeu mais de vinte pessoas na cidade e, em seguida, partiu, na sua missão punitiva, para Jataí.
Naquela cidade, próxima a Rio Verde, agiu mais violentamente. Encarcerou muitos membros da família Carvalho. Colocou-os e outros em uma única prisão, onde ficaram vários dias, fazendo as necessidades fisiológicas, uns na vista dos outros. Quando recebeu ordem do Presidente do Estado, Dr. Brasil Caiado, para liberta-los, tomou de uma chibata e deu em cada um uma chibatada. Retirou dois indivíduos humildes, presos por motivos fúteis, e os assassinou nas margens do Rio Claro, que corre perto de Jataí. Fez isto apenas para apavorar o povo.
Mandou surrar muitas pessoas que estavam presas e repetiu as mesmas violências na cidade de Mineiros. Mandou ou consentiu que três soldados espancassem, com o intuito de roubar-lhe uns diamantes, o sírio Elias. Mandou doze soldados à Serra do Cafezal, onde cometeu, pessoalmente, os maiores desatinos, maltratando e roubando muitos fazendeiros, entre os quais o Sr. Cândido da Costa Lima, conhecido por Candinho, do qual arrancou, um por um, numerosos fios de sua barba. […] Tudo isto que estou relatando foi apurado em inquérito, após a vitória da Revolução de 1930.
Meses depois fui à velha Goiás com os meus amigos Ricardo Campos e Belarmino Cruvinel. Ao passarmos por Campinas, hoje parte integrante de Goiânia, vimos um homem bem vestido, com dois soldados ao lado, arrancando pragas de uma das ruas da pequena cidade. Antes tomou uma dúzia de bolos de palmatória e, em seguida, fora obrigado a fazer aquele serviço. Tratava-se de um comerciante local que teve a petulância de não rezar pela cartilha do caiadismo.
A Revolução estava em marcha […]. No dia imediato à minha chegada a Uberlândia, parti para a mesma região de onde tinha vindo, chegando a Santa Vitória à margem do Paranaíba. Nesta pequena e velha cidade, encontrei-me com Oscar Bernardes, fazendeiro abastado, descendente de uma velha família mineira. Trazia comigo, além de alguns companheiros, que me esperavam em Uberlândia (habituados à luta armada, nos combates travados em Mato Grosso…), mais vinte rapazes, que, espontaneamente, a mim se ofereceram para lutar, entre os quais se destacaram Jedeon de Barros e Joaquim Roberto de Souza. Oscar me foi utilíssimo, tendo me arranjado cerca de 80 (oitenta) homens.
Acompanhavam-me, entre os vinte de Uberlândia, Jonas Mun e o enfermeiro Otto, ambos europeus, e que haviam lutado na guerra mundial de 1914. Jonas se tornou o meu chofer e foi de uma dedicação sem limites para comigo.
Parti adoentado de Uberlândia. O enfermeiro Otto encarregou-se de dar instrução militar aos meus homens, durante dois dias.
Atravessamos o Paranaíba em um barco, no Porto São Jerônimo, e depois de uma hora de marcha em território goiano tivemos o primeiro choque. A minha vanguarda encontrou-se em uma curva da estrada com um automóvel que conduzia seis soldados e um motorista. Não houve tempo para entendimentos e o tiroteio se estabeleceu entre os dois grupos.
Logo depois os alcancei, verificando que um dos solados tinha sido ferido e se embrenhara em um cerrado próximo…
Seguimos para uma cidade próxima, antiga Capelinha, hoje Quirinópolis. Nas vizinhanças, havia um riacho e uma ponte, que deveríamos atravessar. Quando o fazíamos, tivemos que recuar, pois recebemos uma fuzilaria de quinze soldados, comandados por um sargento. Houve a luta, que durou meia hora, mais ou menos. A força policial bateu em retirada e nós entramos na cidade, conduzindo três feridos, um dos quais não suportou os ferimentos, falecendo pela madrugada. Fiz o que pude para salvar a vida de todos. Mas como não podia parar, continuei em direção de Rio Verde.
Ao acamparmos perto de quatro quilômetros desta, verifiquei que dos 110 homens da nossa força 40 haviam desertado, após o segundo tiroteio. Restavam-me setenta.
Às cinco da madrugada estávamos às portas da cidade. Era nossa intenção atacar o destacamento policial e tomar as suas armas. Entretanto, ignorávamos que as forças governistas ali tinham sido muito aumentadas, com soldados e paisanos.
Continuando a marcha, fomos logo interceptados por uma intensa fuzilaria, a que resistimos duas horas.
Terminada a nossa munição, o meu pessoal recuou, menos eu e dois companheiros, que se separaram de mim, cada qual procurando se salvar. Nós três não tínhamos possibilidade de alcançar os caminhões que nos conduziam.
Ficando só, tentei abrigar-me, depois de arrastar-me pelo solo cerca de 50 metros, chegando a um pequeno bosque. Era tal a minha fadiga, que dormi imediatamente seis horas seguidas. Então, um menino, que estava à procura de um animal, me viu e foi avisar, na cidade, que havia um homem morto, onde se dera o combate.
Poucos minutos depois, um grupo de 20 homens se acercou do lugar em que me encontrava, vindo atirando em todas as moitas. Despertei com os tiros e avistei o grupo. Levantei-me e um dos componentes, surpreso, me deu ordem de prisão. Havia vários amigos no grupo, forçados pela situação, a ficar a favor do Governo.
Seguimos e, 15 minutos depois, atingimos a primeira rua de Rio Verde, onde o Tenente Catulino Viegas [249 nos esperava. Foi muito delicado comigo, perguntando-me se queria ir a pé ou de automóvel. Com as vestes sujas como estava, preferi o automóvel.
Trancafiaram-me no pior xadrez. […]
No dia 24 de outubro, pela madrugada, entra no meu cárcere o Tenente Catulino e me declara que recebera ordem do Senador Ramos Caiado de me remeter para a velha Goiás. Vesti-me com a única roupa velha e rasgada, que estava comigo. Ao deixar a porta da prisão, apareceram-me os Drs. Zaqueu Crispim e César da Cunha Bastos, dizendo aquele que tinha ordens de me conduzir a Goiás e que sentia muito prazer em abraçar um homem digno como eu. Foi um conforto para mim, encarcerado, havia 14 dias, e não sabendo do meu destino. […]
Tornei a ficar surpreso.
Continuamos com destino à velha Capital. […]
Soube, posteriormente, que os soldados, portadores do recado do Dr. Jucá, tinham a missão de me assassinar e ao Ricardo. E tanto era verdade que, ao continuarmos a viagem, o Zaqueu mandou desarmá-los. […]
A dezoito quilômetros de Goiás, antiga Capital, surgiu um automóvel com três pessoas. […]
Só Zaqueu continuou, conduzindo-me e ao Ricardo.
Depois de andarmos uns três quilômetros consultou-me se não me aborreceria se ele me levasse à presença do Vice-Presidente do Estado, já que o Presidente, Dr. Alfredo Lopes de Morais, achava-se licenciado e os Senadores Brasil Ramos Caiado e Antônio Ramos Caiado, e mais parentes, tinham abandonado a Capital, tão logo souberam do êxito da Revolução.
[…]
Aconteceu, porém, ficar sabendo, uma hora depois, que uma coluna de revolucionários, comandada pelo Dr. Carlos Pinheiro Chagas e Quintino Vargas, vinda de Paracatu, cidade mineira, se aproximava da velha Goiás. Em consequência, impedi a remessa de forças de Itumbiara.
Consultei alguns amigos se queriam comigo ocupar o Palácio do Governo. Dez concordaram e assim o fizemos. […]
Decidiu o alto escalão revolucionário que deveria ser nomeada uma Junta Governativa, composta de três membros, para cada unidade federativa. Eu, o Desembargador Emílio Póvoa e o Juiz de Direito da Capital, Dr. Mário de Alencastro Caiado, fomos os escolhidos. Na hora da posse, quis ceder a cadeira do centro ao Desembargador Póvoa, não só porque era o mais velho, senão também um Juiz muito íntegro, que gozava de ótimo conceito. Por insistência de Carlos Pinheiro Chagas, tomei esse lugar. […]
A junta durou poucos dias, tendo sido eu nomeado Interventor Federal do Estado.
Cumpre ressaltar, aqui, que este ilustre goiano muito nos ajudou no combate ao caiadismo. Atuava com muita frequência e ardor na imprensa carioca e goiana. Bom jornalista, conhecedor, destarte, de tudo que se passava no nosso Estado, não dava descanso à oligarquia que imperava em Goiás. […]
No dia 29 de outubro de 1930 assumi como membro da Junta Governativa, nomeada logo após a vitória da Revolução, o Governo deste Estado. Três semanas depois, tive o desprazer de ver separarem-se de mim os meus ilustres companheiros dos primeiros dias de governo, os Srs. Drs. Mário Caiado e Emílio Póvoa, por força do Decreto que me investiu nas funções de Interventor.
O povo brasileiro, inclusive o goiano, vinha de uma luta cívica memorável, sem similar no registro da vida nacional.
Goiás, como nenhuma outra unidade federativa, sentiu o peso de uma situação despótica e oligárquica, que tudo fez para sobrepujar as condições de insegurança em que se via envolvido o País. A pletora de mandonismo, o prazer sádico pela violência, o sentimento de irresponsabilidade predominavam tanto na mentalidade dos situacionistas, que a insegurança se apresentava a todos e sob todos os aspectos.
Insegurança na vida comercial, industrial e máxime na vida política.
O comércio e a indústria não podiam se desenvolver em virtude da falta de garantias que se lhes defrontava, sujeitos aos botes de qualquer aventureiro que às portas lhes aparecesse, quase sempre amparado pelas boas graças dos poderosos. Os habitantes do hinterland se viam ainda mais ao alcance das acometidas dos mastins que infestavam o situacionismo.
Nesse ambiente sombrio, corrupto, pressago, não havia possibilidade de progresso, de entusiasmo. Já ninguém queria se aventurar a estas plagas com a intenção de habitá-las, devido ao receio da intranquilidade que, certo, o esperava. Aos que se davam à veleidade de manifestar uma ideia contrária aos imperantes, a estes nenhum direito, nenhuma lei, nenhum dispositivo legal lhes amparavam as pretensões. Eram irrequietos, turbulentos, visionários, a quem a própria justiça temia atender, de pés e mãos atadas como se via, donde a sua vacilação, a sua apatia dolorosa ante os recursos a ela dirigidos dos que sofriam. Felizmente, a revolta dos sonhadores que não se acomodaram com os mandões, encontrou eco na alma popular, permitindo que a revolução se tornasse triunfante e correndo com os vendilhões da Pátria e os conspurcadores do regime.
Conquistei (a posição de interventor do Estado) à custa de sete anos de combate aos passadistas que nos asfixiavam com toda espécie de truculências. Conquistei-a conhecendo cárceres, cujos grilhões jamais puderam abafar a voz de meu civismo, o entusiasmo das minhas ideologias. Conquistei-a com um longo sacrifício de amigos e de minha família; com a invasão, por várias vezes, do meu lar por uma polícia celerada e sem freios, que se orientava pelas diretrizes torvas e criminosas de seus chefes.
Conquistei-a finalmente pelo argumento máximo das armas, extremo a que chegam os espíritos resolutos contra os Governos tirânicos e violadores da soberania popular. [250
Os desmandos da oligarquia chegavam a termo. O antigo nordeste goiano sucumbiu em parte na resistência de São José do Duro, com o holocausto dos mártires, ou mesmo no ideal dos jagunços em levarem o ataque à cidade de Goiás e tomarem o poder com as armas. Fê-lo Getúlio Vargas, com a tríade da Junta Governativa, depois singularizada em Pedro Ludovico Teixeira.
O caiadismo foi o gestante do seu próprio fim, visto como os seus sequazes não tardaram muito a caírem em face da reação das massas anônimas e vítimas do seu sistema de mando.
A oligarquia propriamente durou de 1912 a 1930.
Alta noite do dia 24 de outubro de 1930, o tropel de cavalos riscando em trote largo com suas ferraduras novas apressadamente colocadas, tirando lajedos de Vila-Boa, não chamou a atenção de quase ninguém. Reinava a confusão na vetusta cidade, diante das notícias da queda do governo, no Rio de Janeiro. Os cavaleiros, o estado-maior do caiadismo, tomavam o rumo da Fazenda Tesouras, de propriedade do suserano deposto. [251

Des. Emílio Francisco Povoa, que terminou integrando a Junta Governativa na Revolução de 1930, quando caiu a oligarquia Caiado

Pedro Ludovico, seu sogro Antônio Martins Borges (Totonho Borges, líder político do sudoeste goiano), João Valeriano da Silveira Leão (Zeca Leão) e Ricardo Campos, correligionários políticos e oposição ao “caiadismo”. [252

Abílio Wolney, anos depois, provavelmente no início dos anos 30 (Fotografia do acervo dos filhos Joaquim Wolney e Irany Wolney)

Primeiro Governo revolucionário de Goiás após a revolução de 1930: Sentados, os membros empossados da Junta: Drs. Pedro Ludovico, Emílio Póvoa e Mário Caiado. De pé: Cel. Quintino Vargas, Dr. Pinheiro Chagas, Dr. Inácio Loiola, Dr. José Honorato, Dr. Antonio Perilo, Dr. Claro de Godói e Cel. Pireneus de Souza
[249 Aqui ressurge, em 1930, a figura de Catulino Viegas, um dos verdugos da Chacina de São José do Duro, já agora Tenente, com essa nova missão.
[250 TEIXEIRA, Pedro Ludovico. Memórias, 2ª edição, Livraria e Editora Cultura Goiana, 1973, págs. 18 a 19 e 26 usque 59. Frases finais destacadas. Desse mesmo livro vieram as fotografias atrás.
[251 Assim Joaquim Rosa descreveu a retirada dos Caiado da antiga Vila Boa, após a vitória de Getúlio Vargas. A Junta Governativa assumiu o governo do Estado das mãos de Pinheiro Chagas, mineiro que veio garantir a vitória da Aliança Liberal em Goiás. (A citação consta de texto de Miriam Bianca Amaral Ribeiro no livro Coronelismo em Goiás: estudos de casos e famílias, págs. 232/233, coordenado por Nasr Fayad Chaul).
[252 Fotografias extraídas do livro Tempos Idos e Vividos. Minhas Experiências, de Mauro Borges Teixeira, 2ª edição, páginas 43 e 61.
[Continua na próxima postagem quinzenal, com a publicação do Capítulo XXII
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