Zumbi dos Palmares e o Racismo à Brasileira [Artigo
Superar o racismo não é apenas reparar os erros do passado, mas construir um futuro mais justo e igualitário. A memória de líderes como Zumbi dos Palmares, os versos de Castro Alves e as reflexões de Martiniano José da Silva nos convocam a agir.
Em uma recente viagem a Salvador, fotografei o monumento a Zumbi dos Palmares e me lembrei que, em 20 de novembro, o Brasil celebrará o heroísmo de Zumbi, símbolo da resistência negra e da luta contra a escravidão. A data, marcada como o Dia da Consciência Negra, nos convida a refletir sobre as feridas deixadas pelo passado escravocrata e as profundas desigualdades raciais que ainda persistem.
O verso de Castro Alves – “Orquestra é o mar que ruge pela proa e o vento que nas cordas assobia” – captura a trágica sonoridade das travessias nos navios negreiros. Publicado em 1869, Navio Negreiro é uma das mais potentes denúncias literárias contra a escravidão. O poema expõe a desumanização de africanos escravizados com imagens que contrastam a beleza da natureza com o horror humano.
“Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…”
Embora a escravidão tenha sido oficialmente abolida em 1888, seus efeitos permanecem vivos. A exclusão social dos descendentes de escravizados é evidente em favelas e comunidades marginalizadas, onde faltam saúde, educação e saneamento básico. A pirâmide social ainda reflete a herança colonial: no topo, descendentes das elites escravocratas; na base, afrodescendentes e indígenas.
Hoje, trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão são encontrados em setores como agricultura e construção civil. Essas práticas mostram como o racismo estrutural continua operando, reforçando a exclusão e a violência que atingem desproporcionalmente a população negra.
O escritor goiano Martiniano José da Silva, da Academia Goiana de Letras, traz reflexões essenciais sobre o tema em obras como Racismo à Brasileira e Quilombos do Brasil Central. Em Racismo à Brasileira, ele afirma:
“O racismo no Brasil não se manifesta em linhas abertas, mas em gestos, palavras e estruturas que separam o negro de direitos fundamentais. Ele não é um grito, mas um sussurro constante, que impede a plena cidadania.”
Martiniano desconstrói a ideia de democracia racial, revelando como o preconceito no Brasil se disfarça de cordialidade para perpetuar desigualdades. Já em Quilombos do Brasil Central, ele destaca o papel histórico e contemporâneo dos quilombos como espaços de resistência e inclusão.
“Os quilombos do Brasil Central não são apenas territórios de resistência histórica, mas também símbolos de um projeto de sociedade mais inclusivo. Eles carregam a memória da opressão, mas também da luta por igualdade e justiça.”
Essas reflexões dialogam com Navio Negreiro, em que Castro Alves denuncia a mercantilização de vidas humanas e o impacto devastador da escravidão. Enquanto o poeta dá voz ao horror do passado, Martiniano alerta para as formas sutis e persistentes de exclusão no presente.
A transformação social exige ações concretas: políticas públicas inclusivas, combate ao trabalho análogo à escravidão e maior representação de negros em posições de poder. Martiniano enfatiza que:
“Reconhecer o racismo à brasileira é o primeiro passo para superá-lo. É preciso mais do que celebrar datas como o Dia da Consciência Negra; é necessário romper com a estrutura que mantém as desigualdades e reconquistar os espaços que nos foram negados.”
Superar o racismo não é apenas reparar os erros do passado, mas construir um futuro mais justo e igualitário. A memória de líderes como Zumbi dos Palmares, os versos de Castro Alves e as reflexões de Martiniano José da Silva nos convocam a agir. Como ressalta o escritor goiano:
“Não há liberdade plena enquanto o Brasil não reconhecer que o racismo é sua ferida aberta, e apenas com coragem ela poderá ser curada.”
Abilio Wolney reside em Goiânia, é juiz de Direito, escritor, membro da Academia Goiana de Letras (AGL) e articulista do JORNAL CIDADE
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