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SABOR DA LEITURA
Dr. MARIANO PERES
01-01-2006 21:01:09
O JOGADOR (confira os capí­tulos atuais e os próximos que serão postados)

Nota da Redação (2): a obra O JOGADOR (abaixo) de autoria de Peres e ainda não lançada em livro, a partir da edição impressa 44 do JC, passa a ser publicada. Como a mesma ainda não foi ordenada (edição, checagem, revisão), também ganhará publicação por aqui, em partes. “Sinceramente, é um trabalho muito interessante”, costuma externar o escritor

O JOGADOR
Mariano Correia Peres
2005

CAPÍTULO I

Na frente da Igreja, o jovem padre procurava compensar a falta de experiência e a deficiência de sua oratória com o volume da voz. É o tal caso, quem não tem argumento, procura convencer na base do grito. Naquela manhã, último dia da festa de São Brás, a praça estava cheia. Gente da zona rural. Moças com seus vestidos coloridos, maltratando os pés dentro de sapatos apertados, espremendo os dedos e fazendo calos d’água; rapazes de lenço no pescoço, de botinas e chapéus novos, quase todos esquentados na cachaça. Concentrados nas poucas sombras existentes na praça, falsos mendigos, ao lado daqueles realmente necessitados, aproveitavam o último dia da romaria para extorquir dinheiro das pessoas caridosas. Nas barracas, vendas de pinga, e jogos de buzo, onde muitos pais de família perdiam todos os seus recursos e, de uma hora para outra, ficavam a nada. Começavam perdendo o dinheiro do bolso, depois passavam para o animal de sela, as vacas de leite, os porcos e, finalmente, as terras. Com a gamela do buzo viciada, o banqueiro Pedro Gamela fez a desgraça de muitas famílias. Para adoçar a boca de sua vítima, no começo, deixava ela ganhar. Ia dando corda. Depois que o pato estava bem entusiasmado, já fazendo os planos do que iria fazer com o monte de dinheiro que ganharia, o homem da banca começava a puxar a corda, encurtar o cabo do cabresto, lentamente. Jogadores eventuais, não profissionais, quando começavam a perder, iam aumentando o valor da aposta, na esperança de recuperar os prejuízos. Mas isso só fazia acelerar as perdas.
Joaquim Nania era um pequeno fazendeiro, dono de umas duzentas vacas de criar, que mantinha em terras devolutas, na beira do Rio Manabuiú, onde também plantava lavouras de subsistência, tais como milho, arroz e feijão. Em consórcio com o arroz e o milho, cultivava as miudezas que todo lavrador planta e que é de muita utilidade na alimentação: abóbora, quiabo, batata doce, inhame, cará e, na porta, uma horta com muita variedade de plantas. No terreiro, criava galinhas, porcos, cabritos, perus, patos e carneiros.
Para os padrões do lugar, Joaquim era um homem rico. Para quem partiu do nada, enfrentando o eito, no rabo da irara, ter todo esse patrimônio aos vinte e sete anos de idade, é êxito que poucos conseguem alcançar. Mas ele não conseguiu isso sozinho. Contou com a ajuda eficiente de sua mulher, Do Carmo, filha de um rico fazendeiro. No começo, Do Carmo pegava junto com ele, lado a lado, no eito. Mais tarde, quando a vida começou a melhorar, passou ajudar no planejamento dos negócios. De extraordinário tino comercial, seus palpites, sempre seguidos pelo marido, nunca falhavam. Era Do Carmo, pois, mais que braço direito do marido, era a cabeça pensante do casal. Por isso que, adquiridos alguns recursos, deslocaram suas atividades exclusivamente para os negócios. Comprovam e vendiam de tudo, desde que lhes sobrasse algum lucro.
Tudo dava certo na vida de Joaquim Nania, até que um dia conheceu o buzo na festa de São Brás, perdendo em uma única tarde tudo que havia juntado durante a vida.
Depois que assinou documentos transferindo todos os seus bens para o banqueiro, este tirou uma moeda e lhe entregou, dizendo: toma esta moeda. Compre uma corda para se enforcar.

CAPÍTULO II

Pobre de uma hora para outra, ao contrário do que seria de se imaginar, Joaquim Nania não se desesperou. Ficou preocupado como iria sustentar a mulher e os cinco filhos, dali para frente, mas encarou a situação com serenidade. De tudo que possuía, restou-lhe o dia e a noite. Viu-se despojado até da posse sobre a terra do governo. A casa de morada, as galinhas, o gado, cavalos, burros, bois de carro, cabritos, carneiros, porcos, perus, patos, cocás, tudo foi para as mãos do banqueiro de buzo. Tudo isso Joaquim aceitou com resignação, mas lhe ficou atravessado na goela o desaforo do banqueiro ao lhe oferecer a moeda para comprar uma corda e se enforcar. Isso ele não conseguiu perdoar.
Analisando calmamente os lances do jogo, principalmente aqueles em que fizera as maiores apostas, chegou à conclusão de que tinha sido vítima de uma maracutaia. Somente não sabia como o banqueiro fazia para as bolinhas caírem onde lhe fosse favorável. A partir dessa certeza, fez um propósito: desmascarar o jogador; descobrir e provar a fraude praticada por ele e, assim, recuperar os seus bens.

CAPÍTULO III

Estavam ali na Romaria de São Brás, seis banqueiros de buzo. Para começar a investigação, Joaquim Nania procurou seu amigo, Zé do Buzo, buscando informações que lhe pudessem dar alguma luz sobre o assunto. Pouco, quase nada conseguiu. Zé era um jogador correto. Na sua banca não havia fraude. O ganhar ou o perder era questão de sorte. Não sabia de nada que um banqueiro pudesse fazer para controlar as bolinhas, mas fez uma observação: todos donos de buzo usavam bolinhas de vidro, menos o Pedro Gamela, o que “tomou” os trem do Nania. Ele usava bolinhas de aço.
A festa acabou e todo mundo foi embora, pelo que Joaquim Nania não teve como continuar sua investigação. Mas haveria uma outra festa, ali na região, no Povoado da Lagoa, no mês seguinte e ele decidiu que iria lá continuar a investigação. Por enquanto, tinha uma informação sobre o material das bolinhas, e estava convencido de que ali estava o segredo da fraude.
Morava em Lagamar, cidade localizada a pequena distância de São Brás, um carpinteiro que de tudo sabia um pouco. Era, na verdade, um sábio respeitado por toda a população da cidade e da região; todos o conheciam por Massu, não sabendo se esse era seu nome verdadeiro; sabia-se que era baiano; que conhecia o Brasil inteiro e que não havia justificativa para um homem tão sabido ir morar naquele oco de mundo. Sua casa era cheia de livros por toda banda e ele passava mais tempo lendo que trabalhando. Gastava boa parte de seu tempo, também, atendendo o povo sobre os mais variados assuntos: um casal de namorados querendo saber qual o melhor dia para se casarem; uma costureira pedindo que lhe consertasse a máquina; um pai pedindo conselho sobre se devia ou não permitir o namoro da filha com um certo rapaz; um fazendeiro querendo saber como resolver os problemas de divisa com seu vizinho. A todos atendia com prazer e apontava uma solução.
Joaquim Nania também procurou Massu e contou-lhe sua história tintim por tintim, pedindo que lhe apontasse um caminho.
Massu, pegou numa gaveta, uma esfera de aço e pediu uma bolinha de gude emprestada a um menino que brincava na rua, em frente a sua casa. O garoto estava com o bolso cheio de bolinhas. Massu escolheu uma do tamanho da esfera de aço, resto de algum rolamento de caminhão. Pegou na carpintaria uma tábua de pinho bem fina e um ímã que usava para ajuntar pregos na oficina e disse: olha aqui seu Joaquim. Aproximou o ímã da esfera de aço e ela pulou nele. Em seguida, aproximou o mesmo ímã da bolinha de vidro e nada aconteceu. Colocou a bolinha de aço sobre a tábua e o ímã na outra face. Na medida em que ele movimentava o ímã a esfera se movia, acompanhando o movimento. Encerrou a entrevista dizendo: está aí seu Joaquim, porque o Pedro Gamela utiliza bolinhas de aço e como elas obedecem a sua vontade. Descobrir o mecanismo que ele usa para movimentar o ímã e controlar as bolinhas sem que outras pessoas o percebam, é tarefa do Senhor.

CAPÍTULO IV

Para ter liberdade de ação e porque momentaneamente estava sem os meios necessários para manter a família, Joaquim Nania levou a mulher e os filhos para a casa do sogro, que era um fazendeiro rico, dono de milhares de cabeças de gado, pelo que esse encargo a mais em nada lhe pesaria. Nania pediu ao sogro que cuidasse de sua família enquanto ele ia atrás do Pedro Gamela para resolver, de uma vez por todas, aquele problema da fraude e do “roubo” de seus bens. Deixe minha filha e meus netos comigo o tempo que for preciso. Aqui não lhes vai faltar nada, disse o velho. Tomou emprestado do sogro um excelente cavalo de sela, bem arreado; um revólver trinta e oito, mira especial e tudo mais necessário a uma viagem a cavalo. A mulher preparou-lhe uma lata de paçoca de carne seca, matula suficiente para uma semana. Colocou, também, numa capanga, uma rapadura e dois litros de farinha de mandioca, pendurando tudo na cabeça do arreio.
Devidamente equipado, Joaquim Nania parte em busca da festa onde deveria estar toda a caterva da jogatina, dos falsos mendigos, enfim, a súcia de exploradores da gente humilde e ingênua que compunha a grande multidão dos romeiros de então. Na festa, não foi difícil encontrar a banca de buzo de Pedro Gamela, a única dotada de luz elétrica, num povoado onde toda iluminação era a querosene.
Joaquim Nania se postou num tamborete ao lado da gamela de jogo, observando pacientemente todos os movimentos do banqueiro. Se alguém lhe perguntava se queria fazer uma “fezinha”, respondia negativamente. A presença de Nania ali junto à banca, incomodava muito a Pedro Gamela, porque muita gente sabia da sua história e, por isso não jogava, para não entrar na mesma canoa furada que ele entrou, principalmente os fazendeiros mais abastados que interessavam ao banqueiro. Esses, todos conheciam Joaquim e sabiam da sua trágica história. Poderiam até estarem de plano a se divertirem um pouco no jogo, mas quando o viam ali, desistiam.
Durante três dias Joaquim Nania se manteve vigilante, atento a qualquer movimento do jogador que pudesse lhe dar uma pista de como era executada a fraude, mas não conseguiu nada. Uma, porque com a presença dele ali o Pedro não arriscava fraudar o jogo, outra, porque a fraude era por um intrincado e engenhoso processo de eletrodinâmica, envolvendo o emprego de eletroímãs, algo absolutamente fora do alcance dos precários conhecimentos de nosso herói. Contudo, era ele um homem muito inteligente, de forma que concluiu, depois de muita observação, que a fraude estava relacionada com os fios que vinham do conjunto gerador, passavam pelo fundo do gamelão e ascendiam quatro lâmpadas que proporcionavam ao ambiente ótima iluminação. De noite era quase a mesma coisa de estar de dia. Um detalhe que Joaquim Nania se lembrou e que pareceu que devia ser levado ao conhecimento de Massu, foi que naquele dia que ele estava jogando e perdendo, o motor estava ligado, embora estivesse de dia, com o Sol quente.

CAPÍTULO V

Com esses poucos fragmentos de informação, Joaquim Nania voltou à casa de Massu. O carpinteiro ouviu atentamente as poucas descobertas de Nania e depois de alguns segundos de reflexão, disse:
- Muito bem, seu Joaquim, a presença da energia elétrica no fundo do gamelão mostra que os ímãs utilizados pelo Sr. Gamela são os chamados eletroímãs. Como os eletroímãs podem ser ativados e desativados à distância, em outras palavras, podem ser controlados remotamente, comutando a corrente elétrica, fica muito mais fácil executar a fraude. A gamela pode ter fundo duplo para ocultar os eletroímãs que devem ser vários, colocados estrategicamente no caminho das bolinhas, sendo acionado, cada um deles no momento oportuno, desviando as esferas, de acordo com a conveniência do jogador.
Nania não entendeu nada. Massu explicou, didaticamente, com exemplos práticos, até ele entender.  
Confirmadas suas suspeitas pelo carpinteiro Massu, Joaquim Nania voltou à romaria onde deixara o banqueiro Gamela. Embora já estivesse acabado a festa, o jogador permaneceu no local, uma vez que andava muito preguiçoso depois de haver ganho “os trem” do Nania, além disso, a próxima festa onde ele poderia instalar a sua ladroeira ainda ia demorar uns trinta dias, o que justificava seu atraso para levantar acampamento. Jogador de profissão, sua morada era debaixo daquela barraca, de festa em festa. Onde houvesse gente reunida, lá estava o Gamela com sua ratoeira armada, pronto a dar o bote nos incautos. Portanto deveria continuar por ali mais uns dias, ocasião que aproveitaria para vender “os trem” que havia ganhado do Nania.
Nania chegou a Lagoa pela volta do meio dia e decidiu aproveitar a tarde e a noite para descansar, uma vez que pretendia estar bem disposto no dia seguinte, para tentar uma negociação com Pedro Gamela. Lavou o cavalo, deu-lhe uma boa ração e soltou-o no pasto alugado ali a uns 300 metros do local onde arranchara.
Arranchado no barracão do negociante Zé Ubaldo, seu amigo de muitos anos, que tinha, ao lado de seu bem sortido armazém de secos e molhados, esse barracão exclusivamente para arranchar os fregueses que vinham ao comércio e ficavam de pouso. 
O que o comerciante Ubaldo oferecia a seus fregueses era apenas o espaço, que abrigava os arranchados do Sol, da chuva e do frio. Não existia ali nenhum móvel. Nania escolheu um canto do barracão, pendurou a sela num gancho feito da pata de veado, estendeu no chão os baixeiros, colocando a enxerga por cima e, sobre a enxerga um pelego grande e vermelho que ali lhe serviria de colchão. Dobrou o coxonilho, fazendo dele o travesseiro. A coberta seria a capa “Ideal” que deixou pendurada ao lado dos arreios, no já referido gancho de pé de veado. No caminho, indo para o riacho tomar banho, passou numa venda e tomou uma boa talagada da branquinha de alambique, com limão.
Banhado, trocado de roupa, comeu uns dois punhados da farofa de carne seca que lhe fora preparada pela mulher, avaliou o quanto ainda lhe restava de matula, observou que incluindo a farinha e a rapadura, ainda dava para mais de uma semana. Se precisasse reforçaria suas provisões com mais rapadura e farinha que poderia adquirir no armazém do Zé Ubaldo. Quando se preparava para deitar, ouviu ao longe um toque de sanfona e pandeiro, o que lhe ascendeu uma vontade danada de dançar. A música era uma valsa antiga e muito popular na época: Saudade do Matão. Tentou resistir à vontade de valsar um pouco, mas a música bonita lhe trazia belas recordações da juventude, além disso, essa era um boa oportunidade de se encostar naquelas bonitas e perfumadas mulheres que tinham vindo da cidade para a romaria, mas ponderou consigo mesmo: eu não tenho dinheiro para gastar com essas mulheres e elas devem cobrar uma fortuna; já basta o que me aprontou o Pedro Gamela. Por falar em Gamela, mal sabia nosso herói que também esse lado, o da prostituição, era explorado pelo jogador e que boa parte daquelas mulheres que estavam no cabaré da romaria tinham sido trazidas por ele, que lhes dava transporte, hospedagem e, em troca, ficava com metade do que elas ganhavam.
Nania deitou sobre o pelego, mas o toque da sanfona continuou insistente em seus ouvidos, como a convidá-lo para a dança com as mulheres bonitas e cheirosas vindas da cidade, tão diferentes da sua Do Carmo, que tomava banho uma vez por semana e estava constantemente com cheiro de suor e outros odores impublicáveis. Joaquim Nania ficou num dilema: de um lado, o apelo da música e, do outro, a sua consciência.

CAPÍTULO VI

Maria Santa Clara ou simplesmente Santinha, como era chamada desde criança, era uma loura de estatura mediana, linda de rosto e de formas perfeitas, “com tudo em seus devidos lugares”, tanto no que diz respeito à firmeza quanto à proporcionalidade. Era beleza para homem nenhum botar defeito.
Vinda do Estado do Maranhão, ainda na adolescência, com sua mãe, Dona Antônia Santa Clara, fugindo da miséria que as perseguia na terra natal, viajaram de carona, em carroçaria de caminhão, pela poeirenta e esburacada Belém Brasília. Iniciaram a longa viagem na cabina de uma carreta, mas tiveram que descer do carro no meio do percurso, ante as insistentes investidas do chofer às belas pernas de Santinha. Depois dessa experiência, só aceitaram carona na carroçaria, bem longe do condutor.
Passando fome e sede, comendo poeira desde a cidade de Imperatriz, conseguiram chegar a Goiânia, onde se esgotaram todos os seus recursos financeiros. Imaginando que com alguns dias na capital goiana pudessem conseguir algum emprego e, depois, prosseguirem até seu destino final, que era São Paulo, o já esperado esgotamento do dinheiro, de início, não lhes causou grande preocupação.
Decididas, palmilharam rua por rua da Vila Nova e do Setor Universitário, batendo de porta em porta, a procura de trabalho (qualquer coisa: arrumar casa, lavar roupa, fazer faxina...),  não conseguindo absolutamente nada. As donas de casa as viam com desconfiança. Uma mulher jovem e uma quase menina, ambas muito bonitas, relativamente bem vestidas e, ainda, com sotaque diferente, pensavam as desconfiadas donas de casa: “Esses trem quer é roubar de nós. ‘Umas mulher’ bonita desse jeito, se não roubar nada, rouba o marido e os filho da gente... Eu ‘hem!’”
Convencidas de que seria impossível encontrar trabalho, entraram numa lanchonete e gastaram os últimos centavos. Cada uma comeu um pão e tomou um copo de leite. Ficamos a zero, mas, pelo menos, estamos momentaneamente alimentadas, pensou Dona Antônia.
 Perguntando aqui e ali, chegaram à Estação Rodoviária, ao lado do Lago das Rosas, no prédio que depois veio a abrigar o Corpo de Bombeiros.
Final de maio para início de junho, o clima naquela região da cidade, à noite, é bastante frio, talvez pela proximidade do córrego e do Lago das Rosas.  Vindas de uma das regiões mais quentes do País, nossas heroínas se sentiam demasiadamente maltratadas pelo frio. Para amenizar, ainda que minimamente, a baixa temperatura, misturavam-se à multidão ou se deitavam sob a plataforma, bem unidas, aquecendo uma a outra, embrulhada numa coberta “sete semanas” que logo, logo perdeu a cor para a sujeira acumulada. Ninguém ligava para aquelas duas criaturas encolhidas à beira da parede, e muitos, das centenas de passageiros que embarcavam e desembarcavam todas as noites, acabavam, inadvertidamente, pisando nelas.
Desde que Santinha completou doze anos, Dona Antonia redobrou seus cuidados com ela, preocupada com a extraordinária beleza que começava a despontar naquele corpinho ainda frágil. Sabia a mãe, por experiência própria, que as moças bonitas que pela necessidade se viam na contingência de servirem como empregadas em casas de família, acabavam seduzidas pelos filhos da patroa, reservando-lhes, a sociedade, um único destino: a prostituição. Não era isso o que Dona Antônia queria para sua filha. Sonhava com uma Santinha atriz de cinema, tal qual Tônia Carreiro, brilhando nas telas, de norte a sul do País.
Para que nada faltasse à filha e para que um dia pudesse levá-la para São Paulo, onde pensava poder realizar seu sonho de mãe, dava duro de segunda a segunda, lavando e passando roupa para as famílias de sua cidade, Imperatriz.
Esta viagem a que foram obrigadas a fazer, fugindo da humilhante situação de pobreza em que viviam em Imperatriz, poderia ser o começo do futuro de Santinha.  Sonhavam chegar a São Paulo, encontrar emprego para ambas. Santinha iria para escola, faria um curso de artes cênicas e, assim, realizariam o sonho de mãe e filha.  Há males que vêm pra bem, dizia a coroa para si mesma, em seus devaneios, nas carroçarias dos caminhões, na monotonia das paisagens dos cerrados castigados pela poeira vermelha da rodovia sem asfalto. Não fosse esta situação tão aperreada, a gente morreria em Imperatriz, como morreram meus pais, a míngua, atacados de febre braba.

CAPÍTULO VII

Dormindo sob a plataforma da Estação Rodoviária, fustigada pelo frio e pelo desconforto de dormir no chão forrado apenas com jornal, dona Antonia varava noite pensando em seu passado e no futuro da filha. Para si não almejava nada. Chorava muito ao recordar que sempre trabalhara honesta e duramente para não ver a filha no mau caminho e, agora, naquela penúria... Deus haveria de apontar um caminho.
Sempre juntas, tentaram, primeiramente, a solidariedade das famílias goianas, mas em dois dias de peregrinação implorando de porta em porta, não conseguiram sequer o suficiente para um prato de comida. O que ganhou Dona Antônia foi apenas muito cansaço no corpo já maltratado pela fome. Afora isso, somente uma queimadura na sola do pé esquerdo, resultado duma pisada em cima de um toco de cigarro que, por azar, acertou bem no buraco da sola do sapato. Santinha, nem isso, graças a Deus.
Frustrado o apelo à solidariedade, experimentaram a mendicância. Essa nova experiência foi pior que as outras, além de não conseguirem absolutamente nada, ainda tiveram de aturar abusos e xingamentos das pessoas a quem se animavam a pedir. Foi então que descobriram que um homem perante outro homem não vale o que é, mas o que possui de cabedais.
Depois de tanto sofrimento físico, veio o sofrimento moral. Para não morrer de fome, só lhes restava uma solução. Caminho que Dona Antônia nunca quis, embora por muitas e muitas vezes lhe tenha sido sugerido por pessoas e pela necessidade material, mas que ela sempre resistira com bravura. Repudiava com todas as suas forças a idéia de sucumbir-se a tal infâmia.

CAPÍTULO VIII

Pedro Gamela foi um dos primeiros a chegar a Trindade para a romaria. Veio para jogar e também para iniciar uma nova atividade que naquele momento se apresentava mais rendosa e muito mais segura que o jogo de buzo, segundo lhe informaram vários amigos e colegas donos de buzos que estavam mudando de atividade. Esse novo empreendimento, alvo da ambição de Gamela, era uma atividade proibida, a cuja prática a lei cominava e ainda hoje comina pena de reclusão. Pedro Gamela, assim como seus amigos, confiava na impunidade que se comprava, naquele tempo, subornando a polícia. Hoje, decorridos mais de sessenta anos desde a aprovação da lei, a tal atividade continua proliferando sem que haja notícia de qualquer punição aos criminosos.
Informadas da romaria de Trindade e do tanto de gente que a ela acorria, Dona Antônia anteviu a possibilidade de encontrar naquela festa uma solução, ainda que passageira, para os problemas que mais as afligiam naquele momento: fome e falta de abrigo. Ali poderiam, com alguma sorte, encontrar alguém que lhes desse uma carona para uma cidade pequena, onde, com certeza lhes seria mais fácil conseguir a sobrevivência.
As duas se misturaram aos milhares de romeiros que entupiam a Rodovia da Fé (Goiânia-Trindade) e ainda tiveram a sorte de tomar um lanche de graça, daqueles que muita gente oferece aos romeiros que fazem aquele percurso a pé.
Percorrendo as “ruas” que se formavam entre os acampamentos de romeiros, ouviu alguém gritar: “Ribamar, vem cá menino. Vem comer a tapioca antes de sair, se não vai passar fome por aí.” Ela chamou Santinha e disse: filha, eu conheço aquela voz e aquele sotaque é de gente do Maranhão. Foi até a barraca de lona de onde havia saído a voz:
- Comadre Nestina, que milagre encontrar a senhora aqui.
Dona Nestina, virou espantada para o rumo de onde veio a voz que a chamava de comadre, demorando alguns segundos para reconhecer a pessoa.
- Comadre Tunica. É a senhora mesma. Quê que a senhora tá fazendo aqui em Goiás? Essa moça assim tão bonita é Santinha, minha afilhada!... Vem cá, meu amor. Dá cá um abraço e um beijo na madrinha!... Comadre Tunica, a senhora vai me contar como é que andam as coisas lá em Imperatriz. Há muito tempo que não tenho notícias de lá. Ah... comadre, como tenho saudade daquele tempo...
- Vou contar tudo que se passou por lá desde quando a senhora mudou, até o mês passado, quando saímos de viagem, mas antes disso estamos, eu e Santinha precisando de comer alguma coisa. Há três dias que, a bem dizer, não comemos nada. Se não estamos em jejum absoluto nesses três dias foi porque ontem o dono de uma lanchonete na rodoviária de Goiânia nos deu um pão amanhecido e nós o repartimos. Comi metade e Santinha, metade, e hoje, na vinda para Trindade, ganhamos um pequeno lanche na estrada.
- Comadre Tunica, quê que tá acontecendo com a senhora e minha afilhada? Me conte, pelo amor de Deus, enquanto preparo um lanche para vocês.

CAPÍTULO IX

Em menos de dois minutos as viajantes viram diante de seus olhos um bule de café e uma bandeja repleta de beiju de tapioca, que as duas comeram com sofreguidão. Enquanto comiam, Tunica relatava sua triste história à comadre. Ao terminar o relato, as três choraram abraçadas. Santinha ajoelhou-se ao chão, levantou seus lindos olhos verdes para o céu e disse: Meu Jesus, muito obrigada por nos ter dado a madrinha Nestina; muito obrigada, também, pelo pão que acaba de nos conceder. Fez o sinal-da-cruz, sentou-se a uma cadeira, escondeu o rosto entre os joelhos e chorou copiosamente.
Enquanto isso, Pedro Gamela vai à igreja, percorre as ruas e becos de Trindade e espia os acampamentos, procurando o que precisa para seu novo empreendimento. Para uma procura eficiente, precisava de liberdade total, não poderia ficar preso ao trabalho, esfregando o umbigo na beira do gamelão do buzo. Para isso, contratou um empregado para tomar conta de sua banca de jogo. A tampa e o balaio. O empregado era tão desonesto quanto o patrão, carecendo a Gamela manter os olhos bem abertos para não ser roubado por ele, fazendo-lhe, inclusive, séria advertência:
- OIha aqui, Mão Ligeira, enquanto você estiver trabalhando comigo, mantenha essas suas mãos sujas longe das carteiras alheias. Não quero complicação com a polícia e se eu souber que furtou de alguém, entrego você, na hora. Quanto a meu dinheiro do jogo, disse o patrão: estou de olho aberto. Se me passar para trás, faço com você o mesmo que fiz com aquele outro que você sabe muito bem.

CAPÍTULO X

Nestina convidou a comadre e a afilhada para ficarem com ela em seu acampamento. Tinha rede para todo mundo e a comida não haveria de lhes faltar. Esse gesto de solidariedade de Nestina agradou a Deusdete, seu marido, que tinha uma certa queda pela comadre, desde a adolescência, embora ela nunca lhe houvesse dado bola. O filho (único) do casal, o Manoel, esse ficou mais que contente, ficou entusiasmado com a presença da afilhada de seus pais, vendo no fato oportunidade de desfilar durante toda a romaria com uma linda garota, o que, com certeza, ia fazer inveja a muito marmanjo.

CAPÍTULO XI

Eram visíveis os sinais exteriores de riqueza que ostentava a família do compadre Deusdete, pelos bens que havia na barraca, tais como uma camioneta Pickup diesel, cabina dupla original, móveis de primeira qualidade, eletrodomésticos, um caminhão baú usado para transportar os móveis para a festa. Até um guarda particular que ficava ali dia e noite, de butucas arregaladas.
Comadre Nestina ofereceu-lhes trabalho de domésticas em sua casa, mesmo um tanto constrangida por serem elas suas hóspedes naquele momento, o que a seu ver era uma grosseria, mas em face da situação em que ambas se achavam, entendeu que essa seria a melhor atitude a favor delas. Para amenizar esse constrangimento, ofereceu o dobro do salário mínimo então vigente. Claro que aceitaram como um presente, e ficaram rindo de orelha a orelha, tal o contentamento pelos empregos. Até porque, quatro salários mínimos por mês era dinheiro que elas nunca tinham ganhado. Comadre Nestina determinou que os empregos de ambas começavam a contar a partir daquele dia, isso somente para ajudá-las, porquanto ela já tinha duas outras empregadas servindo na barraca.
De então para frente, Dona Antônia dormiu tranqüila, sem entretanto, desistir da idéia de ir para São Paulo e concretizar o sonho de fazer de Santinha uma artista de cinema.
Terminada a festa da Trindade, Tunica e Santinha voltaram para Goiânia com a comadre Nestina e se encantaram com a casa dela no Setor Marista. Nunca antes tinham visto uma casa tão grande e tão bonita. Isso aqui não é uma casa, é um palácio, pensava Santinha. Quando eu for artista de cinema, quero uma igualzinha.  Em Imperatriz, a comadre já era considerada rica, mas muito longe da riqueza que apresentava em Goiânia. Deusdete, sempre ocupado com suas fazendas de criação de gado de corte lá para as margens do Araguaia, quase não parava em casa, viajando constantemente para a cidade de Britânia, onde se situava uma de suas fazendas. As outras três também se localizavam na vizinhança do Lago dos Tigres, de sorte que em casa ficavam somente Dona Nestina e o Manoel, este estudando Direito na UFG e, no mais, os serviçais da casa: as duas empregadas e um guarda uniformizado, com um enorme trabuco na cintura, gravata e boné de soldado, tudo impecavelmente limpo, inclusive os coturnos sempre bem polidos.

CAPÍTULO XII

Com a tranqüilidade obtida pelos empregos, Tunica e Santinha, aproveitando as folgas semanais, adquiriam o hábito de passear pela cidade, principalmente na Praça Cívica onde iam apreciar a beleza dos milhares de pombos ali reunidos ou iam ao Parque Mutirama, onde passavam boa parte das tardes de folga apreciando os brinquedos, fazendo nada, vendo gente ou comendo guloseimas à sombra aconchegante das nativas e centenárias árvores que adornam o parque.
Antes, naqueles dias de sufoco e de fome, não viam nem mesmo a beleza das dezenas de praças bem cuidadas e das belas avenidas da jovem capital goiana. Tudo de belo se ocultava atrás dos aborrecimentos, das preocupações... Somente lágrimas, lamentos e incertezas se lhes apresentavam. Tunica, em momentos de desespero, associando seu infortúnio ao lugar, chegava a comparar a cidade como uma sucursal do inferno.
Naqueles dias de serenidade, uma única coisa aborrecia mãe e filha: era a insistência de Manoel, filho da comadre Nestina, em namorar Santinha. Ela já havia recusado todos os seus convites para irem a uma lanchonete, ao cinema, a passeios de carro, mas ele não desistia. Oferecia-lhe presentes caros, cobria-a de atenções, mas ela se mantinha firme em sua decisão de não namorar o filho da patroa-madrinha, lembrando os conselhos de sua mãe que dizia, quando tinha de dez para doze anos: moças que namoram filhos de patroas têm todas o mesmo destino: a rua das mulheres damas. Por isso, Santinha, embora embevecida com a beleza máscula de Manoel e pelo ronco do motor de seu carrão importado, mantinha-se firme na defensiva. Mas, como dizem, nessas questões de amor, vale a regra daquela antiga marcha carnavalesca que diz: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.

CAPÍTULO XIII

Acabou a festa e Pedro Gamela permaneceu em Trindade, tendo enviado seu empregado Mão Ligeira para bancar o jogo na Romaria de Muquém, para a qual ainda faltavam quase dois meses.  Muquém distava mais de quatrocentos quilômetros de Trindade por péssimas estradas de terra batida. Ele próprio iria para Goiânia, onde continuaria sua pesquisa buscando o que precisava para o seu novo empreendimento - como ele chamava a tramóia que estava planejando. Estávamos na primeira quinzena de junho e ele, Gamela, pretendia bancar o jogo de buzo na Romaria de Abadiânia, que ocorreria na primeira quinzena de agosto, ao mesmo tempo da de Muquém, portanto ainda tinha ele uns dois meses para continuar sua busca.
Mas afinal de contas que tramóia seria essa que Pedro Gamela pretendia empreender e o que era que andava buscando para levar avante seu projeto? Calma, vou contar. Espera aí, sô... não me afobe não, se não eu misturo os trem tudo...
Nada de complicação. O projeto de Gamela era algo muito simples. Tramóia criminosa, verdade, mas fácil de ser executada. O que ele queria era explorar mulheres; prostitutas que dividissem com ele os lucros da profissão. Para isso, ele estava recrutando jovens bonitas, prometendo-lhes empregos honestos e bem remunerados.

CAPÍTULO XIV

Você que está se dando ao trabalho de ler essa história do Joaquim Nania deve estar pensado que diabo ele estará aprontando no barracão do comerciante Zé Ubaldo. Será que ele atendeu ao chamado do toque da sanfona e foi se divertir com moças do cabaré ou terá ficado quieto, no seu canto, dormindo sossegado? Isso nós vamos ver daqui a pouco. Por enquanto vamos esclarecer que esses casos de Goiás ocorreram dois anos antes do Pedro Gamela   tomar "os trem" do Nania.
Joaquim Nania tampava os ouvidos com as palmas das mãos para não ouvir o toque da sanfona e, assim, apagar aquela comichão na sola dos pés empurrando-o para o salão de dança do cabaré, mas era baixo... Quanto mais procurava olvidar a música, mais ela penetrava suas entranhas, mexendo no fundo de sua alma, no âmago do seu sentimento, montando-lhe uma vontade louca de dançar com aquelas moças bonitas e cheirosas do cabaré, abraçá-las e, se possível, outras coisas mais avançadas. Destampou sua meia de pinga calcinada com xarope de groselha, virou o fundo dela para cima, empurrando metade goela abaixo. O líquido desceu macio e, se não fosse uma propaganda de cerveja que anda a maltratar-me os ouvidos a todo instante, eu diria: desceu redondo, provocando uma deliciosa sensação de calor ao assentar-se no fundo do bucho. A bebida surtiu efeito contrário ao que esperava. Pensou Nania que com a pinga, viria o sono e desapareceria aquela tinha danada que o puxava com tanta força para o "o antro de pecado" como costumava dizer seu sogro. Mas, contrariando sua expectativa, depois da pinga a comichão da sola dos pés e a tinha pela dançar dobraram e redobraram.

CAPÍTULO XV

Quando pisou no salão de dança, embora fosse uma sala rústica, iluminada por lampiões a querosene de camisa incandescente, conhecidos por “aladim”, Nania ficou deslumbrado, com o luxo do lugar, e mais ainda com a beleza das mulheres.
O que mais chamou-lhe a atenção foi uma moça de dezessete anos, trajando saia justa de linho amarela, blusa branca confeccionada em cambraia de linho, mangas compridas; usando maquiagem discreta, com uma basta cabeleira loira, esparramada pelas costas. Nos olhos, um olhar profundo e triste e um certo ar de infelicidade. Não tinha a vulgaridade das prostitutas comuns, até pelo contrário, ostentava porte altivo, com elegância. Moderada no beber e discreta no modo de falar, quem a observasse com atenção viria nela uma bela moça de família. Esses predicados encantaram sobremaneira a Joaquim Nania que, olhando-a, esqueceu-se do toque da sanfona e da dança. Não via, nem ouvia nada que não viesse daquela moça.
Nania sentou-se a uma mesa encostada à parede, onde sentou-se, também, logo em seguida, um seu conhecido, morador do lugar. Nania não perdeu tempo. Perguntou a seu companheiro de mesa quem era aquela linda moça, recebendo uma resposta surpreendente. Disse-lhe seu interlocutor que aquela loira de fechar o comércio era uma espécie de escrava de Pedro Gamela, aquele mesmo que lhe havia roubado todos “os seus trem”. Falou no diabo, o trem ruim aparece, disse Nania. Olha ele aí.
De fato Pedro Gamela acabava de entrar no salão e se dirigia diretamente àquela moça, conduzindo na mão direita um chicote, sobre o qual o colega de mesa fez uma estranha revelação. Por conhecimento próprio, porquanto presenciara, vendo com seus próprios olhos, o Gamela usava aquele chicote para castigar as mulheres que trabalhavam sob suas ordens, inclusive a loira com quem ele acabava de entrar no quarto. Mal ele fechou a boca ouviu-se o grito de dor da mulher. Nania ao ouvir aquele grito, saltou no meio do salão como se fosse impulsionado por uma mola. Mais dois saltos e arrebentou a porta do quarto, penetrando-o como um furacão. Na mão direita, o trinta e oito pronto a cuspir a morte. Surpreso com a intrusão, Gamela, tremendo como uma vara verde, disse que estava castigando “aquela vagabunda” porque ela não o estava obedecendo. Quando ele levantou o chicote para continuar o castigo, Nania deu um berro: pára “seu fedaputa”; quando Gamela abriu a boca para responder, Nania meteu-lhe o revolver boca adentro, quebrando um punhado de dentes, dizendo-lhe com aparente calma: se você descer esse chicote eu puxo o gatilho. Gamela ouviu com pavor o clique da arma, ao ser puxado o cão, “ismulengando-se” no chão, como um saco de batata.
Nania pegou delicadamente a moça pela mão e a conduziu ao salão onde se sentaram a uma mesa para conversar.

CAPÍTULO XVI

A loira bonita, não era outra senão a Santinha que nós ficamos conhecendo em Goiás. Ela contou resumidamente a seu salvador toda sua história, desde a saída do Estado do Maranhão até chegar aos cabarés, enganada pelo seu ardiloso senhor. Não lhe foi possível terminar o relato sobre como foi embromada pelo Gamela, porque, quando ia começar, ele apareceu com um baita dum revólver na mão procurando pelo homem que havia socorrido a moça em quem ele batia, o qual ele não reconheceu tamanho era o seu pavor. Querendo aparecer, ameaçava: quem foi o bom que se intrometeu no meu trabalho de correção daquela vadia. Apareça que eu quero meter-lhe uma bala no meio da testa. Alguém gritou: foi o Joaquim Nania, olha ele aí... Quando Gamela apontou a arma para o Nania e acionou o gatilho, ele pulou de lado, deitando-se ao chão ao tempo em que sacou o revólver, em autêntico estilo faroeste, fazendo um único disparo. Gamela ainda permaneceu em pé, com os olhos esbugalhados, por uma fração de segundo, parece que duvidando do que havia acontecido. Em seguida estatelou que nem uma jaca madura.
Os presentes ficaram impressionados com a pontaria de Joaquim Nania. Igualzinho a artista de filme faroeste, comentavam.
Sangue esguichando do alto da cabeça, necessitando de socorro médico, chamaram urgentemente o farmacêutico do povoado, que médico não havia no lugar, mas antes que o boticário chegasse o paciente voltou do desmaio. Lavado o sangue com água e sabão, descobriu-se que ele não havia sido atingido por bala, mas por um outro objeto, provavelmente uma pedra. Foi então que alguém olhou para cima e viu que faltava uma telha e que no chão estavam os pedaços da telha quebrada e uma pedra de uns dois quilos aproximadamente.
De fato, o projétil passou a metros do alvo, indo atingir o telhado a uns três metros acima da cabeça do agressor. A bala espatifou uma telha e, juntamente com os cacos, caiu também a pedra que acertou o cocuruto de Gamela, bem no alto da sinagoga. Por isso que entre o estampido e a queda de Gamela demorou uma fração de segundo.

CAPÍTULO XVII

Como o leitor deve se lembrar, Nania havia programado um acerto com Pedro Gamela no dia seguinte àquele em que aportara em Lagoa, mas com o incidente do cabaré possivelmente tivesse que mudar sua programação, deixando o acerto para outro dia. Pesou as condições favoráveis e as contrárias e optou pelo acerto naquele dia mesmo.
Nania se levantou cedo, como era de seu costume, buscou o cavalo no pasto, embora não distasse mais de duzentos metros desde o barracão onde se hospedava até a barraca de Pedro Gamela, nosso antes próspero fazendeiro preferiu ir montado, para o caso de eventual fuga às pressas, embora essa possibilidade estivesse fora de suas cogitações, até porque Santinha havia entrado em sua vida e ao que parecia, para não sair mais, e uma fuga assim apressada, seria, o fim de um romance que sequer havia começado. Por isso, antes de ir à barraca do Gamela, foi ao cabaré falar com Santinha. Ela estava dormindo, mas ele insistiu tanto que cafetina, contrariando seus princípios, acabou por acordá-la. Nania sentou-se num tamborete com tampo de couro de boi, e ficou aguardando "a bela adormecida". Cinco minutos depois, lá vem ela com cara de sono, cabelos desalinhados, sem maquiagem, mas nem por isso menos bela.
- Que que o senhor deseja, Sr. Nania?
- Sobre nossa conversa de ontem à noite. Vou fazer um acerto hoje com o Gamela e é bem capaz que eu precise sair daqui fugido. Num quero isso não, mas tudo pode acontecer. E se eu tiver de sair correndo queria que você fosse comigo.
- Para onde o senhor pretende ir?
- Norte de Goiás.
- Se o senhor for para Uruaçu eu vou com o senhor. Quando vim de Goiânia, minha mãe foi para aquela cidade e eu estou com muita saudade.
- É justamente para onde pretendo viajar, se for preciso. Tenho um amigo morando num lugar chamado Coqueiro de Galho, no Município de Uruaçu. Esse lugar fica a umas quinze légua da cidade. Ele me escreveu uma carta dizendo que a terra lá é muito boa e tem muita terra de graça para quem quiser e tiver coragem de trabalhar. Ele é um dos chefes dos posseiros de lá.
- Pois então, eu vou com o senhor.
- Senhor, não, você. Dagora em diante quero ser seu marido seu "marido". Deixa seus trem arrumado, só trem maneiro, porque hoje você viaja na garupa do Fronteiro. Até a fazenda do meu sogro. Lá eu arranjo um cavalo só para você.
Disse isso, montou o Fronteiro e se dirigiu à barraca do Gamela.

CAPÍTULO XVIII

Na barraca do Gamela, algumas pessoas em torno do buzo, umas jogando outras "sapeando". As luzes ligadas, indícios de que estava havendo fraude no jogo. Nania cumprimentou a todos e pediu para falar em particular com o dono da banca. Este recusou. Não queria falar com o chegante, alegando que não tinha nada em particular para tratar com ele. Nania retrocou, travando entre ambos o seguinte diálogo:
- Quero falar com você sobre "os trem" que você me roubou e todo mundo aqui sabe do caso.
- Nunca roubei nada de ninguém e é bom você se escafeder daqui, antes que as coisas fiquem pretas para o seu lado.
- Roubou, sim. Seu buzo tá viciado. As bolinhas caem onde você quer. Tem aí um fundo falso cheio de eletroímãs, controlados pelo Mão Ligeira lá do fundo da barraca.
Os jogadores que estavam perdendo naquele momento foram até o fundo da barraca e constataram que, realmente, o Mão Ligeira fazia dali o controle das bolinhas. Os jogadores lesados, uns dez, naquele momento, caíram em cima do fraudador, de pau, de pé e de murro. Deixaram ele desfalecido no chão e foram atrás do patrão, responsável direto pela fraude, mas este, vendo o que faziam com seu empregado, tratou de picar a mula, esticou o cabelo no rumo do mato. Joaquim Nania, para assustá-lo ainda mais, deu dois tiros para cima, aí foi que ele correu bonito. Na corrida, passou por uns meninos jogando bola num campinho de pelada, um deles, chegado numa fuzarca, o derrubou com um calço, ele arrumou o nariz no chão, escalavrando a cara toda. Levantou e saiu meio em pé meio de gatão, cambaleando, aprumou lá na frente e aumentou a carreira para recuperar o tempo perdido.
Nos dias seguintes não se falou de outra coisa na Lagoa. O fato serviu de riso por muitos e muitos anos, tanto em Lagoa como nas redondezas. Com o passar do tempo os potoqueiros foram dando contornos novos ao caso, tornando-o cada vez mais hilariante.
O certo, entretanto, foi que do mato mesmo o corredor se escafedeu, nunca mais voltando àquele povoado. Mandou um amigo seu para despachar as mulheres que trabalhavam para ele, e para devolver a Nania todos os seus bens. Nunca mais quis jogar buzo e abdicou-se da exploração das mulheres que ficaram livres de seu algoz. Mão Ligeira, atendido pelo farmacêutico, recuperou-se da surra e, tal qual seu patrão, voltou para Goiás, onde procurou emprego honesto, abandonando para sempre a marginalidade.

CAPÍTULO XIX

Joaquim Nania recuperou seus bens, mas não recuperou a liberdade. Ficou preso nas teias que lhe teceu o acaso, pelos caprichos de Cupido, colocando Santinha em seu caminho. É o tal caso. Macaco que nunca comeu mel, quando come se lambuza, dizia mamãe. Nania era um homem casto, nascido ali nas beiras do Manabuiú. A única mulher com quem se relacionara intimamente fora sua esposa, até que naquela noite, atraído pelo toque da sanfona, como os navegantes, pelo canto da sereia, conheceu Santinha e nunca mais pôde se afastar dela.
Joaquim Nania recebeu seus bens tal qual estavam quando os perdera para Pedro Gamela, que não lhes tirou nem acresceu absolutamente nada. Buscou a família na casa do sogro, foi a Lagamar para acertar com Massu os seus serviços, mas o carpinteiro, como de costume, não aceitou nenhum pagamento, pelo que Nania o obsequiou com um excelente cavalo, arreado, presente que lhe foi de grande utilidade, porquanto não possuía animal de sela.
Joaquim Nania aproveitou sua presença na casa do carpinteiro para fazer-lhe uma consulta. Queria sua opinião sobre a paixão que o consumia e que já estava a ponto de levá-lo a uma loucura. Massu foi cauteloso em suas considerações, até porque tinha muito respeito pela instituição da família e sabia que aquele caso acabaria fatalmente na dissolução de um lar, com graves repercussões nos cinco filhos do casal. Por isso, limitou-se a dizer que o consulente deveria seguir o que lhe ditasse o coração, mas de forma que não trouxesse prejuízos aos filhos e à esposa.
Nania, enrabichado pelos amores de Santinha, não parava mais na fazenda, afundando o caminho da propriedade para a Lagoa, num vai e vem constante. Não conseguia passar um único dia sem ver a amada. Não tinha mais cabeça para os negócios porque todo o seu tempo era tomado por Santinha. Se olhava para o céu, nas nuvens - onde ele sempre estava -, via a imagem dela; até na oração da Ave-Maria, na hora de rezar, o que ele fazia regularmente à noite antes de dormir e de manhã, ao se levantar, ela estava presente, no lugar de Nossa Senhora.

CAPÍTULO XX

Acostumado a dirigir os negócios da fazenda, sentia-se muito mal, vendo que já não tinha ânimo para o trabalho ficando tudo a cargo de Do Carmo, que dirigia os trabalhos da propriedade com mão de ferro, exigindo o máximo dos trabalhadores, tirando deles até a última gota de suor, chupando-lhe o sangue e as forças, tal qual sanguessuga, sem dar-lhes a merecida contrapartida pecuniária. Pagava-lhes com toucinho, pedaço de fumo, rapadura, farinha, tudo produzido por eles mesmos, quase a custo zero. Para explorar ainda mais seus empregados, decidiu montar ali na fazenda um venda que tinha de tudo que os trabalhadores precisavam, inclusive a pinga. Roubava-lhes no preço, nas medidas e ainda errava nas somas, mas sempre em proveito próprio. De forma que o pai de família que caía nas unhas daquela jararaca, ficava preso ali pelo resto da vida. Nunca dava conta de saldar suas dívidas para com a patroa. Joaquim Nania que era um homem justo, não aprovava esses métodos da esposa, mas reconhecia que nada poderia fazer. Achava-se por demais desalentado.
Assim, desacorçoado, sem nada poder fazer pelos trabalhadores explorados por sua mulher; decepcionado com os rumos que Do Carmo estava dando aos negócios da fazenda, que, aliás, cresciam a olhos vistos,   decidiu abandonar tudo e ir para Patos de Minas. Evidentemente, nessa decisão teve considerável peso o fato de Santinha morar ali. Pensava poder encontrar na cidade algum trabalho que desse para se manter e sustentar Santinha, com quem pretendia estabelecer-se como marido e mulher, em concubinato, claro. Ia despreocupado quanto ao futuro dos filhos, porquanto tinha certeza que Do Carmo, se não fosse assassinada por algum trabalhador lesado, se tornaria, dentro de pouco tempo numa das maiores riquezas da região, tal qual o pai dela, cujo sistema ela assimilara integralmente.
Na madrugada de uma segunda-feira de junho, no amiudar dos galos, quando a barra do dia surgia tingindo de vermelho o horizonte para os lados do Nascente, Nania deu adeus a Do Carmo, abençoou os filhos, pediu perdão a Deus por aquele ato que poderia ser um desatino e partiu embalado pela marcha picada do Fronteiro, sentindo no rosto o vento frio matinal. Deveria chegar à cidade de tardezinha, mas ainda de dia. Pelo cabresto, levava outro cavalo, o Castanho, tão bom e tão bonito quanto o Fronteiro. Levava-o como reserva para ser vendido em caso de alguma emergência. Na guaiaca, dinheiro suficiente para passar uns seis meses sem trabalhar.

CAPÍTULO XXI

Em Patos, foi chegando e, imediatamente, procurou Santinha que o recebeu com entusiasmo, querendo saber que dia viajariam para Uruaçu, porque estava morrendo de saudade da mãe. Recebera dela, na semana anterior, uma longa carta dizendo como era a cidade e dando notícias de sua vida depois que saiu de Goiânia. Na carta, Dona Antônia contava também que conseguira emprego, modesto, mas suficiente para viver com dignidade.  Em pós-escrito, lia-se: Você nem imagina quem esteve aqui em Uruaçu. Quando o encontrei, ficou muito desapontado e no dia seguinte evaporou. Depois, tive notícias de que ele ficou por aqui mais de dois meses, trabalhando numa companhia construtora de estrada. E que há uns dias, anoiteceu e não amanheceu. Não apareceu nem para receber o salário. Acho que pensou que eu fosse denunciá-lo à polícia. Sabe quem? Pedro Gamela!
Nania não chegou, nem mesmo, a procurar emprego em Patos, como era sua intenção. Tratou logo foi de vender os dois cavalos porque pretendia viajar de trem. Procurou, uma empresa de ônibus, para informar-se como poderia chegar a Uruaçu. Não conseguiu nenhuma informação. Ninguém sabia onde era essa cidade. Mudou de tática, passou a pedir informação como poderia chegar ao Norte de Goiás. Encontrou um motorista de caminhão que sabia tudo e até conhecia Uruaçu. Então o senhor quer ir para Uruaçu, no Norte de Goiás. Se é isso, o senhor vai de jardineira até Patrocínio, em Patrocínio o senhor embarca no trem até Anápolis. De Anápolis para Uruaçu o senhor vai de ônibus. Tem corrida regular, diariamente, entre Anápolis e Uruaçu. A estrada está boa e bem conservada. A distância é de mais ou menos duzentos e cinqüenta quilômetros e a duração da viagem é de oito horas, mais ou menos, incluindo diversas paradas para lanches e uma para almoço.
Dito e feito. Na sexta-feira daquela mesma semana que chegara a Patos, Nania embarcou no trem, em Patrocínio, levando consigo a belíssima Maria Santa Clara, ambos radiantes, felizes como duas crianças. Chegaram a Anápolis na madrugada de domingo e aproveitaram o dia para comprar umas roupas para ele. Precisava substituir aquelas grosseiras que usava na fazenda por outras mais apresentáveis, entendendo que com isso rompia definitivamente com o passado.
Segunda-feira às sete horas de uma manhã fria, de ventos constantes, o casal de viajantes embarcou no Expresso Brasil - uma perua importada dos Estados Unidos, com capacidade para 12 passageiros - A perua os pegou na porta da Pensão Central, na Praça Bom Jesus. Às três horas da tarde, estavam desembarcando em frente ao Bar Columbia. Ali, naquele bar, eram vendidos os bilhetes de passagens da empresa e era onde desembarcavam os passageiros que não moravam na cidade, porque estes eram entregues em domicílio. Atrás do balcão de venda de passagem, um jovem nordestino metido a galã de cinema que além de agente do Expresso Brasil era também locutor do serviço de alto falante local, onde ele invariavelmente anunciava na abertura e no encerramento de cada programação: locutor, Isaac Albuquerque. Nosso viajante indagou do jovem agente onde poderia encontrar uma pensão em que pudessem tomar um banho e se livrarem da poeira vermelha que lhes invadia até “o caroço” dos olhos. O moço esticou o pescoço e apontou com o beiço uma casa em frente ao bar, onde se lia “Pensão Central”, o que fez Santinha pensar: estranha coincidência? Levando uma mala enorme em cada mão, Nania atravessou a rua, e pediu ao pensionista dois quartos para até a manhã seguinte.

CAPÍTULO XXII

Joaquim Nania e Santinha estavam em uma situação um tanto incompreensível, poder-se-ia dizer que era uma situação ímpar. Ambos apaixonados (ela, antes, prostituta), entretanto não tinham relacionamento íntimo. Queriam, com isso, realizar um sonho de Santinha que era se casar vestida de noiva, numa igreja repleta de convidados e ter uma noite de núpcias que nem toda moça do seu tempo; por isso que na pensão ele pediu dois quartos.
O encontro de Santinha com a mãe foi, por óbvio, emocionante. Mais de dois anos longe uma da outra, apegadas como eram, tinham ambas muita saudade. Nesse tempo a comunicação a distância, entre duas pessoas, se fazia, via de regra, por carta, e estas, por longas e detalhadas que sejam, não podem transmitir certas emoções e até mesmo coisas importantes, de fácil comunicação ficam fora da missiva, muitas vezes por falta de tempo. Por isso que antes do DDD a saudade era mais saudade. Choraram e pularam como duas crianças... Abraços, beijos, lágrimas e muito riso. Depois dessa explosão de alegria, vieram os casos, os fatos sucedidos enquanto estavam distantes. Foram três dias de confidências.
A notícia do futuro casamento de Santinha com Nania encheu de felicidade o coração de Dona Antônia. Ela não se conformava com a vida que filha fora obrigada adotar em face das trapaças de Pedro Gamela. Enfim, Deus ouviu suas preces, dando a Santinha um marido com as qualidades de Joaquim Nania. Entusiasmada, erguia as mãos aos céus e gritava a todo pulmão: ô brigada, brigada, brigada, brigada meu DEUS... Minha filha agora vai viver com a dignidade que merece. Obrigada minha Nossa Senhora... Obrigada meu DEUS... Obrigada São José de Ribamar. 

CAPÍTULO XXIII

Enquanto isso, em Minas Gerais, lá para as bandas das cabeceiras do Paracatu, na beira do Manabuiú, Do Carmo se via às voltas com os empregados da fazenda. Durona como ela era, tratava seus trabalhadores a ferro e fogo. No começo, quando o pessoal era somente gente dali das vizinhanças, esse tratamento era eficiente, mas com o aumento do número de funcionários, pessoas vindas de outras regiões, gente mais bem informada, esse tipo de tratamento começou a surtir efeitos contrários ao que ela esperava. A produção diminuía a cada dia. Quanto mais ela contratava empregados, mais a produção caía em proporção ao número deles. Os trabalhadores vindos das lavouras de café do Paraná, onde eram bem orientados por dirigentes sindicais, sabiam muito sobre seus direitos e passavam essas informações aos seus colegas. Assim, começaram a não aceitar os pagamentos em mercadoria, principalmente se essa mercadoria era superfaturada. Se atrasava o pagamento, ameaçavam com o direito de greve.
Apavorada com o rumo que seus negócios estavam tomando, foi a Lagamar consultar-se com Massu.
Contou sua história ao carpinteiro e ele, após alguns minutos de reflexão, disse à fazendeira que a coisa era muito fácil de resolver, bastava que ela dispensasse a seus empregados tratamento digno, lembrando-lhe que todas as pessoas, independentemente de raça ou condição social, buscam fundamentalmente ser felizes. Ela não entendeu, então ele procurou ser didático, esclarecendo que preto ou branco, rico ou pobre, busca em sua atividade sempre a mesma coisa: a felicidade, esmiuçando em linguagem ao alcance de sua consulente tudo que sabia da filosofia de Aristotélica sobre o assunto. Concluiu dizendo-lhe que se ela realizasse os desejos mais urgentes de seus empregados, como moradia, vestuário, saúde e alimentação, eles passariam a produzir muito mais, aumentando seus lucros. Arriscou até um palpite com fundamento em suas experiências pessoais, dizendo-lhe que um trabalhador livre produzia mais do dobro de um trabalhador escravo e que, igualmente, um trabalhador satisfeito com sua remuneração produzia mais que dois empregados insatisfeitos.
Massu pediu a Do Carmo que voltasse no dia seguinte para continuarem a conversa. Pensava ele, com muito acerto, que com essas informações resolveria o problema de Do Carmo e melhoraria a situação dos trabalhadores da fazenda dela. Mas ela não voltou. Julgou-se suficientemente bem informada, voltando para casa disposta a mudar suas relações com seus empregados, que eram, então, em número de 92. 

CAPÍTULO XXIV

Pedro Gamela quando fugiu naquela corrida espetacular, ficou escondido no mato durante alguns dias, ruminando sobre sua vida; recordou tudo quanto havia feito até aquela data; avaliou seus atos, levando em conta uma lição que ouvira de um pastor religioso, em sua barraca, no Domingo anterior. Dissera-lhe o pastor que o visitava para perguntar-lhe se ele acreditava em DEUS. Ante a resposta afirmativa o pastor deu-se por satisfeito, dizendo-lhe: Sr. Pedro, Deus ficará muito contente com o senhor se antes de praticar qualquer ato contra alguém, o senhor inverter as posições, colocando-se no lugar do outro e o outro em seu lugar. Se o senhor sentir que o ato lhe fará bem, pode praticá-lo, porque quando o senhor for chamado a prestar contas a DEUS, será isso que lhe acontecerá. Todos os efeitos dos seus atos, bons ou maus, por reflexo, recairão sobre o senhor mesmo. Assim, o senhor receberá os benefícios dos bons atos e malefícios dos maus atos. Essa é a Lei de Deus. Mas se o senhor puder, por arrependimento, anular os efeitos negativos dos maus atos já praticados, isso também reverterá a seu favor.
Diante dessa verdade, Gamela rememorou tudo que havia feito em prejuízo de outrem, utilizando-se de fraude e decidiu, no que ainda era possível, anular os efeitos negativos de seus atos, devolvendo aos seus verdadeiros donos os bens ganhos fraudulentamente e libertando as mulheres que havia trazido para a prostituição mediante falsas promessas, transformando-as em escravas brancas.

CAPÍTULO XXV

Do Carmo, decidida a dar início à reforma administrativa sugerida por Massu, reuniu todos os empregados e seus familiares para anunciar as mudanças. A reunião foi marcada para as sete horas da manhã de uma Segunda-feira, avisando antecipadamente que aquela reunião seria em horário de trabalho e o tempo gasto nela seria contado como serviço efetivamente prestado, portanto todos que comparecessem estaria ali como se estivessem trabalhando e receberiam tempo gasto na reunião como hora extra. Muitos viram o anúncio com desconfiança, até porque aquilo era algo absolutamente contrário a tudo que   já havia ocorrido na fazenda. Mesmo assim todos compareceram.
Do Carmo, empoleirada numa mesa, começou a reunião anunciando que as mudanças que estava implantando na fazenda a partir daquela hora, não era nenhum ato de bondade, fazia aquilo em seu próprio benefício, embora parte desses se revertessem em favor dos trabalhadores, e explicou a conversa que tivera com Massu e o que aprendera com ele.
Anunciou sete medidas que seriam implantadas a partir daquele momento, a favor dos trabalhadores da fazenda: a) construção de casas dotadas do mínimo de conforto para todos os empregados que tinham família, sem pagamento de aluguel; b) pagamento de salário exclusivamente em dinheiro; c) salário mínimo diário para os adultos (homens e mulheres), igual à soma do preço de um quilo de toucinho, uma rapadura grande e um litro de farinha; d) salário mínimo diário para crianças de dez a quinze anos, igual ao preço de um quilo de toucinho (para os jovens acima de quinze anos, o salário seria o mesmo dos adultos e o salário mínimo mensal seria calculado multiplicando os valores diários por trinta, independentemente do número de dias do mês civil); e) férias anuais remuneradas, de duas semanas; f) consulta médica de graça, de dois em dois meses e remédio a preço de custo na farmácia que seria instalada na fazenda; g) escola gratuita e obrigatória para todos os filhos de trabalhadores até dez anos de idade.
Do Carmo cumpriu tintim por tintim todas suas promessas.

CAPÍTULO XXVI 

Em Uruaçu, Joaquim Nania e Santinha depois de demorada análise do assunto, decidiram que deveriam se casar depois que ele consolidasse sua situação em Formoso para onde estava decidido a ir, com a esperança de conseguir um pedaço de terra, poder viver independente e, talvez, quem sabe, se não ficasse rico, pelo menos remediado.
Antes de arribar em busca do futuro, Nania andou escarafunchando sobre essas tais terras devolutas. Queria saber se eram mesmo do Estado, se era de particulares, se daquelas que, embora sendo do Estado tem uma centena de graúdos dizendo que são donos delas e de vez em quando chega uma graxa no delegado de polícia e manda lá uma meia dúzia de soldados que baixam a borracha nos posseiros. Assim que era lá em sua terra. Ele mesmo era posseiro e, muitas vezes teve de enfrentar a polícia na boca da carabina, em defesa de sua posse. Mas depois de muito especular, descobriu que em Uruaçu era diferente. A polícia não se vendia e os posseiros poderiam trabalhar tranqüilamente se não fosse a força dos grileiros junto às autoridades estaduais, em Goiânia. Entretanto perigo maior para os lavradores estava no Poder Judiciário local, onde o juiz da comarca, mais por fraqueza de caráter que por desonestidade, cedia sempre à pressão dos grileiros que tinham nas mãos, acima de tudo, o poder do dinheiro.
Em suas investigações, Nania descobriu que o quartel general da grilagem estava instalado em Uruaçu e chegou até a conhecer alguns nomes que sobressaiam no reino da maracutaia. Dentre eles, o de Seu Bonifate, coisa que ele muito estranhou porque esse personagem não apresentava sinais de riqueza externa, o que era incompatível com a atividade ilegal que se lhe atribuíam. Entretanto um bom observador veria nele alguma coisa de anormal, uma vez que levava nível de vida de classe média, e nunca alguém o viu trabalhar, salvo uma vez, passados muitos anos da era da grilagem, já no tempo da ditadura militar, quando assumiu o cargo de delegado-de-polícia-calça-curta, por conta de ser ele, então, o alcagüete, informante ou dedo-duro dos militares em Uruaçu, denunciando aos carrascos da ditadura as pessoas com quem ele próprio não simpatizava, acusando-as de opositoras ao regime, brindando-as com o então temível qualificativo de subversivas. Para Seu Bonifate, subversivos eram todos aqueles que criticavam o governo, ainda que por ações meramente administrativas, sem qualquer referência ao regime implantado pelo golpe militar de sessenta e quatro.
Além de Bonifate, Nania conheceu outras figuras de destaque da sociedade local, que participavam do comando da "legalização" de terras na Região de Formoso; na maioria, empresários ricos que detinham o  monopólio do comércio local de produtos agrícolas, ou pessoas ligadas à administração da Justiça, inclusive advogados, serventuários e até rábulas.

CAPÍTULO XXVII

O fato seguinte foi um bom exemplo dos critérios adotados por Bonifate para deduzir suas denúncias: não muito depois de instalado o Banco do Brasil em Uruaçu, nosso personagem compareceu a agência levando um punhado de requerimentos de registros torrens de áreas rurais na região de Formoso. Milhares de hectares, porém tudo ocupado por "posseiros". Segundo a Assessoria Jurídica do Banco, ele era senhor, mas não era possuidor daquelas terras pelo que não seria possível conceder-lhe os financiamentos pretendidos.
Inconformado, Bonifate denunciou o gerente e alguns funcionários mais próximos da administração, aos órgãos de repressão, como sendo perigosos subversivos.
 
CAPÍTULO XXVIII

Com essa constatação, Nania perdeu metade do entusiasmo que o dominava, com relação a "fazer" uma posse, explorar a terra e construir sua independência econômica. Mas assim mesmo, meio desanimado, seguiu para a região onde conheceu Nego Carreiro, e arranchou por uns dias em sua casa, no Coqueiro de Galho. Na semana que chegou, presenciou o primeiro arranca-rabo: apareceram por lá uns jagunços e atearam fogo à sede da posse do Nego, queimando a casa, paiol de milho e o arroz ensacado que estava guardado para a despesa da família.
A família conseguiu salvar "os trem" de casa, de modo que só queimou mesmo, o rancho e o arroz, assim mesmo deste, foi possível salvar dois sacos. Queimado o rancho de morada, passou a família a morar debaixo de uma moita de esporão até que outra habitação fosse construída, o que levaria mais ou menos uns dez dias.
O incêndio foi, ao que parece, um aviso, porquanto no fim de semana que se seguiu, apareceu por lá um dos "donos" da terra levando a tiracolo meia dúzia de jagunços, um sargento e um soldado, intimando o Nego a deixar as terras, sob pena de ser amarrado e apanhar até perder a catinga de macho. Nego, evidentemente não gostou da proposta, pelo que iniciou-se entre ele e os visitantes uma alterada discussão.  Enquanto isso, foram chegando ao local outros posseiros, que moravam na beira da estrada. Já estavam todos em estado de alerta em face da queimação do rancho e do paiol pelos jagunços daquele mesmo grileiro, pelo que quando o viram passar em direção à casa do Nego trataram de ir em socorro ao amigo, armados de espingarda, garrucha, foice, facão, etc.
Num momento de exaltação, o sargento gritou um palavrão e levou a mão ao coldre, mas antes que tocasse a coronha do revólver, caiu morto. Ninguém ouviu o estampido. O único ruído foi do tamborete que estava à frente do sargento e se espatifou com a queda do morto em cima dele.
O exame do cadáver, revelou uma minúscula mancha vermelho bem no meio da testa da vítima. "Fulobé", comentou Zé do Pito, um rapazote meio boró, vizinho do Nego.
Quando o sargento caiu morto, grileiro, jagunços e soldado viraram foguetes rumo à camioneta, que já estava funcionando e com o motorista particular ao volante. Só se viu o canudo de poeira. Nunca mais voltaram lá.

CAPÍTULO XXIX

Com a morte do sargento, os grileiros se abstiveram de ir pessoalmente atanazar os posseiros. Trataram, entretanto, de mexer os pauzinhos junto ao governo do Estado, conseguindo que "em nome da segurança" fossem encaminhadas à região as forças necessárias ao "restabelecimento da ordem".
Com essa decisão do Estado, acirraram-se os ânimos e o tempo esquentou na região, virou uma verdadeira guerra civil. De um lado, as forças policiais, do outro, os posseiros. A espingarda de caça, a foice, o machado, a enxada e o facão se transformaram em armas de guerra. O rancho do camponês virou quartel general e as lavouras e as matas transformaram-se em trincheira.
Numa noite sertaneja, quando os galos amiudavam, fazendo seu canto ecoar nas quebradas dos morros, um cavaleiro descia a galope a rua principal do povoado de Trombas. Riscou o cavalo na porta de uma residência de aparência modesta, gritou um nome, apareceu uma mulher gorda, de lenço na cabeça e pés descalços. A mulher saiu esfregando os olhos, sinal de que estava dormindo e acordara com o tropel do cavalo, cujas quatro ferraduras produziam grande ruído no cascalho solto da rua, tirando faíscas nas pedras.
O cavaleiro falou rapidamente com a mulher e virou em cima do rasto, saindo em disparada. No final da rua, entrou à direita, andou mais ou menos um quilômetro, chegando a uma casa, na beira de um belo riacho. Na toada que vinha, o cavalo atravessou de vau, esparramando água para toda banda, salpicando a cara do cavaleiro. Por pouco não molhou o dono da casa que àquela hora da manhã já se achava de pé, como era seu hábito, e já havia tirado o leite das cinco vacas curraleiras que ainda estavam ali no curral, com os bezerros a escorropichar-lhes as tetas.
O chegante apeou de um salto, cumprimentando o dono da casa com intimidade. Em seguida entraram para a cozinha onde tomaram um reforçado café com requeijão, enquanto conversavam, e, pelas caras, o assunto era muito sério. Eis alguns fiapos do diálogo:
- Quantos homens?
- O telegrama cifrado dá notícia de mais de cem. São dois caminhões grandes, cheios...
- Que armas eles trazem?
- Fuzil. Todos armados de fuzil e mais umas cinco "lurdinhas".
- Que dia eles vêm?
- Saem de Goiânia hoje ao anoitecer. Viajam a noite inteira para surpreender Trombas de madrugadinha, com todo mundo dormindo. Estão vindo cinco caminhões vazios para levar cheios de presos, amarrados, para Goiânia.
- Vamos esperar no Corgo do Sapato, dentro do esquema já planejado. Chame o Suzano e mais cinco companheiros, porque até o meio-dia é preciso que todos estejam avisados, recomendou o chefe dos posseiros.
A notícia correu como fogo em rastilho de pólvora. Cada lavrador que recebia a comunicação, levava-a a seus vizinhos, de modo que antes do meio-dia toda a comunidade estava ciente e se deslocava para o local da batalha, levando matula, água e as armas de que dispunha.

CAPÍTULO XXX

Quando o Sol entrou, a resistência já estava organizada com cada qual em seu posto. Os comandantes já haviam passado todas as instruções. A resistência se compunha de dois grupos distantes cinqüenta metros um do outro. Os grupos ficavam, o primeiro no começo da descida do Corgo do Sapato e o outro, no final da subida, do outro lado.
As trincheiras cavadas havia uns dois meses, porque os chefes já desconfiavam de um provável ataque ao povoado.
A uns dois quilômetros das trincheiras, do lado que viria a polícia, foi colocada uma sentinela, providência desnecessária, porquanto a aproximação das forças policiais seria facilmente percebida pelo barulho dos caminhões.
Quatro combatentes ficaram de sentinela no local das trincheiras, enquanto o restante do grupo dormia. Como era tempo de seca e era uma noite quente, dormiam muito bem, no mato, sem abrigo, uns dentro das trincheiras, outros escondidos em meio à vegetação espessa. Eram, ao todo, noventa e seis homens, lavradores, armados de espingardas para enfrentar cento e trinta soldados armados de fuzis e algumas metralhadoras. Mas, apesar da inferioridade numérica e de armas, os camponeses estavam confiantes. Tinham a seu favor a surpresa e o fato de estarem bem entrincheirados, e a polícia a descoberto nas carroçarias dos caminhões.
Os dois caminhões com os soldados vinham colados um na rabeira do outro, comendo a poeira intensa. Os outros cinco mantinham grande distância destes.
Quando passou o segundo caminhão a estrada foi bloqueada em sua retaguarda para que não pudessem retroceder. Na subida, do outro lado, a estrada já estava interrompida, de forma que os dois caminhões ficaram presos naquele pequeno espaço de cinqüenta metros. Nem para frente nem para trás. Enquanto isso, as espingardas dos camponeses cuspiam chumbo em cima dos soldados que se tornaram alvos fáceis, Os camponeses contavam com a luz da Lua iluminando a estrada ao mesmo tempo em que se achavam protegidos pelas trincheiras e pela sombra da mata.
Atacados pela frente, pelos flancos e pela retaguarda, sem poder utilizar os caminhões, não podendo ver os seus adversários, os policiais se deitaram debaixo dos caminhões e ficaram atirando a esmo. Os camponeses tinham ordens para não atirarem em soldado que empreendesse fuga, desde que não fugisse rumo ao povoado. Houve muitas baixas do lado da polícia e nenhuma do lado dos lavradores, que saíram ilesos, sem nenhum ferido.
Terminada a batalha, os trabalhadores retornaram a suas casas sem utilizar as estradas. Eles conheciam bem os trilheiros e os atalhos da região. Os caminhões foram abandonados no local com os mortos e com os feridos que não podiam fugir.
Os chefes dos camponeses mandaram emissário a Formoso, levando autorização ao comando da polícia para buscar os caminhões, os mortos e os feridos, com a condição de irem somente dois motoristas um médico, um enfermeiro e dois carregadores, todos desarmados. Assim mesmo somente lhes seria permitida a chegada ao local se os emissários regressassem sem ser incomodados.

CAPÍTULO XXXI

Com essa derrota, o governo estadual desistiu da perseguição aos posseiros que, a partir de então, tiveram paz para cuidar de suas lavouras, mas Nania não sentiu isso, não acreditou no que lhe disseram os líderes sobre as perspectivas que se lhes abriam com aquela vitória.
Naquela noite, enquanto tentava dormir debaixo de uma moita de esporão, aguardando a hora da batalha, Nania, que tinha chegado ao lugar havia menos de dois meses, recordou sua vida desde os tempos de menino pobre, descendente de imigrantes espanhóis, correndo descalço pelos campos e pescando piaba no corgo do fundo do rancho onde morava, até aquele momento de espera ali na trincheira, passando, evidentemente pelo casamento, sentindo, nesse ponto uma dor profunda no peito, que não sabia se era saudade da mulher ou dos filhos, tão distantes.
A área de sua posse já estava demarcada. Era um belo lugar, ao pé de uma colina, entre Formoso e Trombas, a uma légua e meia da Estrada. Tinha uma bela vereda, onde pretendia construir a casa e criar os filhos que haveria de ter com a Santinha. Além dessa vereda tinha na gleba mais uns quatro corgos, inclusive um ribeirão com muito peixe. Uns dez alqueires de campo com boas pastagens nativas e outro tanto de mata de cultura de primeira. Apaixonara-se por aquele pedaço de paraíso, mas a batalha com a polícia alterou os seus planos, pelo que, inobstante todo esse encanto pela terra, pensou com seus botões: esse trem aqui não é tão bom como falam, nada. Isso é uma guerra, onde a qualquer hora a gente pode morrer. Eu vou é embora. Vou arranjar emprego de servente em Uruaçu e casar com a Santinha. Vou é hoje mesmo. Aproveito que ainda não fiz nenhum serviço na minha posse e pico a mula. Quando pensava isso, na ressaca da batalha, deitado de barriga para cima num banco de madeira, na “casa” do Nego, olhando o movimento das nuvens brancas, um trovão ecoou para as bandas do norte, o que lhe pareceu um ronco da saudade nas lonjuras do tempo. Olhou para o lado donde viera o trovão e viu que armava uma chuva temporã, mas muito longe, não chegaria até ele. Aquele trovão fora de tempo, entrou-lhe pelos ouvidos e foi alojar no coração, pelo que montou-lhe uma saudade enorme não sabia de quê; se era do tempo passado, se era da Do Carmo, dos filhos ou da Santinha. Levantou de um salto, pegou sua mala e capou o gato no rumo da “Federal”, onde pegaria carona num caminhão. Saiu sem falar com ninguém. As quatro léguas desde a posse do Nego Carreiro até a Federal seriam umas quatro horas de caminhada, bem puxada.  Olhou em seu relógio de bolso, eram três horas da tarde. Se andasse sem parar, daria para chegar à posse do Jeremia, um conhecido de Minas, que morava a uma distância de uma légua e meia da Federal. Num riacho, onde passou de pinguela, viu um despropósito de peixes, que aproveitava as frutinhas que caiam duma árvore sobre um remanso. Cada fruta que caía era um reboliço de peixes para disputá-la. Tirou da mala o anzol, iscou nele uma daquelas frutinhas e jogou n’água. Em dois minuto pegou cincos peixes, suficientes para um bom jantar.
- Ô de casa
- Ô de fora. Aprochega... Sai. Campina. Eta cachorra enjoada.
- Boa tarde Dona Diomara.
- Boa tarde Seu Nania.
- Cadê Jeremia?
- Jerê tá pra roça. Mas já tá chegando.
- Se mal pergunto, adonde o senhor tá ino?
- Pergunta bem. Vou pra Uruaçu.
- Vai ver a Santinha, né?
Nania meio desapontado com a pergunta inesperada, não respondeu. Desconversou, entregando a fiada de peixe a Diomara, dizendo-lhe que trouxera para o jantar.

CAPÍTULO XXXII

Em Minas, a fazenda da Do Carmo, com as reformas administrativas implantadas achou novamente o caminho do progresso, voltando a crescer, agora assentada em base sólida, contando com a boa vontade, aliás, muito mais que boa vontade, contando com o entusiasmo de todos os trabalhadores que passaram a ver a fazenda como futuro de suas famílias. A produção alcançou um crescimento quantitativo de quarenta e três por cento, de forma que com apenas dois anos, recuperou todo o investimento com pessoal. Afora o aumento em quantidade, houve também considerável melhoria de qualidade dos produtos, via de conseqüência, um extraordinário avanço na preferência do mercado, com o que os lucros da fazenda, possibilitaram novos investimentos.
Massu, contratado por Do Carmo como seu consultor para assuntos administrativos, percebendo que necessitava buscar novos conhecimentos para que a fazenda não parasse de crescer, passou a corresponder com faculdades de todo o país, principalmente da área de agronomia e veterinária, em busca de informações que pudessem possibilitar a continuidade de melhoria do empreendimento de Do Carmo. Massu passava cerca de doze horas diariamente em sua sala de trabalho, que passou a ser o cérebro da fazenda, no que se referia ao que produzir e como produzir para obter maior rendimento e melhor qualidade, com menor custo, sem perder de vista a preferência do mercado. 

CAPÍTULO XXXIII

Sol tinindo de quente, uma sede dos diabos, a vista maretando sobre o cascalho branco da estrada, por causa do calor; a mala de roupa pesando mais de trinta quilos recheada com a matula - um requeijão e duas rapaduras que compra na venda do Antônio Macaco -; a botina de solado de pneu pesada como chumbo, apertando o dedo “mindinho” onde já tinha uma enorme bolha d’água, Nania acabou de vencer as quatro léguas entre a posse do Nego Carreiro e a Estrada Federal. O ponto da Federal onde chegara ficava a uns vinte quilômetros ao norte da Vargem do Coelho.
Jogou a mala no chão, na sombra de uma quaresmeira, onde zoava um mundo de abelhas por causa da enorme quantidade de flores da planta. Tirou as botinas, jogou ao lado da mala. Foi até o pequeno curso d’água que vinha de uma vereda e sumia debaixo da estrada, numa tubulação de manilha. Enfiou os pés no minúsculo poço proveniente de uma represa de pequenas pedras, feita por alguém que passara por ali anteriormente; as piabas mordiscaram-lhe os pés e ele riu uma gargalhada que morreu nas lonjuras do cerrado; tirou uma folha duma planta parecida com açafrão, fez um cone, encheu ele na fonte e bebeu com sofreguidão, uma, duas, três, quatro, cinco... Cinco vezes. Cansado, voltou para junto da mala, na sombra da quaresmeira, deitou de papo para o ar e dormiu rapidamente. Sonhou. Um caminhão cheio de soldados, armados até os dentes, se aproximava da trincheira. Vinham vingar seus companheiros mortos e ele, Nania, seria o primeiro a ser sacrificado, por ordem do comandante. Nessa altura do sonho, acordou. Um caminhão carregado de arroz se aproximava. Pegou a mala, correu para o meio da estrada e fez sinal ao motorista para parar.
- Sobe, e da próxima vez fica na beirada da estrada, se tiver amor à vida.

CAPÍTULO XXXIV

Nania fez de conta que não escutou. Normalmente, era um homem precatado, mas naquele momento, a pressa de chegar a Uruaçu para ver Santinha, e o receio de o caminhão não parar empurraram ele para o meio da estrada, em tempo de ser atropelado. Felizmente não aconteceu nada. O caminhão estava bom de freio, mas ainda assim, chegou a esbarrar nele. De leve, mas esbarrou.
Tinha chovido no dia anterior - então, ocorria muita chuva temporã no Médio Norte de Goiás -, pelo que não havia poeira, embora a estrada estivesse enxuta. Isso possibilitou a nosso herói uma viagem gostosa, aproveitando o balanço macio do caminhão, e o desfilar das paisagens se sucedendo diante de seus olhos. Os cerrados ainda verdes naquela época do ano, pelas precipitações extemporâneas, exibiam ao viandante toda a exuberância da natureza, nas múltiplas tonalidades de verde que só os cerrados goianos podem oferecer. Aqui e acolá, sobressaíam a beleza ímpar das veredas, mostrando a silhueta elegante dos buritis em longas fileiras, muitas vezes ostentando enormes cachos de cocos da cor de cobre, contrastando com o verde intenso das folhagens.

CAPÍTULO XXXV

Cansado de contemplar a paisagem, Nania amarrou a mala para que não caísse do caminhão em caso de alguma bacada forte, retirou um saco de arroz do lugar, abrindo um espaço onde deitou confortavelmente. Com o balanço do caminhão, logo, logo ferrou no sono.
A Igreja estava decorada com uma grande variedade de flores, predominando as rosas de todas as cores. Um tapete vermelho estendido desde a porta principal até o altar. Os padrinhos postados próximos ao altar. Os convidados, todos, ostentando roupas apropriadas para a ocasião. Uma pequena orquestra tocava uma bela marcha nupcial e os convidados começavam se inquietar com a demora da noiva. O padre, com seus paramentos coloridos, também já dava mostras de preocupação, esfregando as mãos incessantemente. Nania vestia um terno de tropical inglês confeccionado exclusivamente para a ocasião, estava muito elegante e se sentia o rei da cocada preta. Quando, senão quando toda a Igreja se prorrompeu em palmas. Era ela, a noiva que acabava de pisar o tapete vermelho. Seus olhos brilhavam como duas esmeraldas e seus cabelos loiros soltos sobre os ombros, saindo de sob o véu, pareciam uma cascata de ouro, caindo do céu. O véu branco e longo estava preso ao alto da cabeça por um diadema de brilhantes, que enviava chispas para toda banda, ante as luzes artificiais do templo. Nania estava orgulhoso, vendo a inveja estampada em todos os rostos masculinos. Santinha parecia flutuar sobre o tapete vermelho. O noivo caminhou lentamente para encontrar sua amada no meio da nave. No momento em que ia beijar-lhe a testa, em sinal de respeito, o caminhão deu uma freada brusca e ele acordou. Acabava de parar na bomba de gasolina do Posto do Alcidinho, em Amaro Leite.
Voltando à realidade da vida, sentiu-se frustrado por ter sido apenas um sonho toda aquela felicidade. Levantou a cabeça deu uma olhada em sua volta, viu apenas uns garotos jogando bola na praça e, em frente a uma casa próximo ao posto onde estava, um mastro com a bandeira de Santo Antônio e uma porção de bandeirolas de papel colorido, coladas em cordão demarcando um espaço retangular e dentro do retângulo, um “X” feito também por bandeirolas, ligando os quatro cantos do retângulo. Isso indicava que ali tinha acontecido uma festa na noite anterior. Próximo à casa das bandeirolas, um monte de cinza e carvão, restos da fogueira dedicada ao santo casamenteiro.
O caminhão atravessou a cidade de 300 habitantes, seguindo sua viagem rumo a Anápolis. A uns duzentos metros do posto, passou sobre a ponte do Rio do Ouro, em cujas margens havia um despropósito de açafrão e num poço, que a distância parecia ser bem profundo, tinha um tanto de menino tomando banho, pelados, saltando de ponta do galho de uma gameleira, jogando cangapé e nadando.
O passageiro despediu-se mentalmente da cidade; dos meninos do poço, que tomavam banho pelados e dos da praça, que jogavam bola. Rezou um Pai-nosso, ofereceu a oração a Santo Antônio, deitou novamente entre os sacos de arroz e entregou-se às lembranças. Deu um balanço na vida detendo-se mais pausadamente nos últimos sucedidos, principalmente naquela batalha travada com a polícia no Corgo do Sapato, concluindo que havia sido uma grande irresponsabilidade sua, arriscar a vida por causa dum pedaço de terra. Os líderes do movimento, tudo bem, eles lutavam por algo maior, lutavam por um ideal político.  Mas ele, Nania, assim como os demais posseiros, não tinha ideal a defender, defendia, isso sim, um pedaço de terra, um valor patrimonial... Dormiu antes de concluir o raciocínio sobre a legitimidade da luta dos posseiros pela terra.

CAPÍTULO XXXVI

Chegou a noite e o caminhão estava com os faróis queimados. Antes que se escurecesse totalmente, o motorista estacionou o possante debaixo duma árvore a uns dez metros da pista, perto de um corgo onde tomaram banho e recolheram água, numa borracha para beber e preparar a janta. Na beira do corgo, antes do mergulho, cada um tomou, na boca da garrafa, uma boa talagada de pinga, duma que Nania trazia na mala. O motorista não gostou da cachaça. Era uma tal de “Praianinha”.
-Pinga boa, é de alambique, companheiro. Como é mesmo o seu nome?
-Nania. Joaquim Nania - eu também num gosto de pinga de fábrica não. Gosto é daquelas de engenho. Feita de cana caiana.
-Na hora da janta, ‘cê’ vai tomar uma golada do meu garrafão que tenho na gabina. Comprei em Januária, numa viagem que fui lá, ano passado. Aquilo é que é pinga. ‘cê’ vai ver.
O motorista preparou a janta - uma panelada de maria-zabé -, num fogãozinho a querosene (fogãozinho Esso Jacaré, aquele do Repórter Esso),  pegou o garrafão na gabina, encheu um copo americano e entregou a Nania, que sorveu o líquido vagarosamente, tirando todo proveito do seu sabor. Devolveu o copo ao motorista sem qualquer comentário. Este, por sua vez, encheu o copo duas vezes e duas vezes virou o fundo dele pra cima. Atacaram a panela de arroz com carne seca. Quando raparam o fundo da panela, estavam com o coro da barriga esticado e caco cheio da água que gato não bebe.
As pessoas inibidas quando enchem o caco de pinga é a mesma coisa de romper a barragem de água represada. Se é verdade que fogo de morro arriba, água de morro abaixo e mulher quando quer dar, não há quem possa segurar. Poder-se-ia, a esta sentença, acrescentar, com muito acerto, “e bêbado quando começa a falar”. Pelo que ficaria assim o enunciado: água de morro abaixo, fogo de morro arriba, mulher quando quer dar e bêbado quando começa a falar, não há quem possa segurar.
Por isso que, terminado o jantar, começou o rosário de vantagens. Cada um queria contar uma proeza maior que o outro. Evidentemente, muitas mentiras vieram à luz ou melhor, pequenas verdades com grandes acréscimos que viravam mentiras espetaculares.
Espera um bocadinho, que no capítulo que vem, vou reproduzir algumas das meias verdades que foram multiplicadas muitas vezes, virando grandes mentiras.

CAPÍTULO XXXVII

Alaor, o motorista, começou com seus causos. Os mesmos que contava em todas rodadas de prosa, comuns em frente aos restaurantes de beira de estrada, pontos de almoço de caminhoneiros. Como aperitivo, narrou a história dum teste que fizera para um emprego de condutor de viatura numa grande companhia de terraplenagem. Fazia questão de utilizar a expressão “condutor de viatura”, achava mais chique, mais importante que simplesmente motorista. Muito bem. Para o teste, que tinha por objetivo avaliar suas habilidades como motorista, deram-lhe um caminhão caçamba F.N.M. cara chata, antigo. O tal caminhão, era queixo duro, o que na linguagem dos motoristas significava câmbio seco ou não sincronizado, o que exigia muita habilidade do condutor. Além disso, estava com defeito no sistema de embreagem. Segundo Alaor, de cada dez candidatos que faziam teste nesse caminhão, onze eram reprovados. A prova consistia em sair com o caminhão carregado, passar todas as marchas, da primeira à quarta e, em seguida, voltar da quarta à primeira, e parar o veículo sem usar o freio. Se raspasse alguma marcha o candidato era reprovado. Alaor fez tudo conforme determinado, sem uma única falha, sendo aprovado com louvor.
Para mostrar toda a sua habilidade, Alaor disse ao examinador
:-Vou fazer tudo de novo. Se eu barberar pelo menos uma vez, não quero o emprego.
Repetiu toda a manobra, sem cometer um único erro, só que, desta vez, passou as marchas com o pé, e sem usar a embreagem.
Nania lascou a sua que era de arrancar pica-pau do oco:
-Uma vez, fiz uma viagem com meu primo Iracy, de Patos até o Sul da Bahia. O caminhão dele era um F.N.M. cara chata, freio a vento, do jeito daquele que ‘ocê’ fez o teste. Descambando para a cidade do aço, numa descida de mais ou menos dez quilômetros, o caminhão acabou o freio. O Iracy gritou comigo para segurar a direção, pegou uma mangueira atrás do banco do motorista, pulou no chão, ligou a mangueira no compressor de ar, arrancou o conduíte do freio e ligou no lugar dele a outra ponta da mangueira. Voltou no compressor e abriu o ar. O caminhão rastou os seis pneus até parar. Iracy, meu primo, aquilo é que era chofer (que Deus o tenha em bom lugar). Duvido que no mundo tenha outro que nem ele. Prático e de coragem.
Estas duas, são das pequenas. Enquanto tinha pinga no garrafão e lenha no fogo, a mentira rolou solta. Aquela história do tiro que o Nania deu no Pedro Gamela, no Cabaré, lá na Lagoa, quando ele errou o alvo, acertando o telhado, ele disse que à tarde, ainda de dia, tinha visto uma pedra em cima do telhado e que calculou o local da pedra; a telha que devia quebrar na bala para a pedra cair, e a posição do Pedro Gamela para a pedra cair exatamente na cabeça dele.
Acrescento aqui esta história para que o leitor possa avaliar o grau de verdade dos causos, uma vez que esta você sabe como aconteceu e que foi tudo mera casualidade.
Mas vamos deixar de lado tanta mentira e vamos para o próximo capítulo, falar de coisa séria.

CAPÍTULO XXXVIII

- Meu irmão, Laor.
- Fala, meu irmão Nania.
- é tonto que nem gambá.
- Eu é bão. Inda guento mais duas garrafa.
- Só se for garrafa d’água.
- D’água, não. De pinga. Da boa, de engenho que nem essa sua que nós bebeu tudo... Tudim.
- Manhã nós compra outra.
- Quando chegar em Uruaçu vou apresentar minha muié procê. A Santinha. Mas num passa o pé adiante da mão não. Se não eu faço cocê que nem eu fiz com o Pedro Gamela.
- Cê besta Sô. Muié de irmão meu, que nem ocê, pra mim é homem.
Cantaram abraçados, dançaram, gritaram até que o cansaço tomou conta deles. Então caíram ali na beira do fogo e só acordaram quando sol já estava quente, lá pelas nove da manhã do dia seguinte.
- Nania, como tá de ressaca, meu irmão?
- Não tô sentindo nadica de nada. Parece que não bebi nadinha ontem.
- Nem eu. Pinga boa não dá ressaca...
Alaor deu uma espreguiçada para espantar a falta de coragem e convidou Nania para darem um mergulho n’água fria. Um banho àquela hora iria lhes fazer muito bem. Ainda mais levando-se em conta que deveriam pegar a estrada imediatamente e ainda faltavam bem umas oito léguas para chegar a Uruaçu.
Alaor conferiu os amarrios da carga, bateu nos pneus com a manivela de dar partida no motor, verificou o nível do óleo e a água do radiador. Estava tudo em ordem. Completou a água da borracha. Entregou a manivela ao Nania e entrou na gabina. Fez sinal ao ajudante improvisado e este acionou a manivela. Meia-volta e motor pegou. O pronto funcionamento do motor arrancou este comentário do motorista:
- Êêê... Companheiro, o possante tá pegando mais que gonorréia em p. de casado.
O palavrão soou com naturalidade, como é costume entre os trabalhadores da área, incluindo-se na categoria, choferes, ajudantes, mecânicos, badecos, borracheiros, chapas e sapos de oficina (aqueles que não tendo o que fazer, vão matar o tempo nas oficinas mecânicas, enchendo o saco de quem trabalha, principalmente dando palpite no que não lhes é da conta).
Daí para frente, Nania passou a viajar na gabina, juntamente com Alaor, fato que contribuiu para estreitar os laços de amizade entre ambos. Não gosto desse tipo de frase pré-fabricada (fato que contribuiu para estreitar os laços de amizade entre ambos), tem cheiro de coisa copiada. Melhor será dizer: fator de grande relevância para a consolidação da amizade entre ambos, pelo que o período fica assim escrito:
“Daí para frente, Nania passou a viajar na gabina, juntamente com Alaor, fator que foi de grande relevância para a consolidação da amizade entre ambos.”
De fato, nascia entre os dois uma amizade que prometia ser duradoura. Diante disso Alaor começou a pensar em fazer um convite a Nania.
Conversa vai, conversa vem, chegou a oportunidade do imaginado convite.
- Nania, cê tá atrás de arranjar serviço e eu tou precisando de um ajudante. Cê num quer trabalhar comigo, não? Tem muita gente querendo este emprego, mas eu não confio em qualquer um não. E eu vejo em você uma pessoa em que se pode confiar plenamente.
- É o que mais quero. Poder trabalhar viajando.
- Cê concordando com o salário que posso pagar, já tá trabalhando.


CAPÍTULO XXXIX

Em Uruaçu, Nania não encontrou Santinha em casa. Segundo lhe informaram os vizinhos, ela havia mudado sem dizer nada a ninguém. Desapontado, Nania tratou de ir dando o fora, quando Dona Flor, a vizinha de frente, uma senhora gorda, tagarela e que tinha uma charrete e costumava dar carona aos vizinhos, chamou-o de volta e segredou, encostando-lhe a boca no ouvido e fazendo tapume com a mão:
- Os vizinhos aqui não sabem porque ela pediu para eu não contar nada a ninguém, mas ela morando na casa da Augusta.
- Casa da Augusta. Onde é isso?
- Na Fôia, Seu Nania, na Fôia...
Nania desesperado, quase chorando, repetia baixinho para os vizinhos não escutar:
- Na Fôia. Santinha na Fôia ...Mas por que, meu DEUS?
- Mas num foi culpa dela não, Seu Nania. A coitadinha bem que pelejou pra num ir, mas chegou num ponto que num teve jeito...
- Quando foi isso, Dona Flor?
- Semana passada. Hoje faz cinco dias que ela me pediu e eu levei ela lá, na minha charrete.
- Mas por que foi isso Dona Flor? A senhora disse que ela não teve culpa, então o que foi que aconteceu?
- Foi o seguinte: logo que o senhor viajou a mãe dela foi transferida para a Bahia, porque a firma tá fazendo uma estrada lá perto de Feira de Santana. Ela ficou aqui sozinha, sem recurso. O dinheiro que o senhor deixou, acabou, aí ela procurou emprego até cansar, mas num arranjou. As vizinhas todas aqui gostam muito dela, ajudavam com uma coisa ou outra, de modos que ela foi se aguentando, mas com muita dificuldade. Mas chegou um momento que as coisas pioraram tanto... O senhor sabe, o povo vai ajudando, vai ajudando, mas um dia cansa. Foi o que aconteceu com a Santinha. O senhor sabe... A notícia esparramou e ela muito bonita, logo deu de aparecer esses ricos safados fazendo ofertas pra ela. Dinheiro, grosso pra ela ir morar na Fôia. Ofereceram a ela conforto de boca, de vestir e de calçar, além de casa e de dinheiro pra ela pagar tratamento. Mas tinha uma condição: ela tinha que ir morar na Fôia, na casa da Augusta. Além disso, ela arranjou uma febre e tava precisando de tratar. Tava muito fraquinha por causa da falta de comida e tossindo muito. Disseram até que ela tava com começo de doença ruim, dessas que num tem cura e que é danada pra pegar nos outro. Ela chorava muito e clamava a falta do senhor... No dia que levei ela na casa da Augusta, ela foi chorando daqui até lá. Dava pena ver a coitadinha naquela consumição danada por causa do senhor...
- Tá bom, Dona Flor. Muito obrigado pela notícia.

CAPÍTULO XL

Transtornado, Nania voltou para junto de seu amigo Alaor, que tinha ficado esperando, com o caminhão estacionado na sombra dum pé de manga a uma pequena distância da casa de Dona Flor.
- É... Meu irmão... Aconteceu uma tragédia!... Minha mulher morando na Fôia...
- Mas isso é uma coisa muito ruim. O que foi que aconteceu?
- O dinheiro que eu deixei com ela acabou. Minha sogra mudou para a Bahia; ela ficou sozinha e adoeceu de tanto passar fome. Aí apareceu um rico que prometeu resolver a situação dela, mas com a condição dela morar na Fôia... A culpa foi minha, eu sei.
- Laor, faz um favor pra mim?
- Faço o que ocê quiser.
- Vai lá na casa da Augusta; conversa com ela; vê comé que ela tá. Eu num tenho coragem de ir lá não.
- Eu vou. Pode ficar frio.
- Cê pode ir hoje à noite?
- Claro. Cê sabe, . Qualquer problema que ocê tiver, ocupuamigo.
- Ah... Vai pro inferno.
- Agora inda num é nem meio-dia. Vamo tomar uma, almoçar; dar uma adubada no possante e à noite cê vê isso pra mim.
- Que que nós vamos beber?
- Uma dose de pinga pra cada um e uma cerveja pra nós dois.
- Antartica casco verde, na venda do Remundim.

CAPÍTULO XLI


Na casa da Augusta, Alaor foi recebido por uma mulher bonita, que atendia pelo nome de Diva e esse era seu nome verdadeiro, ao contrário da maioria das mulheres da casa, que usavam nomes de guerra. Diva era uma moça que tinha boa cultura, falava corretamente nossa língua e fazia questão de exibir seus conhecimentos, às vezes até com certa afetação, o que desagradava sobremaneira suas colegas de trabalho, quase todas analfabetas ou semialfabetizadas.
- Pois não, senhor, em que a gente lhe pode ser útil?
- Estou precisando falar com a Santinha. Ela mora aqui, pois não?
- Quem devo anunciar à Santa?
- Alaor. Venho em nome de Nania.
- O senhor poderia adiantar o assunto?
- Infelizmente, não. É particular.
- Por favor aguarde. É somente um minuto.
De fato, passados alguns segundos, voltou Diva se equilibrando sobre os exagerados vinte centímetros de um belo par de sapatos fechados, confeccionado em verniz preto, feitos sob encomenda por Sérgio Noleto e Alonso Alves, os melhores profissionais em todo o Norte de Goiás, naquela época em que fazer sapato era uma arte e a região contava com excelentes artistas na área.
- Sr. Alaor, a Santa o espera na sala de reuniões. Queira acompanhar-me, por gentileza.
A sala onde Alaor foi introduzido era uma peça pequena e simples. Tinha o piso de cimento vermelho muito polido e como decoração, apenas uma mesa retangular rodeada por doze cadeiras de madeira e, em um canto, um filtro de água, desses comuns, de barro.
Sentada a uma cabeceira da mesa, uma moça deslumbrantemente bela, que se levantou com a chegada do visitante. Diva fez as apresentações:
- Santa, este é o Senhor Alaor, que deseja falar com você, a respeito de Nania.
- Senhor Alaor, esta é a Santinha, que o senhor procura e que aqui entre nós é simplesmente Santa.
Diva pediu licença e se retirou, deixando os dois a sós.
- Pois, não, Seu Alaor. O senhor deseja falar comigo?
- Sim. Venho da parte de Nania.
- Como é que ele tá?
- A saúde do corpo tá ótima, mas a alma tá marrotada.
- Num entendi.
- Ele já vinha muito abalado pelos acontecimentos lá da Tromba, onde ele participou duma batalha, lutando ao lado dos posseiros, ocasião em que morreram muitos soldados e ele se sente culpado por muitas dessas mortes.  Seu estado de espírito acabou de arruinar aqui em Uruaçu, ao tomar conhecimento dos fatos que acabaram com sua vinda para este lugar.
- Por que o Senhor veio no lugar dele?
- Ele não teve coragem de vir e, como somos amigos, me pediu que viesse.
- Não teve coragem, por quê?
- Porque se sente culpado de tudo que aconteceu com você.
- A culpa não é dele. É do mundo. É da estrutura social brasileira. É da falta de oportunidade ao pobre. É da má distribuição de renda, que faz o pobre cada vez mais pobre e o rico cada vez mais rico. À mulher bonita e pobre, a sociedade reserva sempre um lugar de destaque na prostituição.
- Infelizmente é verdade. Verdade que nos cabe mudar, escolhendo melhor nossos representantes políticos e, se necessário, recorrer às armas como faz nossa gente de Tromba.
- Mas o que uma mulher frágil pode fazer com uma arma na mão, atrás de uma trincheira?
- Nada. O papel da mulher nessa luta armada será dar apoio ao marido, ao companheiro, usar a grande força que tem sobre o homem e levá-lo à luta. Mantê-lo motivado, em busca do objetivo que desejamos alcançar: criação de uma estrutura social com oportunidades iguais para todos.
- Diga ao Nania que ele num tem culpa nenhuma. Vim ocupar o lugar que o mundo me reservou aqui neste prostíbulo, como muitas outras mulheres a quem a sociedade negou tudo, principalmente o direito à dignidade.
- Ele pediu-me para dizer-lhe que agora estamos trabalhando juntos. Somos camioneiros.
- Aproveitem esse privilégio de poderem correr o mundo e preguem por onde passarem a ideia da luta por um mundo melhor. Outra coisa, diga ao Nania que o amo demais, e espero que ele seja muito feliz.

CAPÍTULO XLII

Ante a dura realidade, Nania repensou sua vida e resolveu fazer sua parte na tentativa de construir uma sociedade mais justa. Já conhecia algumas pessoas ligadas ao movimento dos camponeses de Trombas, decidiu procurar um deles. Procuraria o que lhe parecesse mais inteligente e mais bem informado sobre o assunto, e que fosse capaz de lhe dar as noções necessárias para os primeiros passos. Para indicar-lhe o caminho desse início de caminhada, procurou o ativista José Fernandes Sobrinho.
Nas duas semanas seguintes, manteve com o líder socialista duas seções diárias de entrevistas. Uma das oito às onze horas da manhã e outra das sete e meia às dez e meia da noite. Nessas entrevistas que somaram oitenta e quatro horas, Nania recebeu noções de Direito Agrário, ficou conhecendo a estrutura agrária brasileira, principalmente a goiana; aprendeu um pouco de economia política; navegou pelas estratificações sociais das grandes cidades brasileiras, tomou conhecimento da forma de exploração dos operários pelas grandes indústrias, onde o capital predominava sobre o trabalho. Mas de tudo que aprendeu o que mais o impressionou foi a vida das crianças de rua e das prostitutas. Aquelas entrevistas mostraram-lhe um mundo que até ali lhe fora absolutamente desconhecido. Com isso, passou a entender melhor alguns fenômenos sociais e constatou que Pedro Gamela era algo muito pequeno em relação à maldade então reinante.

Finda a última entrevista, Nania se sentiu apto a iniciar sua tarefa de convencer pessoas a participarem das mudanças da sociedade, começando com seu amigo e colega de trabalho, Alaor, transmitindo-lhe tudo que aprendera com Zé Sobrinho.

A dupla Alaor e Naia se transformou numa célula volante dos movimentos sociais. Onde iam, levavam sua palavra, pregando as mudanças. Juntos, participaram de muitos cursos intensivos, onde aprenderam de tudo, inclusive oratória, e como eram ambos muito inteligentes se transformaram grandes oradores, com extraordinária capacidade de convencimento. Falaram para grandes platéias e organizaram muitos movimentos sociais por esse Brasil afora. Buscando melhor segurança nas estradas e a recuperação de algumas rodovias que se achavam em estado precário, lideraram uma monumental greve de caminhoneiros que paralisou o País até o governo atender suas reivindicações.

Para que Nania pudesse se instruir sobre os movimentos sociais, Alaor teve de mudar seu plano e vender a carga de arroz em Uruaçu, em vez de Anápolis, como era seu costume e sua intenção, mas descobriu que esse era um bom lugar para fazer negócio. Teve um bom lucro, tanto pelo preço conseguido, como pela economia no frete.

Enquanto Nania esteve ocupado com as entrevistas, Alaor fez uma revisão no possante, consertando diversas coisinhas que vinham estragando e ele nunca tinha tempo de reparar, inclusive os faróis que estavam queimados havia já algum tempo, defeito que, obviamente atrapalhava por demais suas viagens, mas que muito contribuiu para conhecer Nania que se tornou seu melhor amigo e companheiro.

CAPÍTULO XLIII

Com o evaporar do amor, que Nania pensava fosse para sempre, sua vida sofreu uma mudança radical. Dali para frente passaram, ele e Alaor a morar no caminhão. No possante eles trabalhavam, preparavam sua própria comida e, onde estacionavam, armavam a barraca de lona e dormiam.
Nania comprou todos os livros que lhe recomendara Zé Sobrinho e adquiriu o hábito da leitura de tal forma que passou a ler diariamente durante duas horas, todas as noites o que lhe possibilitou um vasto conhecimento sobre formas de governo, economia e, principalmente, sobre os movimentos sociais no Brasil e na América Latina.
Na segunda-feira seguinte ao término das entrevistas, Alaor e Nania foram buscar uma carga de arroz no Município de Amaro Leite. Viajando na gabina, ao lado de Alaor, Nania dormiu e sonhou um sonho lindo que envolvia a sua fazenda, em Minas Gerais, Do Carmo e as idéias de Massu.
O ex-marido de Do Carmo, com uns cobres que ainda lhe restavam dos que trouxera de Minas Gerais, fez uma sociedade com Alaor, para compra e venda de cereais. Ele entrando com setenta por cento do capital e Alaor com trinta e o caminhão. O lucro seria dividido meio a meio. Em caso de frete, deduzidas as despesas, Nania teria dez por cento.
Os dois estabeleceram um plano de trabalho. Ficariam na região de Uruaçu comprando e vendendo arroz, até o final do mês de agosto. Até essa época do ano os produtores vendem toda a sua colheita; daí para diante, o produto se torna escasso e os negócios menos rentáveis. Então, é hora de buscar outras regiões, com outras oportunidades de negócios ou, simplesmente, trabalhar com frete.
Tal como planejado, findo o mês de agosto não encontraram mais arroz para comprar. Então, deram um balanço nas atividades, constatando que em dois meses de trabalho haviam dobrado o capital. Tamanha lucratividade foi possível graças às ideias trazidas por Nania à sociedade. Ganharam juntos, naqueles poucos dias mais que Alaor havia conseguido em dois anos de intenso trabalho. O dinheiro que ganharam já dava para pagar metade de um caminhão novo. Sem arroz para comprar, partiram para o frete. O que não podiam, era ficar parados. Pegaram uma mudança para Patos de Minas, de um fazendeiro que viera daquele Município, não se adaptara à região e estava arribando, de volta às suas querências. Já em Patos, decidiram experimentar um negócio novo. Levar farinha de mandioca e rapadura para vender no Nordeste. A região nordestina estava atravessando um período de longa estiagem, de sorte que enfrentava forte crise de abastecimento, o que, teoricamente, significava excelente oportunidade de negócios no que se referia a fornecimento de produtos alimentícios, mormente em se tratando de mercadoria de larga aceitação na região como rapadura e farinha de mandioca.
Decidido o que comprar e onde vender, surgiu um problema: onde e de quem comprar, mas isso não preocupou nossos caminhoneiros. Foram às feiras livres e aos mercados populares buscar a informação de que necessitavam. Nessa busca, uma surpresa para Nania. Todos os caminhos apontados convergiam para um único nome. Uma fazenda com estrutura empresarial, onde poderiam encontrar o que procuravam em grande quantidade e boa qualidade, a fazenda de Do Carmo, nas cabeceiras do Paracatu.

CAPÍTULO XLIV

Navegando por excelente estrada de rodagem, em menos de uma hora chegaram à sede da fazenda, que havia saído da beira do rio para ocupar um lugar mais alto, com leve inclinação, para facilitar o sistema de esgoto e drenagem. A fazenda parecia uma cidade. Em frente à casa principal, um grande jardim, com belas alamedas ladeadas de plantas do cerrado, com muita grama e canteiros de flores, tudo isso muito bem cuidado. Do jardim, que mais se assemelhava a uma praça, partiam quatro avenidas, formando uma figura em forma de leque, onde foram construídas duzentas casas para os trabalhadores. Ao lado da casa principal, ficava o conjunto administrativo, composto de galpão para depósito, escola, farmácia, escritório. Fronteira a casa, no centro do jardim, uma capela dedicada a Nossa Senhora do Carmo. Currais, paióis e chiqueiros ficavam a uns quinhentos metros do setor residencial, para evitar o mau cheiro nas residências, e a concentração de moscas; com isso, evitava-se, também, a contaminação de alimentos.

Tudo isso com boa iluminação elétrica e até um rádio de comunicação ligado direto com o escritório da fazenda em Patos.

Numa conversa que teve com sua ex-mulher, que o recebeu em sua confortável e bem decorada sala de trabalho, Nania indagou dela como havia progredido tanto e em tão pouco tempo. Aquilo parecia um milagre. Ela narrou-lhe tintim por tintim os motivos de seu sucesso econômico. Mostrou-lhe os benefícios sociais que havia implantado em favor dos trabalhadores. Em seguida, tocou uma campainha e apareceu um garoto uniformizado, ela pediu um livro que apresentou a seu ex-amor, onde registrava a produção com as estatísticas da fazenda e a relação custo-benefício referente aos investimentos sociais.  Graças aos seus estudos Nania compreendeu tudo, o que foi uma surpresa para Do Carmo.

Na verdade, ambos tinham progredido muito. Ela na área econômica e ele, na intelectual. Economicamente, ele estava bem pior de que quando saíra da fazenda e ela, no tangente a conhecimentos, era apenas a reprodução do que pensava e falava Massu. Resumidamente, Massu era o cérebro e ela, os músculos que acionavam aquela super estrutura.

Mais uma vez, o Posto do Alcidinho, em Amaro Leite, interrompe um sonho de nosso herói.

 

CAPÍTULO XLV

Retornando a Uruaçu, Alaor obteve um bom lucro na venda da carga de arroz, o que lhe possibilitou efetuar o pagamento do primeiro salário de Nania, que amargava uma pindaíba franciscana, desde que gastara seu último tostão comprando aquela rapadura e dois queijos na venda do Antônio Macaco, quando ia a pé da posse do Nego Carreiro para a Rodovia, a fim de pegar uma carona para Uruaçu e cair nos braços de sua amada Santinha. Mal recebeu a grana do salário, correu para a casa de Augusta, atrás de Santinha, na esperança de que ela desistisse da prostituição e voltasse para ele. Mas foi baixo. Ela fincou pé que ali era seu lugar e ponderando:

-Nania, desde o momento em que uma mulher mora na zona, não adianta querer voltar a uma vida normal. Para o povo, principalmente para os homens, ela será sempre uma rapariga. Se eu me casasse com você, você ia ter muito desgosto p’ra mó disso.

-P’ra mó de quê?

-P’ra mó de que tudo quanto é homem vai se achar no direito de me cantar. Já pensou?

Santinha deu a conversa por encerrada. Nania, amarrotado, uma enorme vontade de chorar, mas com a falsa ideia de que homem não chora por amor, saiu do local e foi afogar seus pesares no boteco do Remundim. Escolheu um lugar discreto, num canto menos claro, sentou-se sozinho e pediu uma cerveja. Ainda no primeiro copo, apareceu Diva (aquela que recebera o Alaor na casa da Augusta e que falava corretamente), e pediu para fazer-lhe companhia, o que ele aceitou prontamente. Ela era uma mulher linda e sensual, cuja presença era capaz de provocar até o mais sisudo dos cavalheiros. Evidentemente não estava nas forças de Nania resistir aos ataques planejados e eficientes de Diva. Se conseguisse essa façanha, seria o primeiro, na sua longa carreira, a não se submeter a seus encantos. Nem mesmo a força do amor de Santinha seria capaz de impedir o encontro íntimo de Nania com a poderosa Deusa, pensava ela, alimentando sua própria vaidade.

Se você tiver a gentileza de aguardar um pouco, poderá viver, nos próximos capítulos, as emoções dessa incontrolável paixão de Nania. Antes, porém, vou passar a batuta dessa narração a Diva. Acho que ela, sendo deusa, poderá fazer isso melhor do que eu. Talvez eu volte mais tarde, mas somente o farei se for absolutamente necessário.

Fui...

 

CAPÍTULO XLVI

Eu sou Diva, mas a bem da verdade, é bom esclarecer que não sou nenhuma Deusa e nem me foi dado esse nome por atributo de beleza. Ele me foi dado na pia batismal e mamãe nada sabia de seu significado. Ela conheceu alguém com esse nome, achou-o bonito e pronto. Deusa, só etimologicamente.

Como você, leitor, pode ver, começo a difícil tarefa de dar continuidade a esta história, arrostando uma dificuldade; prestar esclarecimento sobre omeu próprio nome. Mas deixemos isso p’ra lá e vamos ao trabalho.

Como foi dito no final do capítulo anterior, Nania, visivelmente aborrecido com o comportamento de Santinha, que se recusou a voltar para ele, estava enchendo a cara de cerveja no boteco do Remundim, quando cheguei lá e pedi para fazer-lhe companhia. Na verdade, eu não queria beber nada, queria apenas conversar. Ficamos ali naquela mesa durante umas três horas. Nesse lapso, ele bebeu meia dúzia de cerveja, sozinho, porque, como disse, eu não queria beber. Não passei do primeiro copo. Mas nossa conversa foi proveitosa. Ele contou-me sua história desde aquela tarde que entrou naquela jogatina no Buzo de Pedro Gamela, até hoje. Quando falou de seu amor a Santinha, pude sentir sua voz embargada e observar-lhe os olhos rasos d’água. Nania falou-me da incerteza de seu futuro longe de seu grande amor; disse-me que tinha medo das conseqüências de não poder levar a bom porto seu projeto de vida, no qual se incluía sua união com Santinha. Senti que ele era sincero em suas afirmações quando se referia a seu amor, embora se mostrasse visivelmente abalado, em nenhum momento de nossa conversa, demonstrou interessar-se por mim, como mulher, o que em outras circunstâncias teria me deixado frustrada e furiosa, porquanto detesto ser ignorada por homem.

 

CAPÍTULO XLVII

Deixei Nania com sua paixão e fui levar a Santinha o relatório da investigação de que ela me incumbira. Contei-lhe tintim por tintim tudo que conversei com o seu namorado e as observações sobre seus gestos e seu tom de voz, enfim tudo que me pareceu importante para uma avaliação tão mais próxima da realidade quanto possível. Por fim, disse de meu convencimento sobre a paixão dele por ela.

Diante dessa verdade, Santinha voltou atrás a respeito de sua decisão de permanecer onde estava. Iria acompanhar o seu amor, ainda que, em matéria de conforto, fosse comer o pão que o diabo amassou com o rabo. Não ficaria mais nenhum minuto longe de seu amor. Levantou-se de um salto, abraçou-me com força, beijou-me a face numa explosão de alegria pouco comum naquela alma reservada e cheia de pudor. Saiu correndo, correndo mesmo, como uma criança, pulando e rindo e gritando rumo ao boteco do Remundim. Quando Santinha apareceu à porta, Nania estava levantando o copo para mais um gole. Ao vê-la, interrompeu seu gesto, com o copo no meio do caminho. A boca que já estava aberta para receber a bebida, ele não conseguiu fechar. Deixou o copo espatifar no piso de cimento, e saiu correndo para abraçar sua amada. Quando conseguiu descolar sua boca da boca dela exclamou com emoção:

-Amor, você voltou. Nossa Senhora da Lapa ouviu minha prece. Obrigado Meu Deus. Muito obrigado.

-Voltei sim, amor. Voltei e não vou deixar você nunca mais.

-De agora em diante, nada poderá nos separar...

-Vamos construir nossa casa, que será pequena e branca e que tenha na frente uma porção de flores, dessas que nascem espontaneamente no terreiro das casas humildes e crescem beirando o cisco. Terreiro de terra batida, bem varrido e aguado para evitar a poeira. Galinhas ciscando e cacarejando, e uma porção de crianças brincando no quintal repleto de pés de frutas.

-Não quero outra coisa.

Santinha, contrariando todo o seu costume, tomou dois copos de cerveja com o seu amado e, logo em seguido, saíram do local e foram para uma pensão familiar. Pediram dois quartos e no dia seguinte acertaram o casamento para a festa do Muquém.

 

CAPÍTULO XLVIII

Depois daquele curso intensivo de sociologia que Nania fez com Zé Sobrinho, ele não conseguia se interessar por assunto que não girasse em trono de questões sociais e, nesse aspecto, Santinha era absolutamente ignorante e, quanto mais seu namorado tentava impor-lhe “suas” teorias sociais, menos ela entendia, o que deixava Nania visivelmente irritado. Eu, modéstia à parte, tinha - um bom conhecimento da matéria -, graças a meus estudos no Colégio de Freiras, onde o professor de sociologia, era severo e exigente, a par de ser um socialista convicto. Graças a essas qualidades de meu mestre, aprendi alguma coisa, que se não era muito, era suficiente para impressionar Nania que passava horas e horas ouvindo-me discorrer sobre o assunto. E, às vezes, até arriscava a dar minhas próprias opiniões, sempre aplaudidas por meu interlocutor.

Volta e meia, reclamava da falta de interesse de Santinha pelos temas sociais. Notei, também, que ele começava a olhar-me com aquele olhão comprido e, muitas vezes, prolongava nossas conversas desnecessariamente.

Seu trabalho com Alaor se resumia em pequenas viagens às fazendas do Município de Uruaçu ou dos municípios vizinhos, no que não gastava mais de um dia ou, quando muito, dois. Era só chegar à fazenda, carregar o caminhão e virar a rédea da égua para trás. Trabalhavam permanentemente com eles dois ou três chapas, de modo que seu trabalho, no referente à carga, se resumia no distribuir a sacaria nos espaços adequados para controlar o peso sobre cada roda e para que a carga não entortasse. No mais, o pesado mesmo, aquele trabalho de ombrar sacos de sessenta ou até oitenta quilos, era com os chapas. Vez por outro, o próprio Nania comprava uma carga de arroz e, nesse caso, pagava o frete ao Alaor e ficava com o lucro da compra e venda. Com isso ajuntou uns cobrinhos extras e comprou uma casa modesta, do jeito daquela que Santinha sonhava para criar seus filhos.

Passados uns dias desde quando iniciaram nossos encontros diários, comecei a sentir falta de Nania nos dias que ele não aparecia. Essa constatação começou a incomodar-me porquanto cheirava-me algo que eu conhecia bem e de que havia muito tempo vinha fugindo. Agora, justamente com o homem da Santinha!... Isso não poderia acontecer. Ela era a minha melhor amiga. Mas por mais que me esforçasse para tirar aquela coisa de dentro de mim, mais eu pensava nele e sentia aquela dorzinha gostosa dentro do peito, privilégio dos enamorados. De vez em quando surpreendia-me a mim mesma suspirando por ele. Ele também não era indiferente a esse sentimento. Demonstrava-o pelos seus gestos, suas atitudes, seu olhar. Mas tudo isso nada obstante, mantínhamo-nos firmes em nossas posições de fidelidade a Santinha, ele pelo amor e eu pela amizade.

 

CAPÍTULO XLIX

Enquanto isso, Santinha vinha, dia-a-dia, se aborrecendo com a insistência de Nania em impor-lhe seus conhecimentos de sociologia. Ela detestava o assunto por causa do que sucedera com seu pai no Estado do Maranhão quando ela era ainda criança. Segundo me contou, ela, a mãe e o pai moravam em um bonito lugar às margens de um riacho, que tinha uma grande cachoeira. A casa modesta, típica de camponeses maranhenses, ficava logo abaixo dessa cachoeira, de modo que o ruído das águas despejadas de uma altura de vinte metros se fazia monótono dentro de sua casa. No grande poço formado logo abaixo da queda d’água, era onde ela e as meninas suas vizinhas iam nadar todos os domingos de sol. Além disso, o local era excelente ponto de pescaria. Enquanto a mãe colocava a panela no fogo, o pai ia buscar o peixe. Era só o trabalho de jogar o anzol e puxá-lo fisgado. A terra era fértil e seu pai, trabalhador. Santinha viveu até os onze anos nesse paraíso, desfrutando do amor dos pais e da beleza do lugar, sem falar na mesa sempre farta, onde o peixe era apenas uma variedade permanente.

Essa felicidade acabou num dia que apareceram por lá uns jagunços intimando o pai dela a sair do lugar, porque a terra “pertencia” ao coronel fulano de tal. Ele tentou defender sua posse, mas foi assassinado covardemente pelos jagunços. O resto dessa história, você já sabe. A viúva e a menina órfã viraram retirantes e comeram o pão do diabo. Eis os motivos pelos quais Santinha odiava os assuntos ligados a posse, posseiros e tudo que falasse em movimento social pela posse da terra. Isso não agradava a Nania.

Entendia ele que esse fato, ao contrário do que pensava Santinha, era mais um motivo para ela engajar na luta pela justa distribuição da terra. Mas ela era irredutível. Fez finca-pé e não mudou sua opinião. Também, pudera. A coitada, por causa disso, já tinha passado da banda ruim, comendo do lado azedo do bolo social. Ela entendia a posição do seu namorado, mas não poderia, jamais, se engajar nesses movimentos.

CAPÍTULO L


Numa tarde de calor intenso como sempre ocorre na região Norte de Goiás, Nania e Santinha saíram para a casa que ele comprara. Levaram algumas sementes de frutas para plantar no quintal, mudas de flores para o terreiro da sala. Caminhando por uma estrada de carroça que serpenteava pelo cerrado à sombra de pés de pequi, cagaiteiras, mangaba, jatobá e até um frondoso cedro que crescera ali no cerrado, não se sabe por que milagre, já que aquela é uma planta típica de terra de mata. Iam os dois abraçados, fazendo planos para o futuro, quando passaram debaixo dum pé de ipê-amarelo, naquela época sem flores. Santinha olhando para a bela árvore que ela havia observado coberta de flores no ano anterior, disse:

-No dia que esse pé de ipê estiver amarelo como ouro, nós estaremos no Muquém festejando nosso casamento.

-Cê num acha que a festa do Muquém muito longe?

-Eu acho, sim.

-Pois é. Vamos mudar a data de nosso casamento!

-Vamos. P’ra que dia?

-Pra depois de amanhã, segunda-feira.

-Dá tempo?

-Claro. Nossa casa não falta nada. Os papéis já estão prontos.

-Segunda-feira cedo a gente marca a hora com o homem do Cartório e quando for de tarde a gente já tá casado.

-Combinado.

 

Confesso que fiquei muito chateada quando Nania me deu essa notícia. Foi aí que entendi que estava perdidamente apaixonada por aquele que eu pensava que fosse apenas meu amigo. Naquela noite excedi-me na bebida, coisa que nunca havia feito desde que chegara a Uruaçu; mandei a elegância para os quintos dos infernos, botei a educação refinada debaixo da cama e aprontei um fuzuê dos trezentos. Foi um Deus nos acuda, em toda a ZBM. Terminei a noite dormindo num banco de madeira no boteco do Remundim. Meu elegante vestido de linho branco, feito sob medida, bordado com pedrarias, todo manchado de restos de bebida e de comida, meu belo sapato a LUIZ XV, com salto quebrado. Sentei no banco, o mundo em minha volta rodou e eu caí no chão como uma manga madura. Quando acordei estava deitada em minha cama, com uma porção de amigas me esfregando com “alcanfor”, o Tote em pé ao lado da cama  e uma seringa de injeção fervendo sobre a mesa. Quando abri os olhos, a primeira pessoa que vi, foi Santinha. Depois de alguns segundos O mundo escureceu de novo. Tote reconhecendo a gravidade do caso, saiu apressandamente e foi chamar seu pai que era um farmacêutico experiente e tão competente quanto um médico.

 

CAPÍTULO LI

De repente me deu vontade de voar. Tentei e vi que podia flutuar e movimentar-me no ar. Subi, subi, e lá de cima eu via a Terra e a Terra era linda e parecia uma enorme colcha de retalhos verdes, em milhares de tonalidades. Voei, voei e a paisagem não mudava. Era sempre aquela variedade de verde. Uma linda monotonia. Não havia estradas, não havia carros, nem cidades nem gente, nem animais... Queria descer, mas uma força estranha mantinha-me lá em cima e me fazia subir cada vez mais. Subi, subi até que o sentido de dia e noite desapareceu e tudo era claro, como de dia. Um frio intenso começou a atormentar-me o corpo e um facho de luz se fez à minha frente e era um túnel em que a gente descia como num escorregador desses aquáticos que existem nos clubes. Na descida, atingi uma velocidade que jamais imaginara que fosse possível atingir. Tinha consciência que ia chegar ao chão e tive medo do impacto, pensado: vou quebrar-me toda. Mas quando caí, a queda foi macia, imperceptível... Acordei rodeado por minhas amigas que gritavam viva, viva, graças a Deus, ela voltou. Brigada Nossa Senhora d’Abadia do Muquém.
Seu João, o pai do Tote, estava a meu lado, sentado à minha cabeceira, refrescando-me a testa com uma toalha molhada. Nania também estava lá, sentado a um canto, com um rosário na mão, rezando.
Tentei conversar, mas não consegui, além disso, Seu João pediu-me para não fazer nenhum esforço, nem mesmo conversar.

Quando me senti mais forte, foi-me esclarecido que tive um coma alcoólico e que fiquei cinco dias seguidos entre a vida e a morte.

CAPÍTULO LII

Tote, que apareceu de passagem no capítulo precedente, era um jovem importante na sociedade local, por causa da notabilidade de seu pai que, apesar de não ser médico, muitas vidas salvou em Uruaçu, fazendo, inclusive, uma cesariana para salvar a vida de uma mulher, cujo filho começou a nascer pelos pés. Saiu um pé, o tempo passava e nada da criança acabar de nascer. Passados três dias nessa situação, a mulher morre, não morre, o marido chamou Seu João, que aplicou-lhe uma anestesia local, dessas usadas para extração de dentes - ele era dentista prático -, e fez a cirurgia, salvando a vida da parturiente.
Tote trabalhava na farmácia do pai, o estabelecimento comercial mais bonito da cidade. Andava bem vestido, era detentor de uma bela voz de tenor. Cantava bem e tinha mania de falar difícil. Suas atitudes o faziam detestado pelos homens da cidade e adorado pelas mulheres da ZBM. Menos pelos seus dotes físicos ou por sua voz de tenor que pelo dinheiro suficiente para custear cerveja, cachê e a bebida da moda: cuba-libre.
Seu João, pai de Tote, também frequentador assíduo da casa de Augusta, era um homem rico para os padrões locais e, embora não fosse um pródigo, deixava na casa lucro razoável, além de ser o “médico” de todas as “meninas”.

CAPÍTULO LIII

Fiquei deveras constrangida pelo o barulho e por tudo mais de feiura nessa lamentável bebedeira, que para piorar ainda mais minha inadmissível atitude aconteceu por causa de um homem que sequer era o meu, até porque, graças a DEUS não tenho nenhum.
Mas é como dizem, “águas passadas não tocam moinho”. Recuperada a saúde - passei uns bons dez dias convalescendo -, voltei à atividade como se nada tivesse acontecido, mas isso para os outros porque, para mim mesma, naqueles dias, eu era apenas um arremedo do que fora, tal era meu estado de espírito.
Assim que fiquei bem de saúde, Nania e Santinha foram ao cartório e marcaram o casamento (que fora adiado por causa de meu estado de saúde), indicando para testemunhas do ato eu e o Alaor.
A cerimônia nupcial foi simples e se realizou às três horas da tarde com a presença apenas do juiz, do escrivão e das duas testemunhas. Após a cerimônia o jovem casal foi curtir a lua-de-mel na casinha branca já conhecida do leitor.
Na minúscula casa, no tamanho exato para duas pessoas, a vida começou, ou melhor, recomeçou como era esperado pelo casal, com a suavidade do amor que tudo entende, quando a paixão torrencial dá lugar à suavidade da compreensão mútua, da admiração sem limites...
Naquele paraíso particular, viviam um para o outro, sem sobressaltos, sem dúvidas a atormentar-lhes ou embaçar, ainda que de leve, aquela convivência só possível em obras de ficção.
Essa felicidade foi favorecida por Alaor que concedeu a Nania um mês inteiro para ficar à-toa, só por conta do amor, sem prejuízo do salário.
Passados os trinta dias, a folga terminou, chegando a hora de encarar a realidade da vida e voltar ao trabalho.
A primeira viagem foi um tormento para o casal. A preocupação de Santinha, com medo de acontecer algum acidente com seu marido e o marido morrendo de medo de sua amada ser atacada por algum malfeitor. Pensando assim, começou a se arrepender de ter adquirido aquela casa tão afastada de vizinhos.
Preocupação boba de gente apaixonada. Tinha perigo nenhum não.
As preocupações do casal se dissiparam com o passar do tempo, de modo que ao fim de um mês extinguiram-se as inquietações, os sobressaltos, os sonos agitados e as lágrimas infundadas.
Foi nesse mesmo lapso temporal que começaram aparecer o que seria o maior perigo para a boa convivência do casal, entretanto Nania nem Santinha suspeitava desse perigo. Estavam muito felizes para se preocuparem com perigos invisíveis. Mas, inobstante despercebido pelo casal, o perigo era real e estava bem próximo deles. Mas, por hora, vamos deixar isso de lado e vamos dar um passeio lá para as bandas do Manabuiú. Vamos à Lagoa, aquele povoado onde ocorreram a maioria dos fatos dessa história. Foi lá que Nania conheceu Santinha e foi lá, também, que quiseram pegar Pedro Gamela e saiu naquela carreira maluca, passando vários dias escondido no mato.
Um pequeno povoado localizado próximo às cabeceiras do Paracatu, Lagoa era um patrimônio famoso pela valentia dos homens que moravam no lugar e suas adjacências. Fama imerecida. De fato, ocorriam ali muitos crimes de homicídio, mas isso não era sinal de valentia, até pelo contrário, demonstrava, na maioria das vezes, excesso de covardia, já que as mortes eram quase sempre, praticadas por empreita, geralmente na tocaia.
Um desses matadores por empreita, cujo nome se perdeu nos escaninhos da memória do povo, era o Quinca. Baixinho, barrigudo, pálido, de uma palidez doentia, Quinca vivia exclusivamente do gatilho. Matar era sua profissão. Usava ele um única arma: uma garrucha polveira, de carregar pela boca, coronha de madeira. Cada pessoa que ele matava, ele batia uma tacha na coronha da garrucha. Chegou um momento que o cabo da arma não tinha espaço para mais nenhum prego. Aos trinta e cinco anos de idade, perdeu a conta de quantos havia matado. Ele sabia contar somente até cem.
Pedro Gamela era um finório, inescrupuloso. Se era para dar prejuízo a alguém, ele não hesitava, mas não tinha coragem de matar nem uma galinha. Nem no tempo de criança numa favela de Belo Horizonte, onde fora criado, ele brigou. Ali, todo menino brigava, batia, apanhava, mas Gamela tinha horror à violência. Jamais deu um tiro de arma de fogo, embora tivesse sempre alguma em seu poder.
Zeca Brito, um daqueles homens que perdia no buso de Pedro Gamela e queriam pegá-lo, quando ele disparou no rumo do mato, contratou o Quinca para reaver a fazenda que ele havia perdido no jogo.
Quinca mandou ferrar das quatro patas seu burrão roxo, o “Rompe Mundo”; sua mulher preparou-lhe uma boa quantidade de paçoca de carne seca; ele colocou no coldre da guaiaca a sua velha e infalível garrucha polveira, companheira de muitas empreitadas; enfiou na cabeça um chapéu preto de abas largas, fita branca e barbicacho; e abriu o pala no mundo, rumo a Goiás, buscando desincumbir-se da missão profissional. Ia triste, balançando molemente o corpo sobre os arreios, no compasso da marcha picada do Rompe Mundo. Triste, não pelo fato de ter de cumprir seu compromisso de entregar na mão de Zeca Brito o documento da fazenda ou a orelha de Pedro Gamela. Isso para ele era café pequeno. O que o aborrecia era ter de sentar a cara no mundo, rumo ao sertão de Goiás.
Por trilhos e carreadores, varando cerrados e veredas, atravessando a nado e a vau, rios e riachos, todo dia, de sol a sol, o extraordinário Rompe Mundo deixava para trás dez léguas puxadas.
Foi nesse batidão, que num domingo, quando o sol, escondendo-se atrás da Serra Dourada, acenava despedidas ao povo de Uruaçu, enviando-lhe fúlgidos raios avermelhados, Quinca sofreou o Rompe Mundo em frente à Chácara do Silva, exatamente onze dias depois que saíra da Lagoa. Desarreou o Rompe Mundo na Casa dos boiadeiros. Depois de um belo banho, uma boa escovada nos pelos e uma substancial ração, Quinca soltou-o no pasto, não sem antes fazer-lhe carícias no focinho e dizer-lhe baixinho que ele era o melhor animal do mundo. Terminados os cuidados essenciais com o animal de sela, Quinca se deliciou com um banho de água fria, numa bica no fundo do quintal. Armou a rede nos caibros da casa, ascendeu um cigarro de palha e foi pitar sentado na cerca do curral, olhando as luzes da cidade que começavam a brilhar naquela hora em que já não é dia, mas ainda não se fez noite. É a hora do lusco-fusco, quando todos os gatos são pardos. Hora perigosa para o profissional do gatilho, quando as almas do outro mundo vêm rodeá-lo, clamando por justiça. Almas mandadas de volta para o lado de lá antes do tempo, por força de sua garrucha. Começou a pensar nos que ele havia matado, nas viúvas, no meninos órfãos, pedindo esmolas na festa de São Braz. Nesse ponto de suas lembranças, sentiu uma friagem a subir-lhe pela espinha e teve a sensação de que seus cabelos se arrepiaram, dando-lhe a impressão que o chapéu se elevou a um meio palmo. Ele desceu da cerca, foi onde estava pendurado o arreio, pegou uma garrafa de pinga e virou uns quatro dedos no bucho.

CAPÍTULO LV

Nessa noite, Quinca não saiu, ficou ali pela chácara conversando com os peões de boiadeiro também arranchados. Apresentava-se a eles como colega de profissão, mas sempre procurando, veladamente, obter alguma informação que o levasse a Pedro Gamela. Não conseguiu nada. Ninguém ali conhecia esse tal Gamela, até porque, regenerado, Gamela tinha virado Pastor Evangélico, detalhe, até aquele momento, ignorado por Quinca.
O dia seguinte, o pistoleiro tirou para continuar descansando da viagem. Matou o tempo bebendo pinga com limão e tirando o gosto com carne seca assada na brasa, ou agachado, de cócoras, à sombra dos muitos pés de manga que havia na chácara, lavrando pauzinho com seu canivete corneta, do cabo de chifre. Pegava um pau qualquer, que fosse macio, e lavrava-o até acabar. Era como apontar lápis. A gente vai apontando e quebra o miolo; aponta de novo, torna a quebrar e assim por diante, até que o lápis acaba. Desse jeito era aquele passatempo de Quinca, até porque ele lavrava os paus no feitio que se faz a ponta do lápis.
Nesse come, bebe e lavra pau, Quinca ficou uns cinco dias, na chácara, curtindo o bem-bom do ócio, a pretexto de descansar dos dias de viagem, mas o que queria mesmo era alguma notícia de Gamela.
Tendo em conta que deverei entrar como protagonista do próximo Capítulo, estou devolvendo a narração ao autor desta história, que provavelmente vai conduzi-la até o fim. Como você, leitor, sabe, assumi a narração no Capítulo XLVI. Adorei a experiência, mas é difícil compatibilizar o cargo de narradora com a minha profissão.
Como você sabe, sou prostituta e já estou sabendo que o autor está querendo jogar o mequetrefe do pistoleiro na minha cama e eu ficaria muito constrangida em ter de contar, eu própria, esse caso. Passo, pois, a batuta ao autor e vou para o meu canto, cumprir a minha sina.

CAPÍTULO LVI

 

Na noite do quinto dia na chácara, Quinca decidiu dar uma volta pela cidade. Ver se obtinha alguma informação do Gamela. Foi parar na casa da Augusta. Lá, não resistiu aos encantos de Diva, violando, assim, princípio fundamental de sua perigosa profissão. De fato, namoro, cachaça e pistolagem são incompatíveis entre si. Não é difícil entender isso. A pistolagem é algo que precisa ser mantida em absoluto sigilo. Os namorados não têm segredos entre si, pelo que acabem fazendo revelações proibidas; já a cachaça tem o poder de desligar os freios e abrir a boca do bêbado para tudo quanto há de inconveniente. Se cada um de por si já se faz perigoso para o pistoleiro, o que dizer dos dois juntos namorando e bêbado? Você mesmo pode tirar as conclusões.
Quando Quinca bateu os olhos em Diva, seu coração começou a pulsar fora do compasso.
E
la, com seus já famosos saltos de vinte centímetros, uma generosa mini-saia de linho azul piscina, era a própria visão do inimaginável; a personificação da sensualidade realçada pelos gestos discretos, aproximou-se dele e disse com voz suave  e em bom português:

-Em que posso ajudá-lo, senhor?
Ele, um tanto sem jeito, com trajes de peão; enorme garrucha na cinta; chapéu preto de aba larga e fita branca, pendurado às costas, preso ao pescoço pelo barbicacho; botas pretas de cano longo, lenço de seda preto no pescoço, tudo isso realçado por um bigodão de pontas torcidas. Este é o emissário do inferno, pensou Diva consigo mesma. Como ele permanecesse calado, ela repetiu a indagação:
-Em que posso servi-lo, senhor?
-Que... que... que... quero uma cerveja bem gelada.
-Pois não. Queira ocupara aquela mesa.
Diva indicou uma mesa desocupada a um canto da sala e foi ela mesma ao refrigerador “a querosene”, escolheu uma garrafa bem gelada.
Serviu a bebida e a convite do cliente, sentou-se à mesa com ele e bebericou um copo.  Enquanto conversavam observou que ele não era gago como lhe parecera, mas usava uma linguagem que lhe era estranha. Perguntava insistentemente se ela sabia de alguém que pegava empreitada de quebra de milho. Não. Ela não sabia. Não entendia nada de roça. Essa pergunta ele fazia por absoluta falta de assunto e porque se achava muito constrangido diante daquela mulher bonita, elegante e usando uma linguagem parecida com linguagem de doutor. Tinha assistido a um júri em Patos e tinha achado muito bonito o jeito do advogado falar.
- fala que nem um advogado que vi em Patos!
-Você acha isso feio?
-Não. Acho é danado de bonito. Tô quereno falar um trem procê, mais tô com vergonha.
-Pode falar.
-Não. Tô com vergonha.
-Você quer me namorar?
-Não senhora. Não. Eu quiria era...
-Você quer fazer amor comigo?
-Fazê amore... Que que é fazê amore?
-Fazer neném.
-É isso que eu quero. Quanto a senhora cobra? Gosto de acertá antes...
Quinca voltou para a chácara onde estava arranchado, e passou o resto da noite virando na rede pra-lá-prá-cá. Levantou-se sem pregar os olhos. Antes de o Sol sair, lavou o rosto na grande bica de aroeira que corria de parelha com a cerca do curral, fez a barba com seu canivete corneta. Cabo de chifre, mirando-se a um espelho redondo de bolso, e observou que estava com os olhos vermelhos por falta de dormir. Enquanto fazia a barba, pensava: Eta água... Dá pa tocá muita coisa. Até engenho, dá.
Quinca passou aquele dia encafuado. Não conversou com ninguém e nem ficou de cócoras debaixo do pé de manga lavrando pauzinho. Soltava longos e doridos suspiros e de quando em vez um gemido brotava-lhe das entranhas. Se alguém pudesse penetrar-lhe a alma, saberia que sua cabeça estava ocupada pela Diva.
Naquele dia tomou banho mais cedo, vestiu sua melhor roupa e aguardou com sofreguidão a hora de ir à casa da Augusta. Queria ser o primeiro a chegar. Em verdade, sua melhor roupa era apenas um pouco mais nova que as outras. Nada que pudesse agradar às vistas exigentes de Diva. Não melhorou nada em relação ao dia anterior. Mal comparando, no que tange à aparência física, era oTrem Ruim em pessoa. 

CAPÍTULO LVII

 

A pressa não foi bastante para que fosse ele o primeiro a chegar à Augusta naquela noite, de forma que encontrou já a casa cheia. Diva, requisitada como era, àquela hora já estava com outro cliente. Isso não entrava na pequena cabeça de Quinca que não aceitava que ela fizesse isso por profissão e nunca por amor, até porque amar é verbo proibido no dicionário da prostituta, assim como o é no do pistoleiro consciente dos riscos de sua profissão. Mas Quinca era diferente de seus colegas. Vivia da pistolagem, mas não tinha consciência do verdadeiro significado de seus atos. Sabia que não era certo, mas era uma sabença vaga, indefinida... Sabe-se que o pistoleiro, do ponto de vista estritamente pessoal, é, via de regra, uma pessoa de inteligência curta, que não teve oportunidade de cultivar os bons sentimentos. Visto de outra banda, do ângulo sociológico, poder-se-ia dizer que ele é uma vítima da estrutura social, que vai se afastando lentamente do caminho do bem e quanto mais afasta, mais tem que afastar porque, se antes era desprezado, depois do primeiro crime passa a ser odiado e perseguido por dois inimigos poderosos: o Estado e a sociedade. Sob este aspecto, a vida de Quinca tinha muito a ver com a de Diva. A prostituta passa por esse mesmo processo de degenerescência. Inicialmente conhece a miséria. O começo de seu infortúnio ela o conhece logo em seguida ao recebimento da primeira gratificação por uma noite de amor. Daí por diante vira inimiga da sociedade, é perseguida, discriminada e segregada.
Entretanto Quinca não sabia disso. O que ele sabia era que a polícia andava querendo prendê-lo à-toa e que naquele momento a única coisa que lhe interessava era o carinho de Diva. Não podendo tê-la consigo, fez o que fazem os idiotas nessas ocasiões: enterrou a cara na cachaça.
Menos de duas horas depois, quando ele já se achava mais bêbado que um gambá, Diva ficou livre e o procurou para um chamego.
Todo bêbado tem língua solta e gosta de contar vantagem. Quinca que era normalmente um homem reservado, quis fazer boa figura diante de sua amada, mas não se lembrava de ter alguma vantagem para contar que não fosse ligada a sua profissão.  Com voz pastosa, disse:

-Diva, cê tá veno esta garrucha aqui? Tá veno essas tachinha pregada aqui na coronha?
-Estou. O que significa isso?
-Cada tachinha dessa é um que mandei po inferno.
-A maioria delas é branca, mas tem algumas douradas. Por quê?
-As marela, o preço foi dobrado. Esta semana prego mais uma marela aqui nesse cantinho aonde inda tem um lugazin.
-Cruz-credo. Você vai matar mais um? Quem é?
-Pedro Gamela. Cê cunhece ele?
-Não conheço, não. Mas por que você quer matá-lo?
-Eu num quero não, uai. Vou matar ele porque um sujeito lá de Minas me pagou pa fazer isso.
-Mas que motivo tem essa pessoa que mandou você aqui, tão longe, para matar um homem?
Quinca contou toda a história da empreitada e os motivos do mandante, confessando que até aquele momento não havia conseguido nenhuma notícia de sua futura vítima, o que talvez fizesse retardar sua estada na cidade.

CAPÍTULO LVIII

 

Diva conhecia muito bem Pedro Gamela e sabia onde ele morava. Sabia até que ele era pastor de uma Igreja Protestante, num povoado perto de Uruaçu, onde era uma pessoa muito querida e respeitada, por suas virtudes, principalmente por sua dedicação à comunidade, particularmente às famílias carentes. Esse conhecimento de Diva vinha de uma sua amiga natural daquele povoado que lhe contava as dificuldades de sua família até a chegada do Pastor Pedro Gamela e como tudo mudou depois que ele assumiu ali a direção da igreja. Promovia festas para angariar recursos com que supria as necessidades mais urgentes da pobreza. Com as doações que recebia do exterior, construía casas, comprava terras e distribuía com as famílias. As suas pregações eram cantos de louvores aos que, de uma forma ou de outra, faziam alguma coisa para melhorar a distribuição da renda e da riqueza, a seu sentir, única forma de solucionar o problema da pobreza no mundo. Dizia que suas ações e as ações de sua igreja eram apenas um paliativo que minimizava as necessidades mais urgentes, entretanto a solução do problema somente viria com conscientização da sociedade e com a implementação de políticas públicas que possibilitasse justa e equitativa distribuição das riquezas. Condenava os salários milionários dos desportistas e dos artistas, que muitas vezes ganhavam em apenas uma noite, enquanto dormiam, o equivalente a cento e sessenta salários mensais de um trabalhador comum. Dizia ele: “trocando em miúdos, um certo jogador de futebol dorme às oito horas da noite. Quando acorda às seis horas da manhã seguinte, ganhou o equivalente a treze anos e quatro meses de salários de um trabalhador. Pior de tudo, é que esses salários absurdos são pagos, na maioria das vezes, com incentivos fiscais, pelo que vale dizer que esses marajás se enriquecem com o dinheiro que deveria ser aplicado em políticas públicas, como educação, segurança e saúde. Deles, há, quem chega a ganhar em um único dia, esteja ou não em atividade, os salário de mais de trinta e cinco anos de um pai de família que vive do trabalho anônimo”.
Por esse discurso cheio de verdades, porém muito mais por suas ações, o Pastor Pedro Gamela era idolatrado pela comunidade. 

CAPÍTULO LIX

Diva, por espírito de justiça e ainda pela admiração que sentia pelo Pastor, relatou a sua amiga, tintim por tintim por tintim por tintim o que ouvira de Quinca a respeito da planejada morte do Pastor, inclusive os detalhes do plano de execução que deveria ocorrer assim que o pistoleiro soubesse onde encontrar sua vítima.
A amiga de Diva, que era conhecida por Goianinha, foi no mesmo dia levar a notícia ao Pastor. Preocupado, tendo como certa a sua morte, no culto daquela noite falou do fato a sua comunidade, esclarecendo que conhecia Quinca de vista e sabia que ele já havia matado, por encomenda, cento e tantas pessoas e que fazia isso com a mesma tranquilidade com que tomava uma xícara de café. A comunidade ficou preocupada com a possibilidade de perder seu líder e benfeitor. No dia seguinte, bem cedo, um morador do povoado foi a Uruaçu para um encontro secreto com Quinca. Em sua conversa com o pistoleiro, informou-lhe o paradeiro de Pedro Gamela; deu detalhes de sua vida e cobrou uma elevada importância pela informação e para auxiliar na execução da empreitada, que deveria ocorrer na manhã do Domingo seguinte, na hora do culto. O informante exigiu antecipadamente o pagamento do valor combinado.
Naquele Domingo o culto foi particularmente concorrido. O templo não coube nem metade dos fiéis que lá compareceram, fato que deixou o Pastor um pouco intrigado, passando-lhe rapidamente pela imaginação que tanta gente na igreja, seria, certamente, por causa da notícia que brevemente ele, Pastor, estaria morto. Atento aos fiéis, notava neles uma certa inquietação, atribuindo, também a isso o fato da proximidade de sua morte.
Quando iniciou o sermão, ouviu estampido de foguetes e todos começaram a olhar para trás, a se levantarem e saírem para fora da do templo, em fila e na mais harmoniosa ordem, até que ficou sozinho pregando para o vento.
Suspendeu a pregação e se encaminhou para a porta principal do templo, chegado a ela exatamente no momento em que a multidão, em absoluto silêncio, corria de todos os lados para um ponto central comum. Ouviu gemidos e gritos de dor. A custo, abriu caminho entre a multidão, mas quando chegou ao ponto de convergência, de onde vinham os gritos e gemidos, era tarde, esses já tinham silenciado e jazia ali, a cem metros da igreja, o corpo de um homem, irreconhecível pelo tanto que estava machucado de pauladas, pedradas, chutes. Homens, mulheres, crianças, velhos e jovens, todos participaram do linchamento. Ao lado do corpo, um chapéu preto de abas largas, fita branca e barbicacho; ao lado do chapéu, uma garrucha polveira, com a coronha cravejada de tachinhas.
Voltando o povo para o interior do templo, o Pastor continuou o sermão sem fazer qualquer referência ao episódio. Terminado o culto, escreveu uma longa carta e entregou a um positivo para levá-la ao Delegado em Uruaçu. A polícia compareceu ao local, o Delegado examinou o corpo, tirou uns papéis da pasta, inclusive umas fotografias, examinando tudo atentamente. Em seguida, chamou o Pastor e determinou que a comunidade providenciasse o sepultamento ali mesmo no povoado, para evitar especulações. Na Delegacia, fez um relatório e encaminhou à Secretaria de Segurança Pública de Minas Gerais. Nunca se soube o que continham aqueles documentos nem o que foi relatado às autoridades mineiras. Os funerais foram pagos com o dinheiro que Quinca adiantou ao informante. O Pastor Gamela recomendou a seus amigos que cuidassem do burro do falecido, o que foi feito com carinho. Depois do sepultamento, Rompe Mundo, arreado, voltou sem o dono, para Uruaçu, passando sozinho por mata-burros e porteiras, indo parar na chácara do Silva.

CAPÍTULO LX

Pedro Antônio Alves Martins dos Guimarães Gamela ou simplesmente Pastor Gamela conseguiu pelo milagre da fé mudar o rumo de sua vida, passando de jogador desonesto, que vencia seus parceiros usando a fraude como regra, a benfeitor de toda uma comunidade. Suas ideias sociais ganharam o mundo, outorgando-lhe considerável fama em toda a região do Médio Norte Goiano.
Joaquim Nania custou acreditar que o famoso Pastor Gamela era o mesmo Pedro Gamela que lhe havia roubado e depois devolvido uma fazenda de porteira fechada. A dúvida somente se dissipou no momento que ficou cara a cara com ele, numa visita que lhe fez para discutirem alguns problemas sociais, inclusive sobre a distribuição da terra em Goiás, assunto que já começava a interessar a políticos e intelectuais, merecendo manchetes no Repórter Esso e grande reportagem na revista O Cruzeiro, então, os dois mais importantes veículos do jornalismo brasileiro.
Gamela teve um grande susto quando viu Nania, mas usando o sangue frio do grande jogador que fora, conseguiu manter a calma aparente, embora, por dentro, estivesse se roendo de medo. Foi um alívio quando Nania lhe disse o motivo que o levava à presença do famoso Pastor.

CAPÍTULO LXI

A conversa entre os dois antigos adversários foi cordial e civilizada. No começo, houve natural constrangimento entre ambos, por causa dos incidentes que advieram do jogo em que Nania perdeu todos os seus bens para Gamela, incidentes esses já conhecidos do leitor. Mas com o desenrolar dos assuntos tratados, dissipou-se o constrangimento inicial; a conversa desenvolveu naturalmente e foi tão proveitosa, que decidiram voltar a se encontrar no Domingo seguinte para traçarem alguns planos de ação, o que eles chamaram de “passar do discurso à ação”.
N
o encontro seguinte, tratando dos meios para implementar sua ideias sociais e transformá-las em ações eficientes, na busca de instrumentos fortes para consecução dos objetivos almejados, e diante da fama e popularidade do Pastor Gamela, acertaram que ele seria candidato a vereador, levando suas ideias sociais como plataforma para a campanha eleitoral.
A candidatura do Pastor Gamela foi acolhida com entusiasmo pela comunidade evangélica. Cada irmão na fé transformou-se num eficiente cabo eleitoral. O resultado dessa acolhida foi a extraordinária votação alcançada pelo ex-jogador, que obteve, sozinho, a invejável marca de trinta e um, vírgula sete por cento da totalidade dos votos válidos, o que deu a seu partido cinco das sete vagas existentes na Câmara Municipal. Os demais candidatos de sua agremiação, obtiveram juntos trinta por cento dos votos.
Como representante do povo na Câmara Municipal, tal qual como o fora quando pastor, o Vereador Gamela foi defensor intransigente dos direitos dos pobres, e, com a colaboração de Joaquim Nania, conseguiu aprovar e implementar projetos importantes  a favor de sua gente, tal como, por exemplo, uma lei obrigando o Município a aplicar um mínimo de cinco por cento da arrecadação em aquisição de terra para implantação de projetos de aglomerados agro urbanos, onde seriam doadas às famílias participantes pequenas glebas de dois hectares cada, com casa de residência e infraestrutura para cultivo de hortaliças e criação de animais de pequeno porte como coelhos, cabras, ovelhas e galinhas. Os aglomerados deveriam contar com serviço de água tratada, escola de primeiro grau, transporte regular e posto de saúde.
Durante seu mandato, conseguiu nosso Vereador fazer com que o prefeito implementasse o primeiro projeto, instalando nele duzentas famílias, ao longo dos quatro anos de mandato, colocando, ali, portanto, cinquenta famílias por ano.
Além do projeto do aglomerado agro urbano, o Vereador Gamela, conseguiu aprovar no plenário da Câmara a construção de uma feira coberta, onde o produtor tinha liberdade para expor e vender seus produtos, com total isenção de taxas e impostos. Como se pode ver, os projetos de Gamela, a par de beneficiar a pobreza trabalhadora, beneficiou, também, o consumidor, que passou a ter à sua disposição produto melhor e mais barato.
O prefeito da cidade, um jovem médico com formação socialista, tinha prazer em implementar os projetos de Gamela que traziam em seu bojo todos os seus sonhos de universitário, na busca  de minimizar as desigualdades sociais, particularmente no que se referia à distribuição das riquezas do País. Isso era tudo de que Gamela precisava para crescer no conceito dos eleitores.

CAPÍTULO LXII 

Enquanto trabalhava por sua comunidade na Câmara Municipal de Uruaçu, o Vereador Gamela se preparava para sua próxima etapa política. Com a ajuda de sua igreja, levou para a cidade um professor de sociologia e gramática, estudando com ele durante quatro anos, de forma que ao final do mandato estava devidamente preparado para o exercício de qualquer cargo político. Fez um curso intensivo de oratória e revelou-se um extraordinário tribuno, arte de que já tinha boa experiência prática, como pregador capaz de arrebatar multidões de fiéis.
Candidato ao cargo de Deputado Federal, foi eleito com folga, alcançando a maior votação do Estado, deixando para trás velhos caciques da política goiana. Isso consolidou seu prestígio eleitoral e aumentou sua responsabilidade perante a sociedade, mas ele se achava preparado para o exercício do mandato, de forma que o sucesso dos palanques foi transferido para a tribuna da Câmara, pelo que lhe foi outorgada a condição de líder do governo. Dono de uma oratória vibrante consubstanciada em discursos bem construídos, capazes de prender a atenção do ouvinte desde o intróito até a peroração, passando, evidentemente, por uma argumentação alicerçada em raciocínios que não mereciam retoques, por isso mesmo, irrefutáveis.
Apresentou e aprovou projetos de grande interesse para a Nação e para o Estado, que vieram a modernizar, e muito, as relações do governo com a sociedade, principalmente nas áreas trabalhista e previdenciária. Sua fortíssima atuação a favor dos mais pobres, chamou a atenção da intelectualidade brasileira, que o fez seu líder natural, consagrando-o como o mais importante político do País, naquele momento. Por tudo isso, arrostou a perseguição implacável dos artífices do golpe militar de 1964. Foram-lhe cassados os direitos políticos e o mandato de Deputado Federal, além de ter sido preso e deportado. Na prisão, foi torturado física e moralmente pelos agentes da ditadura. Houve momentos que chegou a pedir a Deus que o livrasse daqueles suplícios, ainda que para isso fosse preciso morrer.

 

CAPÍTULO LXIII


A parceria entre Nania e Alaor estava dando bom resultado, tanto no plano econômico quanto no político social. Por este lado, estiveram um longo tempo fora de ação, no período em que Gamela cumpria o mandato de Vereador, e Nania era seu assessor. Para retomar as atividades sociais ao lado de Alaor, Nania recusou convite do Deputado Gamela para chefiar seu gabinete na Câmara dos Deputados. Essa atitude muito fortaleceu o elo entre Nania e Alaor, consolidando a amizade entre ambos, até porque para continuar ao lado de seu amigo caminhoneiro, Nania recusou um salário de, pelo menos, trinta vezes o que ganhava trabalhando como ajudante de caminhão.

Mais do que ganhar dinheiro, interessava a Nania continuar sua pregação, levando aos pobres a consciência de seus direitos, indicando-lhes os caminhos possíveis para chegar a eles. O viajar constante como caminhoneiro e a conversa de pé de ouvido constituíam vigoroso instrumento de propagação de ideias, principalmente as conversas individuais, porquanto essas, com as pessoas certas, podem se multiplicar rapidamente, em proporções geométricas, com muito mais eficiência que os discursos para grandes platéias.

 

CAPÍTULO LXIV


Naquele tempo, o rádio era a grande força da comunicação. Emissoras radiofônicas de grande alcance cobriam todo o planeta. Estações da Europa e da América do Norte mantinham programações diárias em Língua Portuguesa especialmente para o Brasil. Poderosas estações do Rio e de São Paulo cobriam todo o território nacional, influenciando a população, principalmente no tocante à fala e à música. As radiosnovelas mantinha a população com os ouvidos colados aos receptores, enquanto os noticiários (com destaque para oRepórter Esso e O Globo no Ar) informavam instantaneamente os principais acontecimentos do Brasil e do Mundo. Os programas musicais eram as grandes atrações na área cultural, revelando grandes nomes da música popular, tanto intérpretes como compositores. Poder-se-ia dizer, sem saudosismo, que aquela foi a época áurea da música popular brasileira.

Muito longe do prestígio que tem hoje, a música sertaneja corria por fora e atingia somente as populações rurais, transmudando-se da roça para os prostíbulos (de onde nunca mais saiu), a partir da década de sessenta, com a invasão da música mexicana e, posteriormente, com a importação de estilos rurais dos Estados Unidos. Entretanto, o sucesso financeiro para esse estilo de música só chegou a partir da segunda metade da década de oitenta, com o surgimento de duplas que até hoje “fazem a cabeça” da população oriunda dos campos. São antigos camponeses ou filhos e netos de camponeses, que trouxeram para a cidade o gosto por uma linguagem sem compromisso com regras gramaticais, independentemente da conta bancária e da faculdade que eventualmente detenham.

Esse modismo contaminou até alguns cantores que iniciaram suas carreiras interpretando músicas populares, mas que na busca do dinheiro fácil, inverteram o estilo, ficando numa posição intermediária entre o sertanejo e o popular, que alguns intelectuais apelidaram de “música breganeja”.

Deixemos aqui essas considerações de bregas e breganejos para retomar nossa  caminhada lá atrás, quando falamos do poder do rádio e de sua influência na sociedade brasileira. Então, cantar no rádio significava alcançar notoriedade, pelo que ser cantor era o sonho de todo jovem. Mas para isso, era preciso, como ainda o é, buscar oportunidade no Rio de Janeiro ou em São Paulo, os pólos irradiadores da cultura nacional.

Maria Lúcia, adolescente e bela, excelente intérprete da música popular brasileira, em Uruaçu, era adorada pela mocidade local que a aclamava “rainha da juventude”. Sua presença no conjunto musical que embalava as movimentadas festas do Clube Recreativo era garantia de animação até o amanhecer. Lucinha vivia a sonhar com a possibilidade de tentar carreira de cantora em São Paulo ou no Rio. Para acender ainda mais seus sonhos de ser artista, sua legião de fãs vivia a telefonar-lhe incentivando sua ida para aquelas metrópoles, com o objetivo de cantar no rádio e gravar um disco, mas ela não dispunha de recursos financeiros para se manter lá até conseguir um trabalho que lhe permitisse a sobrevivência. Na busca dos recursos necessários à ida de Lucinha para o Rio ou São Paulo, a ASSOCIAÇÃO DOS AMIGOS DE LUCINHA promoveu bingos, rifas, pedágios, festas com cobrança de ingressos, arrecadando, em moeda nacional, no lapso de dois meses, o equivalente a dez mil dólares, valor que foi depositado em uma conta bancária em nome da cantora. Solucionado o problema do dinheiro, nossa cantora embarcou para o Rio de Janeiro, levando na bolsa uma carta de apresentação do Deputado Gamela, endereçada à direção da Rádio Nacional, de propriedade do Governo e que era, na época, a maior e mais importante emissora brasileira.

Quando Lucinha viu nos jornais do Rio de Janeiro a notícia da cassação do Deputado Gamela, veio-lhe à mente aquele velho ditado carregado de pessimismo: “Alegria de pobre dura pouco”. Colocou a cabeça entre os joelhos - hábito que trazia da infância, quando era contrariada em alguma coisa -, e chorou, chorou, chorou até aliviar a dor que lhe comprimia o peito.

Para chegar ao Rio, foram quatro dias de viagem. Um, de Uruaçu a Goiânia e três, de Goiânia ao Rio, em desconfortável vagão de Segunda classe, que lhe pareceu algo extraordinariamente bom, como o é a novidade para o jovem, além disso, aquela viagem significava esperança de ver concretizado um sonho que vinha de longe e representava um futuro de sucesso e de alegria, com fotos nas principais revistas do País e um  bando de repórteres correndo atrás dela, buscando matéria para seus jornais. Nos eventos populares, um batalhão de guarda-costas, a formar cordão de isolamento, protegendo-a do assédio de seus milhões de admiradores. Sonho... Sonho... Muito sonho!

Chegando ao Rio, procurou uma pensão barata que lhe fora recomendada por um amigo de Uruaçu que havia morado ali até o ano anterior, ocasião em que terminara seus estudos de Direito. Na pensão, foi recebida e muito bem tratada pela proprietária, que gostava muito do antigo estudante, agora advogado em Goiás. Tal qual o trem em que viajara, achou um luxo aquela espelunca de Quarta categoria. No dia seguinte levantou-se às cinco da manhã e quando o relógio marcava sete, já ela estava à Rádio Nacional para entrevistar-se com o seu diretor de artes. O administrador que deveria começar seu trabalho às sete horas, conforme anunciava um papel colado ao vidro da portaria, chegou somente às nove e dez. Quando Lucinha se apresentou ao contínua que organizava a fila, esse perguntou-lhe se tinha entrevista marcada com o diretor, ao que ela respondeu negativamente, esclarecendo que morava no Norte de Goiás, que chegara ao Rio na tarde anterior e que trazia uma carta de recomendação para entregar ao Diretor. O contínuo demonstrando boa vontade, pediu-lhe que aguardasse um instante que ele ia falar com o diretor se poderia recebê-la.

-Está na fila uma moça de Goiás que deseja falar com o senhor. Ela não marcou entrevista.

-É bonita?

-É linda. Uma loira de fechar o comércio.

-Eu já sei. O Deputado Pedro Gamela me telefonou de Brasília, falando sobre ela. Diga-lhe que vou atendê-la porque ela é de Goiás, a terra do meu ilustre amigo Waldir Amaral.

Dr. Ary levou um choque quando Lucinha entrou em seu gabinete, tamanha era a semelhança dela com sua ex-mulher que também se chamava Lúcia e que o havia trocado por um famoso cantor de música popular que tinha fama, também de ser homossexual, por causa de um papel que fez em um filme nacional.

Jorge Porto, o cantor, aproveitava essa fama de “bicha” para não provocar ciúme nos maridos e, sem que eles desconfiassem, levar suas mulheres para a cama. O diretor foi um deles. Quando acordou, já os chifres não lhe cabiam sob a cartola.

Dr. Ary, visivelmente embaraçado com a presença da moça, por causa das recordações que ela lhe trouxe, convidou-a a sentar-se a sua frente, chamou um contínuo e ordenou-lhe que servisse água gelada e café, começando uma conversa amena que a deixou mais à vontade diante daquela importante autoridade. Depois que ela tomou a água e o cafezinho, o diretor pegou uma ficha na gaveta, leu e perguntou:

-Maria Lúcia, e seu nome?

-Pode chamar-me Lucinha. É como sou conhecida. Ato contínuo, entregou-lhe a carta do Deputado Pedro Gamela.

-Pois não, Lucinha. O Deputado diz que você é uma ótima cantora e pede sua contratação.  Ocorre que ele t egve ontem cassado o seu mandato de deputado, foi preso e, a esta hora, deve estar embarcando para cumprir exílio na Bolívia. Sinto Muito.

Lucinha, embora já soubesse da notícia, ficou pálida e a ponto de desmaiar, sentido naquela tragédia o fim de seus sonhos de ser cantora.

Dr. Ary, com vasta experiência, percebeu o transtorno da moça e cuidou de amenizar o estrago que a notícia causou em sua bela cabecinha, dizendo-lhe:

-Me preocupe com isso não. A prisão e cassação do Deputado é apenas um detalhe que não terá nenhuma influência na sua carreira artística. Você vai vencer por seus próprios méritos, pelo seu talento, com o empurrãozinho que lhe vou dar.

-Espero que Deus o ouça, Doutor.

-Volte aqui amanhã, que eu vou marcar um horário para você fazer um teste.

-Volte aqui amanhã, que eu vou marcar um horário par você fazer um teste.

Na hora marcada, lá estava Lucinha. Nervosa, esfregando e suando as mãos. Dr. Ary não estava presente. O teste será aplicado pelo maestro da orquestra da rádio, a mesma que acompanhava os maiores cantores da época. Mas Lucinha, no teste não seria acompanhada pela orquestra, mas por um Conjunto Regional chamado “Regional do Arlindo”. Era excelente conjunto, mormente para o tipo de música escolhida por ela: Carinhoso, de Pixinguinha.

O teste foi um sucesso. Somente no quesito colocação de voz, recebeu nota nove e meio. Os demais, todos foram dez. Entendeu o maestro, com razão, que ela deveria frequentar uma escola de canto para melhorar suas notas graves, que precisavam ser ligeiramente mais fortes. Entretanto isso seria mero aperfeiçoamento, porquanto, no todo, ela era infinitamente melhor do a grande maioria dos cantores profissionais que então se apresentavam naquela emissora.

Na primeira tarde após o teste, Lucinha se apresentou ao Dr. Ary. Ele a esperava com uma ficha na mão.  Olhou para ela e examinou a ficha, balançando a cabeça em um gesto de afirmação.

-Sente-se, por favor, Lucinha.

-Obrigada.

-Você, realmente, é uma cantora excelente, como disse o Deputado Gamela. O maestro Severino ficou maravilhado com a sua arte de cantar. Nem para os nossos melhores profissionais ele dá notas tão altas. Você tem um belo futuro como cantora. Você será nossa próxima contratada.

Lucinha deu um salto de alegria, rodeou a mesa abraçou o diretor e deu-lhe um beijo, deixando-lhe a marca de seus lábios impressa na face.

-Obrigada Dr. Ary. Obrigada, meu Deus.

Lucinha ria e chorava ao mesmo tempo, tal era sua alegria. Assim que ela se acalmou, Dr. Ary recomendou-lhe que passe no gabinete do Diretor de Recursos Humanos, porquanto era aquela Diretoria que iria cuidar do seu contrato. No gabinete o Dr. Ivon, Lucinha recebeu instruções da secretária, para comparecer ali na manhã seguinte, levando os documentos necessários a assinatura do contrato.

 

CAPÍTULO LXV


Com vistas a abreviar o procedimento, Lucinha deixou com a secretária do Dr. Ivon os seus “dados” pessoais, necessários à elaboração do contrato. Assim que ela saiu, a secretária passou-os ao chefe do Departamento Jurídico, com um recado do Dr. Ary, recomendando urgência na feitura do documento, determinando que deveria ser assinado, no mais tardar, até a tarde do dia seguinte.

Na manhã do décimo dia desde a saída de Lucinha de Uruaçu, a mãe dela recebeu um telegrama vazado nos seguintes termos: “ACABO ASSINAR CONTRATO RÁDIO NACIONAL PT SEGUE CARTA COM DETALHES PT BEIJOS PT LUCINHA”.

A mensagem de Lucinha causou um grande alvoroço na cidade. Foi lida e explicada diversas vezes na Voz de Uruaçu, o serviço de alto-falante que era o veículo de cultura e informação da massa popular. À tarde o povo saiu às ruas em passeata, enchendo a principal avenida da cidade, com muita música, gritos e discursos. Foi o começo do grande sucesso de Lucinha. Foi a festa do povo. Igual, na cidade, só se viu nas vitórias da Seleção Brasileira, na Copa do Mundo.

A rápida contratação de Lucinha pela principal emissora de rádio brasileira, garantia de sucesso na carreira artística, carece de um esclarecimento, já que a regra, então, em casos semelhantes, envolvendo jovens pobres e bonitas, era um festival de promessas que sempre terminavam na cama, sem ser cumpridas. Em casos tais, a vítima acabava desiludida, humilhada, desmoralizada, sem dinheiro e sem trabalho. As de maior sorte, conseguiam uma vaga em algum prostíbulo de luxo.

No caso de Lucinha, ocorreu que sendo o Dr. Ary um intelectual ligado à esquerda política brasileira, tinha grande afinidade com o Deputado Pedro Gamela que ele considerava o mais importante político do País, do ponto de vista do idealismo progressista. Por isso, mesmo cassado, seu pedido foi decisivo para a imediata contratação de nossa cantora. O sucesso dela veio depois, graças a seu extraordinário talento para a música.

 

CAPÍTULO LXVI


Menos de dois meses depois da prisão e cassação do Deputado Pedro Gamela, chegou a vez de Nania ser atingido pelos senhores do golpe militar que suspenderam seus direito políticos sob acusação de estar ele subvertendo a ordem constitucional com suas atividades sociais. Desgostoso por não poder continuar seu trabalho a favor dos irmãos deserdados da fortuna, refugiou-se na pequena casa branca da periferia de Uruaçu, passando a viver exclusivamente para sua amada Santinha e os dois filhos do casal. O sustento da casa vinha do emprego de Santinha como professora primária, bem como da criação de galinhas que a família explorava no quintal da casa, com a área de dois hectares, com excelente renda em produção de ovos e frango.

Alaor morreu num acidente com seu caminhão, numa estrada da Bahia, fato que chegou ao conhecimento de Nania através de um telegrama que lhe fora enviado por um caminhoneiro que deu assistência ao acidentado e encontrou em sua carteira um papel com a anotação: JOAQUIM NANIA, MEU MELHOR AMIGO.

Enquanto isso, lá nas cabeceiras do Manabuiú, em Minas Gerais, Do Carmo e Massu transformavam a fazenda em uma bem sucedida empresa, graças à política social ali implantada, dando prioridade a seus empregados, que lhes propiciava significativos aumentos de produtividade e excelência na qualidade dos produtos.

Santinha mantinha regular correspondência com sua mãe que, casara com um rico fazendeiro de Feira de Santana, viúvo e sem filhos. Homem de meia-idade e de boa índole, tratava Tonica como a uma rainha, propiciando-lhe o conforto de uma bela casa na cidade e de seu infindável carinho.

O primeiro disco de Lucinha, um “LP” contendo doze canções dos melhores compositores brasileiros, alcançou formidável sucesso de crítica e vendagem.

 

F I M

 

Nota da Redação do JC: parabéns doutor Mariano, pela obra e pela história! Feliz foi o senhor no dia em que pediu para este periódico veicular, em capítulos, seu livro O JOGADOR, fato inédito na história de Uruaçu

 

Uruaçu 22/04/11

DR. MARIANO PERES reside em Uruaçu e, é advogado, escritor, poeta e membro da Academia Uruaçuense de Letras (AUL). Contatos: (62) 3357-2377 e mrianoperes@hotmail.com. Visite o site http://mariano.peres.zip.net

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